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Correio da Manhã

Cultura
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UM DIAMANTE EM BRUTO

Um conhecido crítico francês escreveu que “Tom Zé é um génio”, mas para a maioria das quase cinco mil pessoas que enchiam o castelo de Sines, ele é mais “um louco”. Génio e louco, o artista brasileiro merece figurar na galeria dos músicos-património da Humanidade, pois pratica uma sonoridade, única, tecida no improviso e na língua liberta em pleno cio.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Tom Zé mostrou-se num concerto surpreendente e irresistível
Tom Zé mostrou-se num concerto surpreendente e irresistível FOTO: José Manuel Simões
Para aqueles que vieram de Norte a Sul para ver “um quase desconhecido monstro sagrado da música brasileira”, no final a satisfação era evidente. Outros, não aguentaram o aforo e saíram mais cedo. É que a música “do velho bode anarquista”, como diz David Byrne – o responsável pela sua descoberta internacional – “expande incessantemente os limites da canção popular, adoptando formas inesperadas” que desafiam permanentemente as regras.
E o público ainda não está preparado para isso. O sarcasmo e a forma experimental altamente politizada com que apresentou os seus ‘Jogos de Armar’ – título do seu mais recente disco – acompanhados por uma série de “instromenzés” raros, foram tão ousados e vanguardistas como naives e rudimentares. É provavelmente dessas dicotomias que resulta que um concerto seu seja sempre tão surpreendente quanto irresistível.
NEM DIVAS NEM GIGANTES
Antes de Savina Yannatou ter entrado em cena, um grupo de amigos vindos propositadamente do Porto para verem Tom Zé, comentavam que tinham ouvido dizer que a cantora grega era “uma espécie de diva meia diabólica”.
Como ficou comprovado no espectáculo inicial da segunda noite do Festival de Sines foram enganados. Sem o talento das divas e demasiado frágil para qualquer postura diabólica, a cantora deu a conhecer as sonoridades de países como a Albânia, a Turquia ou a Bulgária, associando a sua voz a uma panóplia de instrumentos também eles oriundos de diferentes origens. A questão é que aquelas canções com pretensões a hinos ortodoxos foram apresentadas de forma melancólica, linear e sem chama.
Também se esperava que David Murray, acompanhado por Pharoah Sanders – duas figuras consagradas no mundo do jazz – e os elementos que compõem o Creole Project, apresentados como “autênticos gigantes das Caraíbas”, regressassem a Sines para mostrarem como se faz “o autêntico sabor da festa”. Outro engano. Executantes acima de qualquer suspeita, deram um concerto mecânico, desgarrado, onde até a beleza do improviso ficou marcada pelo fardo de muitos anos de inevitáveis repetições.
PARADOXOS
Os sineenses têm orgulho no seu festival e mostram-se invariavelmente satisfeitos por durante três dias que sejam poderem encontrar-se com gentes e sons de culturas mais ou menos distantes, revelando uma grande abertura para a boa disposição. Um dos mais satisfeitos é Manuel Coelho, presidente da Câmara local e autor, há seis anos, da ideia “maluca” como diziam os seus amigos da realização daquele que é hoje um dos eventos culturais mais relevantes do Alentejo.
Manuel Coelho, quer em privado quer publicamente, faz questão de agradecer à principal empresa patrocinadora do evento – a Galp – enaltecendo que, sem “a sua generosa contribuição”, não teriam condições de prosseguir “com esta aventura” que é ter na terra o mais importante festival de música étnica de todo o País. O que o presidente não gosta mesmo de ouvir falar é do paradoxo do seu festival ser financiado pela empresa que lhe polui o meio ambiente circundante...
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