Vou contar tudo

Rui Mendes, o árbitro que deu origem ao processo ‘Apito Dourado’, quer relatar em julgamento tudo o que sabe sobre a corrupção no futebol português, nomeadamente as reuniões que teve com Valentim Loureiro e José Luís Oliveira, na Câmara de Gondomar”.

11 de fevereiro de 2006 às 00:00
Vou contar tudo Foto: Vítor Chi/Record
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“Apesar de ter sido constituído arguido, vou contar tudo o que se passou comigo”, disse ao CM o árbitro do Porto que o Ministério Público (MP) acusou de um crime de corrupção desportiva passiva.

Segundo o MP, Rui Mendes, a pedido do arguido José Luís Oliveira, aceitou dirigir o Trofense-Gondomar (1-1), que se realizou no dia 8 de Abril de 2001, com a contrapartida de ajudar a equipa visitante. Foi precisamente o que rodeou esta partida que esteve na base das investigações que, desde o início, contaram com a colaboração do juiz que, na altura, militava na 1.ª categoria nacional e que se sentia prejudicado na sua classificação (estava para descer) desde que dirigira o Campomaiorense-União de Leiria (I Liga).

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De acordo com o que o CM apurou, antes do jogo de Campo Maior, que se realizou em Outubro de 2000 e terminou empatado (1-1), Rui Mendes foi alvo de uma tentativa de aliciamento. Como não correspondeu ao que lhe foi pedido – ajudar os raianos – as notas que foi recebendo colocaram-no nos lugares do fundo da classificação na arbitragem. Decidiu, então, que tinha de contar a Valentim Loureiro o que se passara antes do encontro da 4.ª jornada da Liga. Mas só no dia 2 de Abril de 2001 o conseguiu, quando foi convocado por José Luís Oliveira para uma reunião na Câmara de Gondomar.

Após relatar o que se passou numa área de serviço a caminho do Alentejo, o árbitro ouviu o Major dizer-lhe que, embora a sua classificação fosse má, era possível recuperar. A determinada altura, Valentim Loureiro deixou o gabinete onde se encontravam. E, segundo o MP, foi já sem a presença do Major que José Luís Oliveira perguntou a Rui Mendes se não se importava de dirigir o Trofense-Gondomar. Aceitou, para, segundo soube o CM junto de fonte próxima de Rui Mendes, tentar descobrir até que ponto ia a corrupção na arbitragem portuguesa e com a firme intenção de “denunciar tudo”. O MP, no entanto, entendeu que o árbitro sabia muito bem que ao dizer sim a Oliveira teria de ajudar o Gondomar. E que seria recompensado com uma boa nota, dado que o observador do seu trabalho (Joaquim Pinheiro da Silva) também estaria controlado. Durante a conversa na CM de Gondomar, ainda de acordo com o MP, Oliveira terá telefonado a Pinto de Sousa, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, ordenando-lhe que nomeasse Rui Mendes para o Trofense-Gondomar.

Passado algum tempo, Rui Mendes soube que o observador o tinha pontuado com uma nota fraca. E em Maio de 2001 contou tudo (aliciamento na área de serviço e conversas com Valentim Loureiro e José Luís Oliveira) a Pimenta Machado (na altura, presidente do V. Guimarães e arqui-rival do Major), Comissão Disciplinar da Liga e Conselho Disciplinar da FPF. O recurso às instâncias de futebol custou-lhe 40 dias de suspensão, por ter denunciado o que lhe sucedeu à Comunicação Social.

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A 30 de Agosto de 2001, Rui Mendes prestou declarações à Polícia Judiciária, no Tribunal do Marco de Canaveses. Quase cinco anos depois, Valentim Loureiro, José Luís Oliveira e Pinto de Sousa foram acusados de crimes de corrupção. E Pimenta Machado foi arrolado como testemunha do MP, no processo ‘Apito Dourado’.

O procurador distrital do Porto, Alípio Tibúrcio Ribeiro, entregou na Procuradoria-Geral da República (PGR), um despacho de acusação do processo ‘Apito Dourado’, proveniente do Tribunal de Gondomar, onde constavam 29 arguidos. E foi precisamente essa a informação que serviu de base à nota para a Comunicação Social que a PGR emitiu, no dia 2 de Fevereiro.

Porém, passado algum tempo do encontro entre Tibúrcio Ribeiro e Souto Moura, na acusação aparecem 27 arguidos. Segundo soube o CM junto de fonte judicial, o facto de dois nomes não constarem no despacho que já foi entregue a alguns arguidos deveu-se a questões de competência territorial. Os dois arguidos em falta constam nas certidões dirigidas aos Departamentos de Acção e Investigação Penal de Lisboa e do Porto pelo procurador Carlos Teixeiria.

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VALENTIM JÁ FOI NOTIFICADO

Valentim Loureiro já foi notificado da acusação deduzida pelo Ministério Público, no âmbito do processo ‘Apito Dourado’, segundo informou um dos seus assessores (Nuno Santos) na Câmara de Gondomar. Como o CM já noticiou, o Major foi acusado de 26 crimes dolosos de corrupção activa sob a forma de cumplicidade e dois crimes dolosos de prevaricação.

SANDINENSES REVOLTADOS

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Os ‘Dragões Sandinenses’ pretendem ser ressarcidos dos prejuízos sofridos caso se prove a viciação de resultados do Gondomar, no âmbito do processo ‘Apito Dourado’. O clube, segundo a agência Lusa, pretende agir judicialmente contra a maior parte dos arguidos que de alguma forma tenham tido influência na adulteração da verdade desportiva.

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