Bichos escondidos e aprender a perder
Mourinho, sempre no olho do furacão: sujeito a algumas observações críticas no rescaldo da eliminação pelo Barcelona, o treinador do Chelsea puxou dos galões e defendeu-se com rispidez. Recebeu imediato apoio público dos pesos pesados da equipa: Frank Lampard, John Terry e Didier Drogba, entre outros, saltaram a terreiro para defender o líder e fizeram-no com o mesmo empenho e a mesma sinceridade que se pressente nas comemorações colectivas da equipa – no sábado passado, titulares, suplentes e ‘staff’ técnico fundiram-se num abraço espontâneo para vitoriar o golão de William Gallas que deu ao Chelsea vitória (2-1) ‘in extremis’ sobre o Tottenham. Mourinho é isto: um líder capaz de gerar solidariedades graníticas.
Mas Mourinho também e isto: na crónica da ‘Record DEZ’, na semana passada, sob o título “Bichos escondidos”, Mourinho vergastou os (sic) “pseudo-intelectuais e ‘jornaleiros’ de Portugal (...) que rejubilam por um dos portugueses de maior sucesso no mundo ter perdido [com o Barcelona]” e sugeriu: “arranjem bons veterinários para poderem viver muitos anos e verem-me ganhar muitas vezes”.
Passando ao largo a deselegância da frase, confesso que não percebi a agressividade de Mourinho (rejubilam?!?, quem?) e sei que houve muita gente que também não percebeu. Até por um motivo muito simples: se há profissional de futebol que tem sido acompanhado, acarinhado e elogiado – à exaustão! – por tudo o que é jornal, revista, rádio e televisão portuguesas é Mourinho! Que estava ele à espera? Que os críticos ‘tugas’ tomassem automaticamente como deles as dores que Mourinho expressou por uma eliminação que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento e bom senso considerou justa e até normal?
Mas não, para Mourinho houve alguns escribas ‘tugas’ traidores!, miseráveis!, que se atreveram a elogiar o belo jogo do Barcelona e não destacaram, como ‘deviam’, o cardápio de queixas do nosso José, o nosso ‘tuga’. Queria o quê, bajulices? Pois... Conheço um camarada tão amigo de alguns jogadores que é incapaz de exercitar o sentido crítico quando tem de escrever sobre eles. Tipo (sic): “o excelente João Pinto teve uma noite menos boa” ou “o magnífico Rui Costa esteve aquém do seu melhor nível”, diz ele para qualificar um jogo desastrado dos ídolos.
Ora o distanciamento, a independência e a procura da objectividade possível são fundamentais para quem procura fazer crítica honesta. Que alguma prosa não case pontualmente com o ego, as dores e as aspirações de Mourinho... pois esse é um problema dele.
Fulham-Chelsea, Hoje, 18h20, SportTV, diferido
BAÍA E SÁ COMO ALBERTINI
Demetrio Albertini foi homenageado pelo Milan numa festa emocionante que serviu, entre outras coisas, para nos lembrar quão raros são hoje os jogadores de qualidade que conseguem, por devoção, por lealdade, por antiguidade, transformar-se num símbolo clubístico. Ainda os há, claro, mas tendem a desaparecer – Maldini, Costacurta, Del Piero, Totti, Giggs, Neville, Solskjaer, Raul, Roberto Carlos, Kahn, Shearer, Henry, Terry, Carragher e Javier Zanetti (entre outros) pertencem a uma espécie em vias de extinção que, em Portugal, está representada por Baía (14 épocas no Porto) e Sá Pinto (nove no Sporting), depois das saídas para o estrangeiro de Jorge Costa (14 épocas/Porto) e Beto (dez/Sporting) e do abandono na época passada de Pedro Barbosa (dez/Sporting).
Ainda não se sabe se Sá Pinto, 34 anos, fará mais uma época, mas pressente-se que Baía, 36 anos, está para lavar e durar. Que pelo menos estes dois sejam homenageados como Albertini, que recebeu do Milan aquele troféu que não tem preço – a gratidão.
O guarda-redes Carlos [ex-Boavista] brilhou no apuramento do Steaua Bucareste para os ‘quartos’ da Taça UEFA: depois do 0-0 na Roménia, o Steaua goleou (3-0) em Sevilha... Eliminado o Marselha de Delfim, o Steaua é o único campeão europeu ainda em prova na Taça UEFA menos ‘sonante’ da história – os outros apurados são: Zenit, Levski Sófia, Basileia, Schalke, Rapid Bucareste, Middlesbrough e Sevilha. Carlos à final, já.
O Inter está nos ‘quartos’ da ‘Champions’ muito por obra e graça de Figo, claramente o melhor em campo nos jogos com o Ajax. Esqueça-se Adriano (desastrado!), Martins, Júlio Cruz, Veron, Recoba... quem carrega aquela selecção sul-americana às costas é Figo, o ‘Picasso das assistências’ como lhe chamou a ‘Gazzetta dello Sport’.
Inter-Lázio, Amanhã, 14h00, SportTV, directo
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