Emoções fortes no último adeus
Um enorme sentimento de consternação marcou ontem o derradeiro adeus de familiares, amigos, antigos colegas, dirigentes ou simples adeptos ao antigo guarda-redes Bento, falecido na passada quinta-feira após uma crise cardíaca. Numa tarde de emoções fortes, Eusébio, glória máxima do futebol português, chegou a sentir-se indisposto, tendo causado preocupação aos adeptos e velhos companheiros que se lhe juntaram à porta do Cemitério dos Olivais. Notoriamente comovido, o ‘Pantera Negra’ não foi capaz de expressar por palavras a profunda tristeza pela partida do amigo. Tão pouco conseguiu acompanhar o corpo até junto do crematório.
Ídolo de multidões durante cerca de duas décadas, Bento teve o justo e sentido tributo numa tarde solarenga de sábado, porventura igual a tantos outros sábados onde escutou ovações vindas das bancadas. Ao início da tarde, mais de um milhar de pessoas compareceu junto à igreja de Nossa Senhora do Rosário, tornando o espaço exíguo. Também desta vez as palmas se fizeram ouvir. Não devido a mais uma defesa arrojada, um voo impossível ou uma vitória entusiástica. Estas palmas foram para homenagear um homem que honrou a profissão que abraçou e se distinguiu entre os seus. Uma passagem pela vida com sentido. “Tinha espírito de campeão”, sintetizou António Simões, velha glória do Benfica e antigo companheiro. “O Bento vai ficar sempre na nossa memória, como pessoa e como guarda-redes. Quem sabe o melhor de todos”, acrescentou.
Também rolaram lágrimas por muitos rostos. Amigos de curta ou de longa data não esconderam emoções. Da Golegã, a terra que viu Bento nascer há 58 anos, veio um autocarro com duas dezenas de jovens, oriundos dos escalões jovens do Goleganense. Miúdos que nunca viram jogar o ídolo, mas a quem terá sido contada a história de um rapaz que se fez homem aos 15 anos quando trabalhava como pedreiro e ao fim do dia, com as mãos calejadas do ofício, calçava umas luvas e ia treinar para a baliza. “É o mínimo que podíamos fazer, estar aqui presentes”, explicou António Camilo, presidente do Goleganense.
Cerca das 17h30, após missa de corpo presente realizada no interior lotado da capela, o cortejo fúnebre partiu em direcção a Lisboa. Uma carrinha com o corpo, outra logo atrás, carregada de flores. À chegada ao cemitério dos Olivais, mais gente, mais emoção, mais palmas. Também mais lágrimas, inevitavelmente. Luís Filipe Vieira e Rui Costa, este em representação da equipa de futebol que ontem jogou na Vila das Aves, eram apenas duas das muitas centenas de pessoas que ali afluíram. O presidente viajou de avião desde o Porto (estava em Ermesinde) expressamente para a cerimónia. Tinha voo marcado de regresso ao Norte, logo a seguir, para se juntar à equipa. Por entre populares e anónimos, muitos deles com bandeiras e cachecóis do Benfica, lá estavam também amigos de uma vida, como Nené, Humberto Coelho, José Augusto, entre outros. O Sporting fez-se representar pelo director de relações públicas, Maurício do Vale, e por Hilário, velha glória do clube. Manuel Vilarinho, presidente da assembleia geral do Benfica, e Fernando Seara, presidente da Câmara de Sintra, também marcaram presença nos Olivais, onde o corpo do falecido guardião seria cremado ao final da tarde. Tal como dezenas de jogadores de todas as categorias do futebol jovem do Benfica. Uma perda sentida por todos.
J. EVANGELISTA (Sindicato de Jogadores)
"Vim em nome do sindicato manifestar a solidariedade de todos os jogadores à família daquele que foi um grande desportista. A quem deixo duas palavras: obrigado e até sempre."
AMÂNDIO DE CARVALHO ('Vice' FPF)
"É uma grande perda tanto para a Seleção como para o Benfica. Um grande guarda-redes que na Selecção Nacional fazia sempre tudo para que a equipa não saísse derrotada."
JOÃO RODRIGUES (Ex-presidente da FPF)
"Quem gosta de futebol, como eu, recordará sempre o Bento. Foi um grande símbolo do meu clube que é o Benfica. Uma pessoa muito sociável e leal. Oxalá apareçam mais como ele."
