Os doutores do futebol

A Académica é conhecida como o clube dos estudantes, mas os anos em que era preciso ter os estudos em dia para jogar de negro parecem ter passado há séculos. Antes do 25 de Abril de 1974, não era qualquer um que jogava na ‘Briosa’. Para além das qualidades futebolísticas, os candidatos tinham de ter ambições nos estudos e mostrarem-se disponíveis para seguir o ensino.

12 de novembro de 2005 às 00:00
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Uma tradição que vem de longe, mas que o tempo tratou de reduzir a um número pouco significativo. O plantel da Académica tem, neste momento, quatro universitários e dois que já terminaram os respectivos cursos. Pressionados ou entusiasmados pelos pais – consoante os casos – a prosseguir a vida académica, os jogadores aceitam o desafio de se sentarem nos bancos da universidade, mas não fazem da assiduidade palavra de ordem.

Nuno Piloto e Eduardo terminaram, respectivamente, os cursos de Bioquímica e Educação Física. Pedro Roma está perto de conseguir concluir Educação Física. Vítor Vinha já vai no segundo ano de Ciências do Desporto. Paulo Adriano frequenta o primeiro ano de Geografia e Ordenamento do Território e Desenvolvimento. Zé Castro é o que está, nesta fase da carreira, mais desligado da vida académica, mas mantém-se inscrito no 1.º ano de Jornalismo.

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Apesar de ficar “orgulhosa e satisfeita” por ver jogadores da Académica acabarem cursos superiores, a Universidade de Coimbra não facilita em nada a vida dos atletas-estudantes. Quem pensa que os futebolistas são beneficiados em relação aos outros está enganado. “Não há tratamento especial e estão abrangidos pelo estatuto de trabalhador-estudante se fizerem prova dele”, explicou Isabel Teixeira, chefe de divisão de alunos da Universidade de Coimbra. “Têm as épocas de exame como qualquer pessoa que trabalha, sendo seguro que não são privilegiados nem os jogadores da Académica nem de outros clubes ou modalidades”, prosseguiu Isabel Teixeira, antes de referir que “estão abrangidos pelas mesmas leis que os outros sem qualquer diferença”. Longe vão os tempos em que o futebol e os estudos caminhavam lado-a-lado e a tradição do jogador-estudante se mantinha bem viva. Por isso, agora, há quem diga que a tradição já não é o que era…

ESTUDAR FORA DE COIMBRA OBRIGA A ENORMEESFORÇO DE GESTÃO DO TEMPO

Fora de Coimbra também se estuda. As dificuldades são maiores, pois em muitos casos – o CM mostra aqui três, Diogo Luís, Renato Queirós e Marco –, a universidade não está propriamente à porta do estádio. Livros e bolas de futebol nem sempre são compatíveis e obrigam a um esforço redobrado de gestão do tempo. Com sacrifício, persistência e muita força de vontade, como se pode ver pelos exemplos que se seguem, é possível.

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DIOGO LUÍS APOSTADO EM SER ECONOMISTA

Diogo Luís entrou com 18 anos para a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, depois de ter ponderado seguir Educação Física. Hoje, aos 25 anos, faltam-lhe oito cadeiras para concluir o curso, mas conciliar esta vida com o futebol não tem sido fácil. “Treino todos os dias e é difícil assistir às aulas. Alguns professores compreendem que falte muitas vezes, mas nem todos são assim. Neste momento tenho de dar primazia ao futebol”, contou o defesa do Estoril ao CM. Diogo Luís começou no Benfica, mas não conseguiu vingar nos ‘encarnados’ e foi para Aveiro (passou ainda pela Naval) e os estudos ressentiram-se: “Foi complicado, mas consegui fazer quatro/cinco cadeiras em dois anos. Como? Arranjava os apontamentos, estudava sozinho em casa e depois ia fazer o exame final”.

RENATO QUEIRÓS ENGENHEIRO DO TEMPO

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Renato Queirós é um caso particular no plantel do Paços de Ferreira. O avançado, para além do futebol, frequenta o 4.º ano de Engenharia Civil, no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), o que o obriga a um esforço suplementar. As dificuldades são evidentes, mas a força de vontade ultrapassa todas as barreiras. “É difícil conciliar as duas coisas, pois o futebol exige muito a nível físico e psicológico, mas o fascínio pela engenharia ajuda-me a ultrapassar todos as contrariedades”, revela. Uma paixão que o obriga a abdicar dos poucos tempos livres de que dispõe. “No futebol temos algumas horas de descanso durante a semana, mas tenho de abdicar grande parte desse tempo para estudar. O interesse em conseguir um curso superior tem uma explicação: “tive uma ascensão lenta no futebol, pois passei alguns anos nos escalões inferiores. Por isso senti necessidade de salvaguardar o futuro e ingressei num curso que sempre me interessou”.

