“Tanto tempo depois, para que servem os álbuns dos Pogues, além da satisfação de coleccionadores e militantes? Porque, com menos rigor do que alma, com menos precisão do que energia, nunca a regra da tradição e a anarquia do ‘punk’ viajaram tão próximas uma da outra.”
No dia em que conheci e entrevistei Shane MacGowan, líder, voz e desespero dos Pogues, temi que o agendado concerto lisboeta não chegasse a acontecer - o homem passou do absinto para a cerveja, do tinto para o ‘gin’, do Porto para o ‘whiskey’ (assim mesmo, à irlandesa), isto enquanto engolia pílulas e comprimidos de cores e formatos bem diversos.
Jem Finer, que havia de suceder-lhe aos comandos dos Pogues, teve que assumir as despesas da conversa, por manifesta ineficácia do parceiro que se limitava a insultar, alternadamente e de forma impossível de reproduzir, Margaret Thatcher [nota: primeira-ministra britânica à época] e os The Men They Couldn’t Hang [nota: banda com a qual tinha andado envolvido mas que, agora, acusava de ser uma “cópia reles” dos Pogues].
Afinal, o Coliseu de Lisboa não encheu em vão e testemunhou um dos mais frenéticos ‘shows’ até hoje realizados na sala. MacGowan é que não perdeu oportunidade de voltar a armar barulho, ameaçando os fanáticos das primeiras filas quando, na confusão, lhe desapareceu o anel que dizia ser de comprometido…
O mundo das reedições merece, desta vez, todos os aplausos possíveis. Afinal, trata-se de relançar, também em Portugal, em versão remasterizada e com nada menos de 36 (!) canções extra, os sete discos originais gravados pelos Pogues. A saber: ‘Red Roses For Me’ (1984), ‘Rum, Sodomy & The Lash’ (1985, com produção de Elvis Costello), ‘If I Should Fall From Grace With God’ (1988, produzido por Steve Lillywhite), ‘Peace & Love’ (1989, outra vez com Lillywhite), ‘Hell’s Ditch’ (1990, com Joe Strummer aos comandos), ‘Waiting For Herb’ (1993, produzido por Michael Brook) e, finalmente, ‘Pogue Mahone’ (1995). Os dois últimos já não contaram com o desnorteado MacGowan mas as explicações diferem - o cantor diz que se fartou, os seus antigos cúmplices garantem que ele foi despedido depois de mais umas valentes vergonhas no Japão. Casualidade ou não, os dois discos mais fracos do lote são os registados depois da partida do mocinho inquieto.
Pergunta-se: tanto tempo depois, para que servem os álbuns dos Pogues, além da satisfação de coleccionadores e militantes? Porque, com menos rigor do que alma, com menos precisão do que energia, nunca a regra da tradição e a anarquia do ‘punk’ viajaram tão próximas uma da outra. Nas baladas como nos momentos mais desbragados, percebia-se que os Pogues eram autênticos, ingénuos, provocadores, viscerais, únicos.
Usavam - e abusavam - das canções tradicionais irlandesas, alinhavam com a loucura quase genial das criações de MacGowan, atiravam-se com ganas quase latinas a temas de Ewan MacColl ou dos Rolling Stones, de Ronnie Lane ou de Bob Dylan, quase sempre com camuflados perfeitos.
Com guitarra, banjo, acordeão, bandolim, ‘tin whistle’, tudo ao molho com a electricidade, estão longe de representar qualquer tipo de nostalgia - há casos em que a vitalidade não esmorece. Diz quem sabe: “A música deles é a aguardente dos malditos. Os Pogues são os últimos corações puros de Dickens, Joyce e Dylan Thomas”. Quem disse? Um sábio e um prático chamado Tom Waits…
É uma das poucas mulheres que, nos dias de hoje, merecem ser consideradas ‘divas’: aos 42 anos, passa a sensação de nos ter acompanhado a vida toda. Canta indiferentemente em alemão, a sua língua natal, em inglês e em francês. Canta Kurt Weill e Michael Nyman mas também Elvis Costello e Nick Cave. Tem o charme, a sensualidade, o gelo e a voz que a tornam herdeira natural de Marlene Dietrich. Chama-se UTE LEMPER e na próxima sexta-feira, 8, vai namorar o Casino Estoril. Imperdível, outra vez.
Para completar o fim-de-semana em beleza, logo na noite seguinte (sábado, 9), o destino será a Aula Magna lisboeta. É lá que se encontra um dos mais elegantes compositores e arranjadores da actualidade, adepto do ‘retro’, do ‘swing’ , do ‘jazz’ e da Bossa Nova - o italiano NICOLA CONTE, responsável por três álbuns que ficam bem em qualquer casa: ‘Bossa Per Due’, ‘Jet Sounds Revisited’ e o mais recente ‘Other Directions’. Música de primeira água com um Jazz Combo que promete ficar na memória.
Reclamações pró-francesas: tem 27 anos, já impressionara fortemente com o álbum de estreia, ‘Le Sac des Filles’, será mais facilmente reconhecida como cantora convidada para quatro dos temas desse excelente primeiro disco dos Nouvelle Vague (cantava, por exemplo, ‘Making Plans For Nigel’ e ‘Guns Of Brixton’). Em ‘Le Fil’, segundo ensaio longo, CAMILLE esmaga e seduz pela ilimitação vocal, pela abertura de horizontes nas canções, pela qualidade dos arranjos. É quase soberbo. Mas não chegou cá.
Mais reclamações pró-francesas, outra ‘p’tite dame’ em afirmação. MYRTILLE tem 25 anos e faz de ‘Murmures’ uma sábia (porque intuitiva) mistura de ‘folk’ e ‘pop’, sem obsessões de modernidade. Diz-se que a sua voz faz lembrar a de France Gall. Pouco importa: as canções são de uma simplicidade tocante, imediatas sem imediatismos, carregadas de perfumes de Primavera, das guitarras acústicas às cordas. É da lista dos renovadores, aquela que desconhecemos quase em absoluto, vá lá saber-se porquê.
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