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Correio da Manhã

Cultura
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UM MOTIM TERAPÊUTICO

Coincidência ou talvez não, Seattle volta a ser o epicentro musical do rock. Primeiro com os “renascidos” Nirvana, de quem se resgatou uma nova canção, depois com os regressados Foo Fighters de Dave Grohl (baterista de Nirvana) e agora com o retorno à ribalta dos Pearl Jam.
11 de Novembro de 2002 às 00:07
Sétimo registo de estúdio do grupo, “Riot Act” é, no entanto, um disco que nada deve ao grunge dos idos 90, mais não fazendo do que confirmar os Pearl Jam como sólida instituição do rock alternativo. Apenas e só!

Sobreviventes únicos de um movimento ao qual foram colados devido apenas a uma questão de geografia, os Pearl Jam souberam sempre crescer e apontar a outras direcções, sendo nesse sentido (evolutivo) que deve ser encarado este “Riot Act”. O que não deixa de se saudar, já que nesta altura do campeonato mais fácil seria desfrutar do prestígio conseguido ao longo de uma carreira marcada também pela tragédia.

Só que em vez de a tentarem ludibriar - referimo-nos em concreto às nove mortes ocorridas durante o concerto do grupo em Roskilde, em 2000 -, os Pearl Jam abordam-na de frente. “Love Boat Captain” é o tema em causa (e um dos mais bonitos do disco) mas, mais do que a homenagem aos fãs que não conheceram, é a coragem musical que ressalta, com a banda a incluir de forma elegante e pertinente o órgão Hammond B3.

Mas não se ficam por aí as tentativas de fuga aos lugares comuns do rock. Ouça-se, por exemplo, a abertura, “Can’t Keep”, com Vedder no tradicional ukelele, ou ainda “Save You” ou “Get Right”, dois notáveis esforços rock dominados por guitarras esgazeadas.

Apesar de dominado pela dor (e não se fala aqui do 11 de Setembro), “Riot Act” revela ainda a coragem (lírica desta vez) de Vedder, que não hesita em castigar a actual América em duas canções: ”Bu$hlaguer” e “Green Disease”. Mas é, sobretudo, a ousadia musical que sobressai, com a banda a assumir riscos que vão desde a inclusão de novos instrumentos à tentativa de fundação em estruturas mais complexas.
Ao contrário do que se possa pensar, e mesmo sem ser um disco brilhante, “Riot Act” está longe de ser o mais cinzento dos álbuns dos Pearl Jam, antes devendo ser entendido como a necessária terapia de que falava Eddie Vedder na entrevista que recentemente publicámos.
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