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Correio da Manhã

Cultura
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Tchekov anárquico no Festival de Teatro de Almada

É um espectáculo surpreendente aquele que Mónica Calle apresenta, de 6 a 11 de Julho, no Maria Matos, no âmbito do 27º Festival Internacional de Teatro de Almada.
5 de Julho de 2010 às 00:04
Mónica Calle recriou 'O Ginjal' de Anton Tchekov no ano em que se assinalam os 150 anos do nascimento do autor
Mónica Calle recriou 'O Ginjal' de Anton Tchekov no ano em que se assinalam os 150 anos do nascimento do autor FOTO: Bruno Simão

A partir de ‘O Ginjal’ de Anton Tchekov, a criadora assina um trabalho em que, respeitando o texto original, deixou que o colectivo de actores (re)criasse as personagens com total liberdade. O resultado é um espectáculo anárquico e fresco, em que a peça do autor nascido há 150 anos assume o tom de um texto acabado de escrever, actual e pertinente.

 

A primeira surpresa desta proposta é a forma como começa. Durante os primeiros minutos do espectáculo, o espectador tem a impressão a assistir a uma versão radiofónica de ‘O Ginjal’, já que o palco está mergulhado na obscuridade e é impossível ver os actores, os seus movimentos, as suas reacções. Tudo o que se pode fazer é ouvir – prestar atenção àquilo que está a ser dito.

 

Gradualmente, e à medida que a luz vai aumentando, o espectador consegue vislumbrar o cenário (de Francisco Rocha): uma parede de cimento – com duas portas pequenas e um portão, que se abrem para deixar entrar a luz e as personagens. É um cenário que se mexe: quase imperceptivelmente, recua no espaço, deixando o palco aberto e à mercê dos actores.

 

E é em espaço aberto que se desenrolam os dramas individuais de ‘O Ginjal’, através da exposição de ódios e amores, a revelação de sonhos e frustrações, de pontos de vista subjectivos e de princípios filosóficos fundamentais. Mas longe da contenção em que habitualmente vemos mergulhadas as personagens de Tchekov, aqui tudo é grande, excessivo, tudo é gritado e gesticulado, numa enorme orgia de afectos, pois a encenadora parece ter dado rédea solta aos actores na construção e evolução psicológica das suas personagens.

 

Num Tchekov invulgarmente movimentado, a cena do baile e de bebedeira – que acontece na mesma altura em que a propriedade (‘O Ginjal’) é vendida em hasta pública – corresponde ao clímax do drama que, de individual, assume repentinamente o carácter colectivo. Trata-se, afinal, do fim de um mundo agonizante e do início de um outro. A vida decadente da aristocracia empobrecida e incapaz de se adaptar aos novos tempos é subitamente avassalada pela ascensão de uma nova classe de pessoas. O mujique – pobre camponês que todos ridicularizavam e que se tornou rico à força de trabalho e sentido prático – acabará por ficar com a propriedade, vingando-se de todos os que dele troçaram.

 

Interpretam, até dia 11 de Julho, Mónica Calle, Mónica Garnel, Ana Ribeiro, David Pereira Bastos, Miguel Moreira, Hugo Bettencourt, José Miguel Vitorino, Luís Fonseca, Rita Só, Rute Cardoso, Tiago Barbosa e Tiago Vieira.

 

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