Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
4

UM SOLO MONÓTONO

Há anos que João Fiadeiro percorre uma certa estrada indiferente a muitos e admirado por alguns. O seu trabalho, todavia, tem vindo a revelar-se cada vez mais elitista - o público da dança conhece o seu nome, mas não vai ver os seus trabalhos… e o outro nem isso - e quando em todo o mundo o 'movimento' (saudavelmente) voltou aos palcos ele insiste em 'pintar com os pés'.
15 de Maio de 2004 às 00:00
 João Fiadeiro estreou 'Estou Aqui' em Paris
João Fiadeiro estreou 'Estou Aqui' em Paris FOTO: d.r.
A sua última criação, 'Estou Aqui', estreada em Paris e em cena até esta noite no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, reporta-se à pintura, ou melhor, à (inglória) tarefa de encher de tinta negra um imenso lençol de papel cenário.
ARFAR NO ESCURO
Uma máquina fotográfica num tripé e cinco lâmpadas fluorescentes completam um cenário a preto e branco, tão inteligente quanto frugal. Fiadeiro, que começa por impor uma pesada dose de imobilidade e passa uma boa parte do espectáculo a arfar no escuro, faz-se fotografar sucessivas vezes para projectar as imagens que serão depois por ele avivadas com um marcador.
O seu corpo - recuperando o universo conceptualista da dança americana dos anos 50 - funciona como 'operário' no escuro mas, debaixo dos riscos de néon, torna-se perigosamente apático na monotonia do andar e do correr. Depois de um período fértil em que o coreógrafo exibiu inquestionável admiração pelo poderoso movimento do belga Vandekeybus e após as suas experiências de fazer fotocopiar partes do corpo em cena 'improvisando em tempo real', hoje pouco lhe deve importar ser etiquetado de 'performer' ou 'artista visual'.
Certo é que cada um dos solos que tem produzido na última década devem ter custado ao Ministério da Cultura numa verdadeira fortuna!
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)