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Correio da Manhã

Cultura
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Um actor como nunca mais houve

Beijei-o, mas realmente nunca o conheci”, disse em tempos Ingrid Bergman de Humphrey Bogart, a propósito do encontro que tiveram em ‘Casablanca’, um dos títulos míticos da história do cinema que nunca ninguém se cansa de ver. A frase é a melhor definição de um actor de quem já tudo se escreveu e que permanece um insondável mistério, meio século depois da sua morte, durante o sono na madrugada da segunda-feira, 14 de Janeiro de 1957
14 de Janeiro de 2007 às 00:00
Sobre Bogart sabe-se tudo e quase nada. Os filmes mostram-no como actor tão formal na aparência como desconcertante na interpretação. Aparece sempre elegante, de fato e gravata ou laço e chapéu.
Costumava brincar com o ‘progresso de Hollywood’, que consistia em idolatrar, no início dos anos 50, jovens actores como Marlon Brando e James Dean, que apareciam nos filmes de ‘T-shirt’. Ele, nascido há três séculos – no dia de Natal de 1899 –, não tinha, ao contrário dos novos, passado por qualquer escola de actores, mas interpretava com uma naturalidade absoluta. Tinha estilo único e inimitável. Mais ninguém conseguirá lugar no cinema com uma cicatriz no canto direito do lábio superior que lhe provocasse um defeito na voz.
A realidade é que ‘Bogie’, como lhe chamavam os íntimos, fazia dos defeitos qualidades. A cicatriz e a voz contribuíam para o seu magnetismo, ajudavam à fisionomia de duro e cínico, à composição de personagens românticas e generosas, a que os espectadores sucumbiam. Representava altos valores morais. Não necessitava de efeitos especiais para focar as atenções, embora usasse nos sapatos uma plataforma de uns dez centímetros de altura para ficar mais alto. Sem exageros. Não precisava de aparecer acima dos outros.
Os polícias de ‘Relíquia Macabra’ são umas torres ao lado do detective ‘Sam Spade’. Ele aproveitava os seus centímetros a mais para beijar melhor. Basta ver como derrete, num abraço, Lauren Bacall que tinha a mesma altura dele – 1,73 – e, naturalmente, projectava o corpo com uns saltos altos.
Humphrey Bogart foi um actor que garantiu vida eterna ao cinema. Os seus filmes a preto e branco são absolutamente luminosos e ainda hoje se vêem sem o mínimo risco de aborrecimento. Dramas e policiais, são marcados com muita acção e frases sibilinas, para além do inexorável cigarro e do copo de uísque. Sem tabaco e álcool, nada feito. Os seus cigarros preferidos eram os Chesterfield e parece que não conseguia falar com crianças porque elas não bebiam. No resto, achava que os problemas do Mundo tinham sempre uma bebida por detrás. Para a lenda, diz-se que as suas últimas palavras teriam sido “eu nunca devia ter misturado ‘scotch’ com martinis”. E, como ajuda ao mito, o único Óscar da Academia que ganhou foi com um papel de bêbedo incorrigível em ‘A Rainha Africana’, ao lado de Katharine Hepburn.
Não teve a mesma sorte quando foi nomeado pela mesma Academia de Hollywood pelos papéis de ‘Rick’ em ‘Casablanca’ (1942) e ‘capitão Queeg’ em ‘A Nave da Revolta’ (1954), mas não lhe faltam títulos indeléveis na história do cinema. Triunfou, logo no primeiro papel principal, em ‘A Floresta Petrificada’ (1936), que ficou a dever para sempre às exigências da actriz Leslie Howard. Existe para os fãs uma lista de meia dúzia de imprescindíveis: ‘O Último Refúgio’ (‘High Sierra’) e ‘Relíquia Macabra’ (‘The Malteses Falcon’), de 1941; ‘Casablanca’, 1942; ‘À Beira do Abismo’ (‘The Big Sleep’), 1945; ‘Paixões em Fúria’ (‘Key Largo’), 1948; e ‘A Rainha Africana’ (‘The African Queen’), com Óscar em 1951.
Democrata em política e protestante episcopal na religião, Bogart pôs sempre à frente o trabalho de actor, apostado em agradar. Considerava que os actores que queriam passar mensagens deviam antes procurar um posto dos Correios. E ganhou a aposta. Cinquenta anos depois da morte, e nos tempos vindouros, Bogart será sempre nome pessoal do cinema.
PERFIL
Humphrey De Forest Bogart nasceu em Nova Iorque, a 25 de Dezembro de 1899, embora já se tenha dito que era mais velho. Há uns anos escreveu-se que o nascimento em dia de Natal era um golpe publicitário da Warner e que ele teria vindo ao mundo em 23 de Janeiro de 1899, mas investigações nos registos desmentiram a hipótese. Filho de um médico e de uma ilustradora de revistas, chegou a estudar Medicina, mas excluído por indisciplina da Phillips Academy, alistou-se na Marinha, onde ganhou a cicatriz no lábio. Parece que foi numa discussão. O mais provável é que um preso o tenha agredido com as algemas para fugir. Mas ‘Bogie’ não o deixou escapar.
ÚLTIMOS FILMES
Da derradeira fase da carreira, e a cores, sobressaem ‘Sabrina’, com Audrey Hepburn, e ‘A Condessa Descalça’, ao lado de Ava Gardner, ambos em 1954, ‘Ao Destino Ninguém Foge’ (‘The Left Hand of God’), onde fazia de padre, após aterrar de emergência na China de antes de Mao. O seu último filme foi a ‘Trágica Farsa’ no mundo do boxe.
