Em ‘A Outra Margem’, o mais recente filme de Luís Filipe Rocha – em exibição – Filipe Duarte é ‘Ricardo’ e...‘Vanessa Blue’. Num corpo de homem feito, aos 34 anos, o actor veste a pele de um homossexual com direito a alter-ego – ‘Vanessa’ é travesti de sucesso nos palcos – e a prémio de Melhor Actor no Festival de Cinema de Montreal (Canadá).
Numa interpretação de destaque está também Tomás de Almeida, actor do grupo Crinabel, portador de Síndrome de Down, que conquistou, ‘ex-aequo’, o galardão. Uma dupla que concentra o cerne de um filme que se faz de muitas solidões, tabus, afectos.
“O ‘Ricardo’ pensava que tinha o seu mundo assegurado e, de um dia para o outro, o namorado com quem ele tinha uma âncora emocional muito grande, suicida-se”, sintetiza ao CM Filipe Duarte. Desmoronado, ‘Ricardo’ desiste do brilho da noite lisboeta como ‘Vanessa Blue’, e ruma a Amarante, ao reencontro de uma irmã que não vê há 16 anos (Maria d’Aires), à descoberta de um sobrinho com Trissomia 21 (Tomás), à conciliação com um pai (Horácio Manuel) com o qual cortou laços, à amizade de uma ex-noiva que deixou no altar (Sara Gonçalves).
Entre o ‘kitsch’ urbano e o rural, as tramas entrecruzam-se à volta da angústia de um homossexual desnorteado e sem vontade de viver, num papel que exigiu de Filipe uma intensa preparação. Paula, professora de expressão corporal (que o ensinou nos primeiros tempos de formação), deu uma mãozinha. E Fernando Santos (travesti profissional) ajudou-o “a partir de dentro para fora. Nunca me disse põe a mão assim ou assado, ia-me dando indicações. O trabalho de um travesti não é só abrir e fechar a boca: é preciso interpretar e sentir a música”, recorda o actor.
Quanto às dificuldades inerentes à transformação, Filipe Duarte não se queixa: “Há zonas do corpo em que a depilação magoa mais e irrita como nas sobrancelhas. Sentia aquela dorzinha aguda, que puxa aquela lágrima...”.
A homossexualidade é um dos temas de ‘A Outra Margem’ e Filipe Duarte tem consciência de que, para muitos, “ainda é um tabu e muito rejeitada”. Ele próprio o sentiu na pele por parte de alguns técnicos durante a rodagem: “Quando me viam assim, meio homem meio mulher, custava-lhes até olhar para mim. É incrível, estas coisas incomodam as pessoas, estão muito à flor da pele.”
Na vida, como no filme, “fala-se da diferença e da nossa própria anormalidade a julgar a anormalidade dos outros. Oxalá faça pensar”, remata o actor que está já a rodar ‘Entre os Dedos’, de Tiago Guedes e Frederico Serra.
Luís Filipe Duarte nasceu no Huambo (Angola) há 34 anos, e, após um curso de formação de actores e do Conservatório, estreou-se nos palcos. Seguiu-se a televisão, onde fez várias séries e uma novela ‘Fúria de Viver’ (SIC). Hoje, aposta mais no cinema. É “menino da Linha” e vive no Estoril na companhia de três cães.
PRÉMIO: "CEREJA EM CIMA DO BOLO"
Mais do que orgulhoso pelo prémio de Melhor Actor que, com Tomás de Almeida, conquistou no Festival Filmes do Mundo, em Montréal, Filipe Duarte ficou mesmo impressionado com o aparato do evento. “A cidade estava toda virada para o Festival e eu nunca tinha estado num ambiente destes de cinema”, lembra. Quanto ao troféu, “foi a cereja em cima do bolo. É inacreditável mas aconteceu: ganhámos um prémio num festival de classe A!” E que não se pense que Filipe Duarte agiu de forma diferente por contracenar com um mongolóide. “Filmar com o Tomás, foi igual. A diferença é só que ele é um actor muito disponível e foi um desafio grande para mim e para os outros actores estarmos à altura dele. O Tomás não põe filtros na relação e dava-nos um abraço matinal diário do mais forte e puro. E causa um enorme fascínio pela simplicidade maravilhosa que ele tem a representar.”
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