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Correio da Manhã

Cultura
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TAMBÉM TENHO AS MINHAS DORES

O ‘rapper’ brasileiro gravou uma colectânea especialmente para Portugal, ‘Tás a Ver’, e lançou um livro de desabafos, ‘escrito em madrugadas insones e criativas’. O CM conversou com o homem que mexe com o Brasil. Gabriel o Pensador, músico .
22 de Janeiro de 2003 às 00:00
Correio da Manhã - Pegando no tema que dá nome ao disco, até parece que o Gabriel vê o que mais ninguém consegue ver. Acredita nisso?

Gabriel o Pensador - Eu falo de coisas que toda a gente vê, mas que são difíceis de traduzir, até para nós próprios. Falo das pequenas coisas valiosas da vida, que, apesar de passageiras, se podem tornar eternas. Muitas vezes não são coisas que se vêem mas que se sentem. Esse tema nasceu na minha última viagem a Portugal. Comecei a letra no avião de Angola para cá e terminei-a num barco na Indonésia. Por isso é que falo muito do mar e das culturas. Esse tema partiu de uma expressão bem portuguesa, o "Tás a Ver". Curiosamente, veio quebrar um pouco com aquilo que vinha fazendo que eram músicas muito pesadas. Esta é mais doce e harmoniosa, talvez porque tenha sido feita também numa altura muito especial da minha vida. Tinha acabado de ser pai e estava cheio de saudades do meu filho.

- Há dez anos editou o primeiro disco. Na altura falava de miséria, racismo e juventude perdida. Mudou alguma coisa?

- Pelo menos a nível político mudou. Finalmente o Brasil optou por um Governo de esquerda, mais popular e envolvido com as causas sociais. O antigo estava muito preso a costumes políticos.

- A classe artística está satisfeita com a escolha de Gilberto Gil para ministro da cultura?

- Sim, estou muito contente e, inclusive, liguei-lhe logo a dar os parabéns.

- ...mas quando Lula o convidou ele teve uma frase algo infeliz ao dizer que não conseguia viver com o salário de um ministro!

- Pode ser. Mas o que ele quis dizer é que a única coisa que exigia era poder continuar a fazer espectáculos. Ele tem uma micro empresa de 60 pessoas e, de repente não podia dizer-lhes "Olha gente, eu agora sou ministro e por isso vocês vão ficar os próximos quatro anos sem trabalho!". A decisão dele foi polémica. Há quem não entenda o facto de ele ser ministro e continuar no palco.

- No seu livro tem um poema: "Deus não me deu muita dor para eu poder assumir o compromisso de sofrer com a dor que é das outras pessoas (...) E eu choro de dor pela dor que não sinto". Acha que isso é compreendido pelas pessoas sem soar a conversa de artista?

- Pode ser complicado sim... mas devo dizer que me expus bastante neste livro. Esse poema chama a atenção e é bem honesto. É verdade que não tenho o tipo de dificuldades que a maior parte dos brasileiros tem, mas isso não significa que me sinta bem. A miséria não é só de quem a sente na pele. É difícil alguém sentir-se rico no meio da miséria. Eu sou de uma família de classe média mas tenho muitos amigos a morar em favelas e desde miúdo que observo a desigualdade que existe. Agora, é verdade que todo o poeta exagera. Eu não tenho muita dor mas tenho as minhas dores. Todo o mundo tem problemas. Na poesia não precisamos de ser tão explícitos, mas para mim ela funciona como uma espécie de terapia.

- Para quando músicas novas?

- Até Junho vou editar um disco ao vivo com três temas inéditos. Um deles é o "Retrato de Um Playboy Parte II", uma música que entrava no meu primeiro álbum. É engraçado porque fala de uma nova geração que tem o mesmo comportamento da anterior. Tem outro, inédito chamado "Cara Feia," que fala do optimismo e do novo momento político do Brasil, e outra canção sobre a amizade que eu compararia ao "Tás a Ver".

- E espectáculos em Portugal?

- Talvez em Março, mas ainda não está nada confirmado. Para já tenho de terminar o disco ao vivo, que já está em fase de misturas, e depois estou pronto para vir...

MEMÓRIAS DE UM REVOLTADO

“Penso, logo existo... me inquieto, logo escrevo”. As palavras servem na perfeição a Gabriel o Pensador, um jovem que se habituou a fazer das tripas coração e do mal dos outros o sentido da sua vida. “Diário Noturno” recupera a memória do jovem que já na escola se sentia inconformado, com o conformismo. “Por volta dos meus seis anos de idade, ao descobrir o que era o serviço militar obrigatório, protestei com veemência (...). A música surgiu na minha vida como uma válvula de escape”, escreve Gabriel que, a páginas tantas, fala das suas raizes com Portugal. “Foi minha avó portuguesa que me ensinou a rezar o ‘Pai Nosso’”. “Diário Noturno” é um livro que revela medos, delicadezas, solidão, projectos futuros, amores vários e romantismo explícito. “Nesse teu perfume/Bêbado me molho/Vendo vaga-lumes/ /Dentro dos teus olhos/Nessa tua classe/Trôpego me ajeito/Vendo um sol que nasce/Dentro do teu peito”, escreveu Gabriel em 2000 nas ilhas Mentawai.

O AMIGO SÉRGIO GODINHO

“Conheci a música do Sérgio Godinho através de uma amiga. Chorei quando o ouvi a primeira vez e mesmo o meu irmão que também é músico ficou emocionado”, conta Gabriel que, depois de ter introduzido um sample do cantor português no tema “Tás a Ver”, vai agora entrar no seu próximo disco: "Participo com os Da Weasel no mesmo tema, ‘Isto Anda Tudo Ligado’”.
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