Crescimento dos 'casuals' em Portugal é efeito perverso da legislação repressiva, diz especialista
Em 2025 foram instaurados 1.729 processos de contraordenação, resultando em 415 adeptos impedidos de entrar em recintos desportivos.
O coordenador do Observatório da Violência associada ao Desporto (ObVD) alertou este sábado que o crescimento do movimento 'casual' em Portugal é um efeito perverso da legislação repressiva, que radicalizou jovens e empurrou grupos organizados para a clandestinidade.
Em declarações à Lusa após os incidentes entre 'casuals' do Sporting e do Benfica, na quinta-feira, antes de um dérbi para o Nacional de futsal, que resultaram na detenção de 124 pessoas, Daniel Seabra defende que o fenómeno da violência no desporto em Portugal não é um "epifenómeno" isolado, mas o resultado de um processo de deriva radical que antecipava já em 2007.
Segundo a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), em 2025 foram instaurados 1.729 processos de contraordenação, resultando em 415 adeptos impedidos de entrar em recintos, dos quais 72,5% por posse ou uso de pirotecnia.
Numa análise detalhada à radiografia atual das claques em Portugal, o investigador traça um cenário de mutação perigosa: a migração do movimento 'ultra' para o estilo 'casual'.
De acordo com o especialista, o endurecimento cego da legislação portuguesa acabou por ter o chamado "efeito perverso": em vez de erradicar a violência, empurrou-a para a clandestinidade.
A distinção é fundamental para entender o panorama atual. Enquanto as claques tradicionais nasceram nos anos 1960 para apoiar o clube com coreografias e adereços, os 'casuals' são uma derivação do hooliganismo inglês dos anos 1970.
"Os 'casuals' deixaram de vestir adereços que os identificassem com o clube para fugir ao controlo policial. Usam marcas caras para emular uma classe social média-alta e passar despercebidos", explica o antropólogo, cuja investigação se foca na violência associada ao desporto, com especial ênfase em claques de futebol, o movimento ultra, hooliganismo e o estilo 'casual'.
Em Portugal, esta migração acentuou-se após o Euro2004 por dois motivos principais: pela insatisfação com a "empresarialização" das claques e o lucro dos seus líderes e pela exigência de legalização como associações, a entrega de bases de dados pessoais às autoridades e a Cartão do Adepto, entretanto extinto.
Daniel Seabra critica a estratégia do legislador que, perante o falhanço de uma medida, decide "dobrar a dose do medicamento". Hoje, em Portugal, a punição para quem acende uma tocha numestádio pode ser superior à de uma infração grave de condução sob efeito de álcool, notou.
O especialista alerta que os estádios se tornaram espaços "panópticos" --- de vigilância total --- onde as tochas foram transformadas num símbolo de "rebeldia e protesto" contra o sistema, em vez de um adereço coreográfico.
Para Seabra, o crescimento destes grupos radicais traz riscos reais de danos patrimoniais, ferimentos graves e até morte, citando o caso do adepto italiano Marco Ficini, que morreu depois de ser atropelado junto ao Estádio da Luz, em Lisboa.
O especialista sublinhou que estes grupos não são apenas "adeptos", mas sim estruturas "altamente organizadas" que comunicam entre si e testam constantemente os limites da autoridade.
Atualmente, assiste-se a uma nova vaga de recrutamento: jovens de 17 a 20 anos que aderem diretamente aos grupos 'casual' sem passarem pela militância das claques tradicionais. Para muitos, o objetivo primordial é o confronto.
O coordenador do ObVD considera que o fenómeno é indissociável do aumento da delinquência juvenil e do discurso de ódio nas redes sociais, que funcionam como canais de propagação imediata.
Como solução, o especialista defende a necessidade de recuperar os valores positivos do movimento 'ultra' e de integrar os clubes e as gerações mais velhas de adeptos na discussão, em vez de se legislar por impulso mediático.
Na quinta-feira, a PSP efetuou 124 detenções, de 64 adeptos do Benfica e 61 do Sporting, nas imediações do Estádio José Alvalade, em Lisboa, antes do dérbi de futsal entre os dois rivais, no Pavilhão João Rocha.
Sporting e Benfica voltam a defrontar-se na segunda-feira, desta feita em casa dos 'encarnados', para a Liga dos Campeões de futsal.
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