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Correio da Manhã

Cultura
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VIAGEM AO INTERIOR DE SI E DOS OUTROS

Eles são dez em busca de umas férias diferentes com aventura mas não sem controlo, por isso as confiam a ele. Ele não sabe o que quer, por isso leva-os, deixa-se ir, desaventurado e descontrolado, em busca de si, a pretexto dos outros...E tudo acontece durante "28 Dias em Agosto".
9 de Outubro de 2003 às 00:00
Primeiro romance do autor, João Céu e Silva, antes dele houve crónica de viagem, sob o título de "Caravela Tropical", o diário de bordo que Cabral não escreveu mas podia ter escrito. Dois anos passados sobre estes "mares nunca dantes navegados", a aventura é outra.
"O meu comportamento era mais uma receita para facilitar a vida, para sobreviver entre amores fracos ou pouco recíprocos. Eu olhava-me como um verdadeiro vampiro, alimentando-me de uma mulher numa noite e de outra na escuridão seguinte. O mesmo corpo raras vezes me satisfazia à segunda posse porque já lhe faltava a frecura da surpresa".
Curioso ou nem tanto é que a surpresa não é o que faz correr o narrador. A crise, como lhe há-de chamar mais adiante, é outra e chama-se Alessandra. Ao exotismo do som, acresce exotismo maior que é o de a este nome não corresponder uma mas todas as mulheres. Amadas e por amar. Conhecidas e por conhecer. Acto de contricção, já a seguir...
"A busca da Alessandra afinal era apenas um dos lados da questão. Importante porque precisava de possuir alguém a meu lado que me tornasse indispensável. Desejado, até mesmo amado. Mas não era essa a razão única da vontade de desaparecer em mais uma viagem", lê-se.
Viagem lunar e triangular contempla as fases da lua e a geografia dos lugares. Espanha, França e Itália são paragens que servem bem a função que lhes coube em sorte: matar saudade da prosa de viajante militante e cronista inspirado.
"Havia um gato numa janela, a porta de uma casa descuidadamente aberta, crianças a andar de bicicleta. Nativos e situações que fugiam ao controlo das famílias em turismo. Mas, quando sem querer desembocou num mercado anunciado como típico, encontrou-se de novo na confusão", assim é Antibes aos olhos de quem viu, escreveu sobre ela.
"Começáramos exactamente na primeira noite, quarto minguante e iríamos terminar ao vigésimo oitavo dia do ciclo, em fim de lua cheia. Uma viagem lunar que me tinha obrigado a dizer sim ao convite das famílias".
Missão cumprida, devolvidas as famílias, quatro adultos e seis crianças, sãs e salvas, refeitas e satisfeitas, venha a moral da história: "Venho de uma viagem de introspecção. Que aceitei para me distrair e ter tempo para pensar", lê-se. Giacomo Casanova, algures citado, diz outro tanto: "A minha história mostrará que nós somos todos uns imbecis quando procuramos longe de nós as causas de tudo o que nos acontece".
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