“Expectativas são altas mas não tenho medo de falhar”
Manuel José tem a responsabilidade histórica de treinar a selecção de Angola, país que organiza pela primeira vez a Taça de África das Nações (CAN). O técnico português reconhece que a fasquia está muito alta, e aponta até alguns exageros, mas é com tranquilidade que vai estrear-se frente ao Mali, amanhã.
Correio Sport – Como está o seu estado de espírito, a poucas horas do início do CAN-2010?
Manuel José – Sinto-me perfeitamente tranquilo, mesmo estando consciente da responsabilidade que pesa sobre os meus ombros. Há uma expectativa exagerada mas isso não me perturba, aliás motiva--me ainda mais.
– Corresponder a tanta expectativa não será a maior responsabilidade que alguma vez pesou sobre si na sua carreira de treinador?
– Quando me contrataram sabia _ao que vinha, qual era a expectativa das pessoas. O objectivo é qualificar Angola na fase de grupos. O Mali é um dos candidatos e vamos defrontá-los no primeiro jogo. Tenho a noção de tudo isso mas não sou milagreiro. Vou, entretanto, procurar que os meus jogadores tenham uma motivação enorme e um desempenho que esteja de acordo com a grandeza deste evento.
– A euforia que se sente nos angolanos será contraproducente?
– Já ouvi até dizer que Angola vai ganhar o CAN. É uma manifestação de confiança mas também com muito exagero à mistura. Posso garantir, isso sim, que Angola vai lutar para conquistar a melhor qualificação de sempre no CAN. Primeiro temos de qualificar-nos no grupo, depois tudo pode acontecer, como _é normal em jogos a eliminar.
– Concorda que esta selecção não tem grandes valores individuais?
– Esta equipa vale pelo colectivo, é um facto que não tem grandes valores individuais, como outras selecções africanas. Desde que chegámos, o objectivo foi sempre trabalhar para ter um colectivo forte e uma boa organização. Temos de ter um grande colectivo e esperar que algumas das nossas individualidades resolvam nos jogos.
– Quem é o favorito?
– Em minha opinião, há vários favoritos, começando pelo Egipto, bicampeão em título, Mali, Costa do Marfim, que é talvez a melhor equipa em termos individuais, Camarões, eternos candidatos, e o Gana, sem dúvida uma grande selecção, que organizou o último CAN e só ficou em 3º lugar.
– Conhece bem o futebol egípcio: é comparável ao de Angola?
– Não são comparáveis, pois o Egipto é claramente melhor. Tem a melhor liga de África.
– A presença de Mantorras, que não tem jogado no Benfica, é simbólica ou ainda poderá ser muito útil à selecção?
– Comigo não há simbolismos e os jogadores são convocados de acordo com o seu valor. Na época passada, Mantorras totalizou 62 minutos e marcou dois golos. Nuno Gomes começa a ter uma participação igual à de Mantorras. Entra e marca, ou faz assistências para golo. O mesmo sucede com Weldon. Agora, com as chegadas de Éder Luís e Alan Kardec, a situação deles ainda vai ser pior.
– Os novos estádios são tão fantásticos como se diz?
– Os estádios que foram construídos estão ao nível do melhor que há no Mundo.
– Também pelo investimento feito, não teme que haja uma grande frustração se as coisas correrem mal?
– Não tem de haver frustrações pelo aspecto desportivo. A organização deste evento é uma grande vitória só por si. Noutras edições do CAN, normalmente restauraram estádios. Aqui foi tudo construído de raiz, estradas, hospitais, hotéis. Essa, sim, é a grande afirmação de Angola. Num jogo de futebol tudo pode acontecer. Temos de ter respeito pelas expectativas que estão criadas, mas são exageradas. Se olharmos para as 16 equipas, Angola está nos últimos lugares do ranking, juntamente com o Malauí. Não se pode pensar que é uma frustração tremenda sofrer um desaire no CAN. Se Angola ganhar a prova, isso não representará o valor real do seu futebol, da mesma forma que se não ganhar também não será vista como a pior selecção africana.
– Que lhe pediu a Federação Angolana de Futebol?
- Não me pediram nada de especial, apenas que a selecção tenha um bom desempenho e honre a organização deste evento. Ninguém pode pensar que é fácil ganhar o CAN.
– Surpreendeu a chamada de Dias Caires, que sofreu uma lesão grave e já jogava na II_Divisão...
– Tínhamos um problema no centro da defesa e descobrimo-lo no Sagrada Esperança. Convocámo-_-lo para um jogo e fez uma exibição impecável. É um jogador experiente, tranquilo, e tem muito a ver com a grandeza da selecção angolana.
– Neste CAN vai estar a Costa do Marfim, opositor de Portugal no Mundial. Há razões para temer este adversário?
– Estou a treinar em África há muito tempo e tenho razões para saber o que se passa com as suas selecções. Apesar de a Costa do Marfim ter colectivamente a força do Egipto, e é por isso que a maioria dos egípcios joga no seu campeonato, tem individualmente a melhor equipa de África. A maioria dos seus jogadores actua na Europa e pode ser um caso sério não só para Portugal mas também para o Brasil.
– É uma selecção assim tão forte?
– Tudo depende da forma como os seus jogadores encararem os jogos. Às vezes, quando chegam a África têm tiques de vedetas e querem mandar na equipa. Mas se jogarem como fazem na Europa, aplicando--se ao máximo, podem complicar _a vida a qualquer adversário.
– A selecção angolana fez recentemente um estágio em Portugal. Sentiu algum retorno sobre o entusiasmo que o CAN está a despertar por aqui?
– Estivemos a estagiar em Portugal durante um mês e, sinceramente, não senti esse retorno. Considero que as pessoas ligaram muito pouco à nossa presença, mesmo a nível da Imprensa. Desconheço a razão por que isso acontecee mas que foi assim, foi.
– Angola só tem contratado treinadores em Portugal. Não há condições para levar jogadores para África?
– Os jogadores portugueses que comecem a pensar, definitivamente, em vir para Angola. Há aqui seis ou sete clubes que pagam mais do que alguns da Liga portuguesa.
– Como decorreu a visita de Eduardo dos Santos à selecção?
– Só o conheci pessoalmente na quarta-feira. Cumprimentou-me _e desejou-me boa sorte – e assistiu ao treino. Fez um discurso curto, todos perceberam a mensagem. É um homem do futebol e a sua presença foi muito marcante.
– O projecto em Angola é para continuar ou quer regressar a Portugal?
– Ninguém pode prever o futuro. Se correr mal, sou despedido. Se correr bem, o contrato só expira em Junho e pode ser prorrogado por mais dois anos.
PERFIL
Manuel José de Jesus nasceu em Vila Real de Santo António a 9 de Abril de 1946 e, como treinador, orientou vários clubes em Portugal, entre eles o Sporting (1985-86) e Benfica (1996-98). Mas foi ao serviço do Boavista que conquistou uma Taça de Portugal e uma Supertaça, em 1991-92.
Em 2001, abraçou uma aventura no Egipto, onde treinou o Al-Ahly. Sob o seu comando, esta equipa conquistou três campeonatos, 4 Ligas dos Campeões Africanos, 2 Supertaças de África e 2 Supertaças do Egipto.
A partir de Maio de 2009, assumiu o comando da selecção angolana.
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