VÍTOR PANEIRA (Ex-jogador do Benfica)
"Foi juntamente com o Shéu e com o Veloso um dos primeiros companheiros que tive no Benfica. Sinto muita gratidão pela forma como me recebeu e me tratou no Benfica."
CARLOS MANUEL (Ex-jogador do Benfica)
"Foi sem dúvida nenhuma um dos grandes guarda-redes da história do futebol português. Uma pessoa excepcional e grande desportista. Era a imagem de um trabalhador incansável."
Bento tornou-se um ícone do Benfica, clube que representou como jogador durante quase duas décadas. Foi depois treinador de guarda-redes nas camadas jovens. Aos 58 anos, o coração pregou-lhe uma finta.
Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, e António Oliveira, ex-companheiro de Selecção, prestaram homenagem ao guardião. Eusébio sentiu-se mal na chegada do corpo aos Olivais. No último adeus a Bento, centenas de pessoas acorreram à Igreja do Rosário, no Barreiro, e ao cemitério dos Olivais.
GOLEGÃ NA DESPEDIDA
Cerca de 20 jovens, dos escalões de infantis, iniciados e juvenis do Futebol Clube Goleganense, clube da terra natal de Manuel Bento, prestaram também uma última homenagem a Bento. João Rodrigues, guardião dos juvenis, chegou mesmo a ouvir alguns conselhos daquele que considera seu ídolo. “Na altura, disse-me para ter muita cabeça para conseguir chegar a um nível mais alto.”
"SEMPRE NO MEU CORAÇÃO"
Apesar de não ter comparecido no velório, Rui Costa chegou ao cemitério dos Olivais visivelmente triste. No último adeus a um dos seus ídolos, o ‘maestro’ deu um forte abraço à família de Bento. À saída falou do amigo que guardará para sempre no coração. “Nunca irá sair do meu coração pela pessoa que era, por aquilo que me ajudou, por aquilo que era para a família”, disse Rui Costa, que representou o plantel benfiquista.
VEIGA PRESENTE
José Veiga, ex-director-geral do Benfica, esteve presente no velório, mas não se alongou nas palavras sobre Bento, dizendo apenas que era “uma última homenagem muito sentida”.
HOMENAGEM
A Federação está a preparar “um espectáculo grandioso”, segundo o ‘vice’ Amândio de Carvalho, em homenagem a todos os grandes nomes que representaram a Selecção, como Bento.
CONFUSÃO
À medida que se aproximava o momento da saída da urna de Manuel Bento para o cortejo fúnebre gerou-se mesmo alguma confusão, tantas eram as pessoas presentes junto à capela.
DOIS CARROS
Além do carro funerário que transportava a urna de Manuel Bento, um outro seguia na retaguarda repleto de ramos e coroas de flores deixadas por familiares, amigos e conhecidos.
CLAQUE COM ATITUDE LAMENTÁVEL NO DRAGÃO
Nos três encontros da 20.ª jornada já disputados, cumpriu-se um minuto de silêncio decretado pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) em memória do falecido Bento. No entanto, o Estádio do Dragão, onde ontem se disputou o FC Porto-Sp. Braga, foi palco de atitudes lamentáveis por parte de alguns dos seus adeptos ligados à claque Super Dragões, durante a homenagem ao ex-guarda-redes do Benfica.
Após as três equipas se juntarem no centro do relvado, o árbitro leiriense Olegário Benquerença apitou para dar início ao minuto em memória de Bento.
No entanto, enquanto a maioria dos adeptos se mantinha em silêncio, respeitando o momento – Jesualdo Ferreira foi um dos que não escondeu a sua emoção nesses instantes –, o mesmo não se verificou no sector onde estava instalada uma das claques da equipa portista, os Super Dragões (SD).
Aos gritos de “Porto allez” e “Filhos da p... SLB”, os elementos da claque mostraram que não queriam que fosse cumprida esta homenagem em memória do antigo jogador do Benfica. De imediato, os restantes adeptos portistas presentes no estádio procuraram, primeiro assobiando a claque e, depois, fazendo soar uma forte salva de palmas, abafar o ruído provocado pelos elementos dos SD.
Jesualdo Ferreira ainda pareceu algo incomodado por este claro sinal de falta de respeito por um antigo jogador que muito deu ao futebol português e, no final do encontro, confrontado com esta situação, o técnico optou por destacar as palmas dos adeptos. “Vi o estádio bater palmas. Ouvi fundamentalmente bater palmas. Num ou noutro sector isto não aconteceu. Depende da consciência de cada um”, disse.
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