Manuel Oliveira "Um verdadeiro amante do futebol"
“O meu trabalho não foi reconhecido. Sempre pensei chegar mais longe, como a seleção”.
Manuel Oliveira Santos nasceu no Pinhal Novo (concelho de Palmela) no dia 29 de maio de 1932.
Fez formação no Pinhalnovense, passou pelo Barreirense e com idade de júnior ingressou no Sporting, onde chegou à equipa sénior. Jogou ainda no Atlético e na CUF. Em dezembro de 1962, deu início à carreira de treinador, precisamente na CUF. Haveria de treinar mais 26 clubes ao longo de 36 anos.
Foi presidente do Sindicato dos Treinadores de Futebol e fundador da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (onde foi vice-presidente).
Teve fun-ções docentes na formação de treinadores, tendo sido preletor e responsável por muitos cursos de treinadores. Foi ainda comentador de futebol na Rádio Renascença durante 12 anos. Faleceu no dia 20 de junho de 2017.
Não tenho qualquer dúvida em afirmar que, acima de tudo, sou um verdadeiro amante do futebol". A frase abre o livro autobiográfico de Manuel Oliveira, falecido esta semana no Barreiro.
Um livro que, muito a propósito, tem como título "Memórias de um treinador de futebol" (Âncora Editora, 2009). Direto e frontal, Manuel Oliveira responde, logo na primeira linha, à pergunta que ele mesmo coloca na abertura do capítulo: "Quem sou?".
A paixão pelo futebol nasceu com ele. Deu vazão ao sentimento ainda menino, em terrenos baldios do Pinhal Novo, localidade onde nasceu, com uma bola trapeira.
No Pinhalnovense, começou a jogar, nos anos 40. Em 1949, tinha então 17 anos, teve um "encontro imediato" que, segundo o próprio, lhe traçou o destino no futebol: após um jogo contra os juniores B do Sporting.
Na posição de extremo direito, fez um excelente jogo pelo Pinhalnovense. Marcou dois golos na vitória por 2-0. No final do encontro, foi abordado pelo treinador dos leões, Fernando Vaz, técnico em início de carreira.
Que lhe disse: "Então, depois de teres marcado dois golos, como extremo, apareceste como defesa no segundo tempo?" Resposta do herói do dia: "Claro, após os golos era preciso segurar o resultado". "Queres ir treinar ao Sporting?", volveu Vaz? Foi.
No Sporting não brilhou, tapado pelos famosos Cinco Violinos. A carreira de futebolista, de resto, não teve particular notoriedade. Porque a sua vocação era outra. Pensar o futebol.
Esmiuçar-lhe a essência, descodificar-lhe as estratégias, urdir-lhe as táticas. Em Dezembro de 1962, deu início à carreira de treinador, no Grupo Desportivo da CUF. Haveria de treinar durante 36 anos.
E de novo a pergunta. "Quem sou?". Manuel Oliveira volta a responder, no seu livro, com as observações que anotou sobre o que ele mesmo ouviu dizer de si ao longo de uma vida cheia: "O treinador controverso, o profissional atento e estudioso, o mestre da tática, da estratégia e da técnica do futebol, o amigo dos seus amigos, o treinador ‘intratável’ que nunca abdicou da disciplina, da organização, do rigor e da defesa intransigente do menino bonito dos seus olhos, o futebol".
Eis o ‘mister’ Manuel Oliveira. Sem filtros.
Um manuscrito contra os 3 pontos por vitória
Para além dos aspetos técnico--táticos, que lhe valeram a alcunha de ‘Mestre da Tática’, Manuel de Oliveira pensava e refletia também sobre os aspetos organizacionais do futebol.
Certo dia, após uma entrevista, deu ao jornalista do CM anotações feitas pelo próprio punho sobre o sistema de pontuação 3--1-0, que passou a premiar as vitórias com três pontos em vez de dois (alteração feita em 1995).
Era contra. "Sou da opinião que esta pontuação não vem trazer qualquer benefício ao futebol português, nem tão- -pouco lhe trará espetacularidade", escreveu. E justificava: "Poderá abrir-se uma porta para arranjos classificativos, já que existe um ‘décalage’ entre empate e vitória.
Equipas já sem pretensões poderão facilitar outras que necessitem de atingir melhores classificações. A tabela 3-1-0 poderá ser uma porta aberta para a resolução antecipada de resultados e classificações, baixando a credibilidade do futebol, hoje tão afetada", defendia Oliveira.
Acusado por muitos de jogar "para o empate", o treinador defende-se neste documento manuscrito: "Não vejo que existam treinadores que só queiram empatar (...) Mesmo defendendo, todo o treinador pensa em vencer".
Formador de treinadores de futebol
Muitos técnicos passaram pelas ‘mãos’ de Manuel Oliveira. Jorge Jesus foi um deles. "Nos anos que era meu treinador, já era um criador da tática, ensinou-me muito", disse em 2009, na apresentação do livro do ‘mestre’.
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