Nadav Lapid é o jovem realizador de ‘O Polícia’, um filme polémico que tem somado prémios em festivais de cinema por todo o mundo. Em exibição
Correio da Manhã - A primeira frase do seu filme, ‘O Polícia', é: "Israel é o sítio mais bonito do Mundo." É mesmo?
Nadav Lapid - É curioso. É estranho ouvir tal frase quando vemos um grupo de ciclistas, muito másculos, dizer isso perante um deserto. Se fosse perante uma montanha verdejante!?... Por outro lado, é uma forma de apresentar aquele grupo, que mostra que a sua ligação com o país é de posse, como se aquele lugar fosse deles.
De facto, vê-se de imediato que este grupo - liderado pelo polícia-protagonista - é muito másculo, viril. Era importante sublinhar isso?
Há uma série de corrente de entendimentos no filme mas, antes deste homem (o protagonista) ser polícia, ele é um homem de família, carinhoso com a mulher que está grávida, com amigos... E executa todas as tarefas da sua rotina como uma missão. A vida é uma missão.
E o outro grupo, de opositores - o grupo de activistas radicais -, também tem uma missão...
Completamente. É como dois grupos que viajam numa auto-estrada e ambos aceitam as predisposições da sua vida e seguem nesta auto-estrada que pensam ser o futuro mas que, no fundo, é um muro. E o muro de cada grupo é o outro. Estas pessoas não têm complexidade, vivem as suas vidas e aquilo em que acreditam como se estivessem dentro de um submarino.
O filme é construído em duas partes: a primeira, mostra a vida de um grupo de polícias de elite de combate ao terrorismo; o segundo, jovens activistas radicais que raptam milionários para chamar a atenção do fosso social do país. Mas os grupos só se cruzam no final...
Sim, há duas razões para ter escolhido esta estrutura. Não queria aquela narrativa que mostra a acção ao estilo: ‘o homem toma duche de manhã, a rapariga brinca com uma arma em frente ao espelho e depois o espectador segue os dois e, no final do dia, eles apaixonam-se porque chocam um no outro... Queria antes que estes dois heróis e os seus grupos porque o encontro deles - o conflito final entre polícias e terroristas - é a coisa mais natural, menos surpreendente. A questão essencial é perceber quem são estes dois grupos de pessoas e dar a perceber a incapacidade de cada um deles em sair do seu meio e de si próprios.
Quem são então estes dois grupos de pessoas e de que trata ‘O Polícia'?
Um é o grupo de polícias de uma unidade especial de combate ao terrorismo, a arma do Estado contra os inimigos. Para eles, o universo é dicotómico: há os bons e os maus, que são os alvos a abater. E depois há um grupo de miúdos, à procura de organizarem as suas ideologias, cheios de ódio e alienação face à sociedade deles e ao seu país. No fundo, os polícias amam o seu país ou são treinados e influenciados a pensar que sim e os jovens odeiam-no.
Sente que os jovens israelitas se sentem maioritariamente assim, descontentes com o contexto do país?
Acho que 90% dos jovens de Israel vão tornar-se polícias e identificam-se com eles. Mas os outros sentem-se desligados, com raiva e alienados do país.
Pretendia que ‘O Polícia' fosse um manifesto político?
É uma tentativa de retratar o colectivo israelita na actualidade. O importante é ver que estas pessoas não têm ideais concretos e vivem numa nuvem: eles não procuram fazer uma revolução, procuram sim uma imagem de revolução. Há um vazio muito grande...
O filme foi polémico em Israel, porquê?
Os críticos elogiaram mas o público dividiu-se. Houve aqueles que adoraram e os que ficaram furiosos e odiaram. Ninguém ficou indiferente. E houve uma tentativa de censura já que o filme foi classificado para maiores de 18 anos. Acho que nunca tinha acontecido isso com um filme israelita.
E porquê?
Israel é um país tolerante com o cinema e financia a arte mas, no meu país, senti que toquei num tabu da sociedade ao revelar a ideia de que os polícias israelitas estão a matar terroristas israelitas e de que estes estão a atacar os ricos israelitas. E isto é impensável para o Estado israelita admitir. Acho que o filme abalou porque muita gente em Israel se identificou mas não gosta da imagem que vê.
Acha que a juventude israelita está ansiosa por mudar o rumo do país?
Sem dúvida. O clima de protestos nas ruas começou pouco depois da estreia do filme. Não digo que por causa do filme mas coincidiu e mostra que os jovens estão descontentes com o elevado custo de vida, o fosso entre as classes, a ligação perversa entre ricos e políticos... E descobriram, neste momento - ao contrário de muitos países - que podem fazer frente à situação. Antes, a guerra em Israel era só dentro das nossas fronteiras, com a Palestina, com os árabes. Desconhecíamos que era legítimo lutar pelos nossos direitos...
E conhece a situação económica e social de Portugal e da Europa?
Sim, completamente. Não temos laboratórios de montagem e sonorização em Israel e fui montar o filme em Atenas, na Grécia, o centro dos problemas. E vivi uns anos em França. O tempo todo ouvi falar de problemas de dinheiro, de crise económica... acho que não é muito inteligente humilhar os países por estarem numa situação financeira mais frágil. No final, pode tornar-se trágico...
Não é a primeira visita ao nosso país...
Não, vim cá mostrar o filme ao Estoril Film Festival e Lisboa é uma cidade fascinante. Já viajei muito mas aqui é um mundo à parte, mesmo da Europa. Por causa das cores, da luz. É uma cidade pouco uniforme, original e até melancólica mas de uma forma muito bonita.
Como o fado, já ouviu?
Sim, na última visita. Uau! É arrepiante e muito bonito.
O filme foi muito premiado em festivais de cinema: Jerusalém, Buenos Aires, São Francisco, Locarno... O que sente ao receber prémios?
Quando estava a trabalhar no filme senti que era um projecto ambicioso e que teria potencial para tocar as pessoas e ter significado. E confesso que sempre pensei: ‘Esperem para ver'. E sabe muito bem...
E a sua mãe editou o filme. O cinema é algo familiar...
Sim, o meu pai é escritor e a minha mãe editora, montou o meu filme. De alguma forma, não foi radical tornar-me escritor e realizador já que nasci nesse mundo.
Próximo projecto...
Quero fazer um filme bonito e estranho. É a história de uma professora de um jardim infantil, de 50 anos, fã de poesia mas medíocre a escrever e, na escola, tem um aluno de cinco anos que ela acha que vai ser o próximo Wolfgang Amadeus Mozart da poesia.
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