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Correio da Manhã

Cultura
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Um álbum que nos arrepia

O primeiro disco chegou de ‘mansinho’ para mostrar quem era e ao que veio. Ao ‘Segundo’, a coisa pia mais fino e traz Maria Rita mais senhora de si, mas eternamente herdeira da mãe, Elis Regina.
26 de Setembro de 2005 às 00:00
‘Segundo’ foi gravado ao vivo, em estúdio, e revela a maturidade da cantora
‘Segundo’ foi gravado ao vivo, em estúdio, e revela a maturidade da cantora FOTO: Marta Vitorino
Não deve ser nada fácil ser filha de um mito e muito menos quando o ADN teima em falar mais forte do que se queria. Infelizmente para algumas coisas, felizmente para outras, Maria Rita terá que conviver com isso, porque para quem a ouve, é simplesmente impossível deixar de reconhecer o carisma, a personalidade musical, o perfeccionismo, a firmeza e sobretudo a emoção dramática da voz.
Mesmo sem uma única composição sua no álbum (“ainda não está na hora”, diz Maria Rita) e de dividir a produção com Lenine, ‘Segundo’ é, apesar de tudo, um disco autoral, da escolha do repertório à sonoridade final. À semelhança do álbum de estreia (vencedor de três Grammy latinos), ‘Segundo’ assenta na mesma dicotomia popular/sofisticado, na estrutura piano, contrabaixo e bateria, e na aposta equilibrada entre os novos compositores (Rodrigo Maranhão, Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos) e a reverência aos mestres, no caso Chico Buarque e Edu Lobo, em ‘Sobre Todas as Coisas’, maravilhosamente revisitado.
Gravado ao vivo em estúdio, ou seja, voz e instrumentos foram captados juntos, ‘Segundo’ é orgânico, cheio de curvas, explosões e silêncios, enquanto a voz de Maria Rita aponta directamente à pele. Que se arrepia ao ouvir ‘Caminho das Águas’, tema terno e firme, ‘Recado’, samba dengoso, crítico e provocador e ‘Casa Pré-Fabricada’, pejado de drama e grandiosidade interpretativa. Em ‘Mal Intento’ (do uruguaio Jorge Dexler, vencedor do óscar para melhor canção, no filme ‘Diários de Che Guevara’), Maria Rita deixa o registo mais tradicional e aventura-se em castelhano.
O arrojo prossegue no êxito do Rappa, ‘Minha Alma’ (onde o funk ganha tratamento jazzístico) e nos sussurros gritados de ‘Sem Aviso’. Depois, há os tais rasgos de carisma. Os tais que é impossível dissociar do ADN. Em ‘Feliz’, o ritmo que se ouve são as unhas de Maria Rita a martelar uma caneta de plástico e ‘Despedida’ é pura percussão, com um detalhe: o tambor foi o chão do estúdio e nem sequer falta o ‘rouge-rouge’ da vassoura que, a descompasso, por ali passou.
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