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Correio da Manhã

Cultura
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Uma peça de teatro (quase) mudo

Um homem e uma mulher, aparentemente marido e mulher, e um mordomo. Eis os ingredientes necessários para o crime, eventualmente passional, que o Poppi Grup acaba de estrear no Teatro da Garagem, em Xabregas, e que é para ver até 8 de Maio.
1 de Maio de 2005 às 17:31
Um espaço negro, um quadro branco no chão, quatro projectores de pé alto. É o cenário do espectáculo, onde, ao longo de cerca de uma hora, se diz muito pouco e se faz alguma (mas pouca) coisa. A acção arranca quando um narrador nos conta, em voz off, a forma como um homem mata uma mulher. As personagens não têm nome. São Ele e Ela, e acreditamos serem marido e mulher, ou algo semelhante.
Enquanto a voz vai narrando a história, um actor (Martim Pedroso) desenha no chão, com marcadores coloridos, os movimentos das personagens - uma imagem que evoca claramente o pintor norte-americano Jackson Pollock, quando exemplificava perante as câmaras a sua tão especial forma de pintar... Depois de ouvirmos a história, e quando o chão já está todo pintado, o actor retira-se para deixar o palco às personagens, interpretadas por Rita Calçada e Luís Godinho.
Aqui, sem palavras, os actores executam uma série de movimentos que inicialmente parecem contrariar a história que nos foi contada, mas que terminarão, inevitavelmente, com a morte da mulher, às mãos do homem. O aparecimento do mordomo (Luís Nascimento), no fim, a fumar um cigarro, parece sugerir um caso passional entre os dois homens, que assim se teriam livrado do impecilho feminino.
Mas estamos, é claro, a entrar no reino das suposições, porque é essencialmente de suposições que se faz a relação do público com este espectáculo. Uma vez que não há palavras e que tudo passa pelo gesto, lento e coreografado, dos actores, ao espectador não resta outra alternativa senão a de tentar adivinhar o que é que as personagens estão a pensar, o que poderão estar a sentir, o que terá levado a relação dos dois a deteorar-se ao ponto de descambar em violência. E, afinal, qual será o verdadeiro papel do mordomo?
Com um texto diminuto, aparentemente de criação colectiva (o nome do autor não vem especificado no programa), 'Marcações para um Crime' é uma proposta sem grande consistência dramatúrgica e que vive sobretudo de um lado estético muito apurado. As luzes, os figurinos, os movimentos dos actores, tudo foi concebido para encher a vista - mas não a alma - do espectador.
Em cena no Teatro da Garagem, Rua Afonso Annes Penedo, 1, Lisboa
Até 8 de Maio, de 4ª a domingo, às 22h00
Bilhetes entre os 5 e os 10 euros
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