ARQUITECTO MARCO A PROJECTAR O FUTURO

Marco, que na última eliminatória da Taça de Portugal defendeu a baliza do Leixões frente ao Benfica, concluiu a licenciatura em Arquitectura pela Universidade Lusíada, no Porto, no último ano lectivo. Agora, concilia a actividade de futebolista com o estágio num ateliê de arquitectos, preparando o concurso à Ordem dos Arquitectos. Marco reconhece que teve sempre a compreensão dos treinadores – “Respeitaram a minha opção de continuar a estudar e sempre me ajudaram” – e vê com apreensão o abandono escolar de muitos jovens futebolistas: “O futebol é uma ilusão e milhões só ganham dois ou três...”. Agora não são poucas as vezes que os colegas lhe perguntam quanto levaria por projectar uma casa: “Vêem-me sempre como amigo, um jogador de futebol e não como arquitecto. Estão pouco habituados a ver arquitectos no mundo do futebol”, conclui.

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DA GEOGRAFIA À BIOQUÍMICA, EDUCAÇÃO FÍSICA E JORNALISMO: HÁ PARA TODOS OS GOSTOS

PAULO ADRIANO

O médio da Académica entrou na Universidade de Coimbra, onde frequenta o primeiro ano do curso de Geografia e Ordenamento do Território e Desenvolvimento. Aos 28 anos, Paulo Adriano assume que o curso é “uma opção a longo prazo”, para se ir fazendo, até porque admite alguma dificuldade em conciliar as duas actividades. A Geografia foi uma disciplina que sempre gostou pelo que considera ‘natural’ a escolha. A possibilidade de vir a exercer uma profissão ligada

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à área será tomada na “altura certa”.

NUNO PILOTO

É o mais recente licenciado do plantel da Académica. O médio terminou o curso de Bioquímica na Universidade de Coimbra e teve o condão de fazer com que se voltasse a falar da antiga tradição do jogador-estudante.

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Os pais sempre exigiram que estudasse para poder continuar a jogar futebol. O jogador, de 23 anos, que obteve 19 valores no estágio, acolheu os conselhos familiares e fez o curso todo de seguida sem perder nenhum ano. “Foi um objectivo que sempre persegui e para o qual me esforcei para alcançar”, assume Nuno Piloto.

PEDRO ROMA

O guarda-redes está perto de concluir o curso da Faculdade de Ciências de Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra. Aos 35 anos, frequenta o quinto ano, faltando--lhe três cadeiras semestrais e o estágio. “É uma ferramenta com a qual me identifico”, assegura Pedro Roma, garantindo, de seguida, que a “pressão familiar” contribuiu para que não abandonasse os estudos. No plantel da Académica, há mais dois estudantes de Educação Física: Eduardo (curso concluído com média de 13 valores) e Vinha (2.º ano).

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ZÉ CASTRO

Com 22 anos, frequenta o curso de Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, mas a falta de tempo para ir às aulas relegou a paixão para segundo plano. Neste momento, a prioridade do jogador da Académica é o futebol, até porque é já uma das estrelas da equipa e da selecção sub-21, falando-se inclusive do interesse do Sporting. Como não se considera um estudante no activo, Zé Castro opta por não falar da Universidade, deixando para daqui a uns anos a possibilidade de terminar o curso.

ARTUR JORGE

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Artur Jorge aproveitou o tempo que passou na Académica para se licenciar em Germânicas na Faculdade de Letras. Nunca trabalhou no ramo.

TONI

Toni jogava no Anadia antes de se mudar para a Académica. Na altura entrou em Direito, mas a mudança para o Benfica pôs fim à sua vida académica.

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MÁRIO WILSON

Mário Wilson foi jogador e treinador da Académica. Na Universidade de Coimbra concluiu o curso de Geologia. O ‘velho capitão’ nunca chegou a exercer.

VASCO GERVÁSIO

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O antigo capitão da ‘Briosa’ nas décadas de 60 e 70 completou o curso de Direito. Na altura, a frequência do Ensino Superior era obrigatória na Académica.

MARCELO

O avançado foi um dos últimos a formar-se em Coimbra. O luso-brasileiro tirou o curso de Engenharia Civil, uma paixão antiga.

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