UM FILME EM NOME DA LIBERDADE
Em plena Segunda Guerra Mundial, 1939-45, Bogart faz de cavaleiro da liberdade contra o nazismo. Em ‘Casablanca’, o americano ‘Rick’ é um desiludido do amor, amargurado com as mulheres, mas que não perde o sentido do combate pela liberdade. Ao seu bar na cidade marroquina vem parar um nórdica, com quem passou tempos paixão, quando pensava que já era viúva de um famoso resistente. E vem com ele à procura de um visto para Lisboa.
À MANEIRA DO CÓDIGO DA VINCI
No início dos anos 40, o filme ‘Relíquia Macabra’ e o policial ‘O Falcão de Malta’, de Dashiell Hammet, que deu o argumento, funcionaram como um ‘Código Da Vinci’. No fulcro da intriga está uma estatueta de ouro e pedras preciosas que o Templários deram de tributo ao rei Carlos V, em 1539.
UM POLICIAL PARA A ETERNIDADE
‘À Beira do Abismo’ é um marco da história do cinema policial. Tudo se passa à noite e a linguagem das sombras faz nascer um novo género: o ‘noir’. Bogart é, desta vez, o detective ‘Philip Marlowe’, contratado pela filha de um general para tratar da segurança da família. Ela é, no entanto, a pior da fita. É a irmã mais velha, interpretada por Lauren Bacall que desperta uma paixão que ameaça custar a vida ao detective. Os diálogos rápidos e ferozes ajudam à tensão.
APITO PARA CHAMAR POR BACALL
A química amorosa entre Bogart e Lauren Bacall, sua quarta e mais duradoura mulher, que o acompanhou até à morte, está espelhada no filme em que se conheceram, ‘Ter ou Não Ter’, realizado por Howard Wawks, em 1944: a primeira vez que se viram, já eram velhos conhecidos.
A diferença de 25 anos de idade entre os dois não impediu uma paixão tão arrebatadora quanto estável. Casado primeiro, durante menos de 18 meses, com uma actriz, Helen Menken, sua colega nos palcos de teatro de Nova Iorque, e dez anos mais velha, Bogart trocou depois alianças com Mary Philips, que também conheceu no teatro, e Mayo Methot, uma aspirante ao estrelato com quem se cruzou nos estúdios de Hollywood e que, à falta de êxito artístico, se tornou alcoólica.
Eram famosas as disputas domésticas do casal, quando Lauren Bacall, de seu verdadeiro nome Betty Joan Perske, saltou, aos 20 anos, de modelo da revista ‘Harper’s Bazaar’ para as filmagens de ‘Ter ou Não Ter’. O filme é uma espécie de nova versão de ‘Casablanca’, localizada nas Caraíbas, e onde o barco substituía o avião na fuga à opressão nazi na França ocupada e nos territórios sob administração do governo colaboracionista de Vichy. O argumento parecia um brinde ao actor, que adorava barcos e velejar, mas o grande presente foi mesmo a loira de olhos claros. Aconteceu paixão à primeira vista e ela ficou vidrada no actor, já com 45 anos.
‘Bogie’ e ‘Babby’, como se tratavam na intimidade, casaram-se a 21 de Maio de 1945 e da união muito feliz nasceram dois rebentos: um rapaz, Stephen Humph-rey Bogart, em 1949, recebeu o nome do ‘capitão Steve’, o dono de uma pequena lancha, que ajuda os resistentes antinazis no enredo de ‘Ter ou Não Ter’. É escritor e assina com Richard Schickel o álbum de ‘Bogie – ‘A Celebration of the Life and Films of Humphrey Bogart’, editado no Verão passado. A rapariga é mais nova, nasceu em 1952 e chama-se Leslie Howard Bogart, em homenagem a Leslie Howard (1983-1943), um actor amigo de Bogart que exigiu que estivesse ao seu lado em ‘A Floresta Petrificada’ (1936).
Antes do sono em que morreu, Bogart despediu-se com um “Até logo querida”, mas Lauren Bacall ainda continua cá na Terra aos 82 anos. Isto só porque ele não precisa dela. Tal como no filme em que se conheceram, onde ela o ensinava assobiar para a chamar, Lauren meteu um apito de ouro no caixão das cinzas e escreveu na pedra tumular: “Se precisares de qualquer coisa, apita”.
COMO ELES RECORDAM HUMPHREY BOGART
"ERA INTENSO DE FORMA SUBTIL" (JOAQUIM LEITÃO, REALIZADOR)
“Humphrey Bogart é um dos ícones do cinema negro e protagonista de alguns dos filmes de que mais gosto. Era um actor de grande capacidade interpretativa. Era intenso, mas de forma subtil. Recordo-me dos meus tempos de criança em que o Bogart era o grande herói do cinema para a minha mãe, sempre muito atenta aos filmes dele que passavam na RTP. Os meus preferidos são ‘À Beira do Abismo’ e ‘Relíquia Macabra’.”
"CINEMA COM CLASSE" (PAULO PORTAS, POLÍTICO E CINÉFILO)
“O actor Humphrey Bogart é um exemplo de classe no cinema. Ou de cinema com classe. Filmes? ‘Casablanca’, inevitavelmente e ‘The Maltese Falcon ‘ (‘Relíquia Macabra’) também.”
"AGRESSIVO ATÉ À DEFESA" (JOSÉ VAZ PEREIRA, CRÍTICO)
“O peso da personagem Bogart continua muito vivo. Ele era um duro com qualquer coisa de humano. Marcava pela secura das suas atitudes e tornou-se ímpar a criar climas de agressividade. Com o seu rosto cínico, era agressivo até à defesa, como acontece em ‘Key Largo’ (‘Paixões em Fúria’). Os seus filmes de que gosto mais são ‘À Beira do Abismo’ e ‘Relíquia Macabra’. Também o acho extraordinário em ‘A Rainha Africana’.”
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