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Correio da Manhã

Desporto
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A FALTA DE ATLETAS DE NÍVEL É O NOSSO MAIOR ENTRAVE

Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico de Portugal, sonha ter em Lisboa os Jogos Olímpicos de 2016 ou 2020. O caminho é longo e a transformação necessária.
4 de Dezembro de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Continua a achar que a vinda dos Jogos Olímpicos para Portugal é uma utopia?
Vicente Moura – Que é um objectivo difícil, lá isso é. Mas vamos aguardar pelos estudos que estão a ser feitos. Eu estou na Croácia, na reunião dos Comités Europeus, tenho ouvido os responsáveis das candidaturas para 2012, e há medida que o tempo vai passando as informações são mais importantes e rigorosoas. Continuo esperançado. Vou visitar ‘in loco’ as condições de Madrid, no início do ano, e aí vou ficar a par de toda as informações sobre a matéria, o que facilitará depois a tomada de qualquer decisão.
– Qual o ‘feedback’ dos seus parceiros dos outros países?
–Até agora não recebi nenhuma mensagem negativa, muito pelo contrário. As pessoas já conheciam os nossos propósitos e têm recebido a notícia com curiosidade. Dizem que Portugal tem prestígio, que está bastante desenvolvido e que o nível de vida é diferente de há 20 anos.
– O País, os portugueses e as diversas entidades estão preparadas para enfrentar este projecto ambicioso?
– Isso temos de esperar para ver. Por exemplo, Madrid, que é uma das candidaturas mais importantes e a meu ver a favorita para 2012, vai fazer grande parte das infra-estruturas na feira de Madrid, que é um sítio enorme. Aí vão instalar o centro de Imprensa, bem como pavilhões para receberem algumas modalidades, e dizem que não vão gastar praticamente dinheiro nenhum. Por isso digo que tudo tem de ser bem estudado. Temos de ir à procura de instalações que possam ser mudadas, de uma forma relativamente barata, pois não queremos gastar o que Atenas gastou.
– Os conflitos políticos que têm marcado o dia-a-dia do País não surgem na melhor altura.
– O Governo caiu e vai haver eleições. Existem duas vontades importantes: a da Câmara Municipal de Lisboa e a do Governo. Agora vamos ter de esperar mais alguns meses. Mas não estou preocupado, pois estamos numa fase inicial. Provavelmente vamos ter de repetir todas as coisas que já dissemos, mas sou persistente e paciente.
– Na sua opinião qual será o maior entrave a uma candidatura portuguesa?
– É a inexistência de atletas de alto nível em muitas das modalidades e isso leva pelo menos uma década a transformar. E não se faz só com dinheiro, mas sim com trabalho e programação. É por isso que digo que uma candidatura aos Jogos, mais do que um fim é um meio, um meio de transformação do desporto em Portugal.
– Essa transformação, tendo em conta uma candidatura a 2016 ou 2020, deve então arrancar o mais rapidamente possível?
– Eu espero que comece já com o próximo Governo, seja qual for o partido vencedor. Tem de começar já essa transformação, porque se tal não acontecer então será escusado estarmos a falar de receber os Jogos em 2016 ou 2020.
– Não acha que Portugal, neste momento, só respira futebol? Os próprios clubes não têm estádios com pistas de tartã e outros apoios. Isso não o preocupa?
– Acho que deve preocupar todos os desportistas em geral. O futebol faz pela vida dele e os homens do futebol trabalham nesse sentido, mas os outros, como é o meu caso, têm de pensar no País. Mas também os presidentes das Câmaras e o Governo. O Governo tem de pensar no País como um todo e não só num sector. É por isso que os Jogos são muito importantes para mudar esta mentalidade.
– A realização do Euro’2004 pode jogar a favor de uma candidatura portuguesa, mas os tão badalados casos de corrupção podem ter um efeito negativo.
– Fala-se muito de corrupção em diversos sectores e depois nunca se prova nada. Não se chega a saber se é maledicência ou realidade. Nós temos de trabalhar num país transparente e com os pés bem assentes no chão. Não interessa a ninguém o diz-que-disse e depois não se descobre nada.
'A EXPO É UM ESPAÇO A APROVEITAR'
– A remodelação do Estádio Nacional é o projecto mais viável?
– Sim. Porque tem duas Câmaras envolvidas, como Lisboa e Oeiras, o Estado e a Junta Metropolitana de Lisboa. O estádio está ultrapassado e tem de ser modernizado. Isso é incontornável. Assim podem-se defender as linhas clássicas do estádio, mas ficando dotado de infra-estruturas modernas. Acho que é um projecto muito interessante e um grande desafio para o arquitecto.
– Isso implicaria grandes mudanças na rede viária.
– Acho que não. Ali chega todo o tipo de transportes, existem estradas e auto-estradas e está tudo situado num espaço amplo. Mas a zona está um pouco degradada. Tal como aconteceu com a Expo, ali poderia fazer-se algo semelhante. Aliás, acho que muitos dos eventos poderiam ter lugar na Expo, pois tem condições magníficas. Seria um dos primeiros espaços a aproveitar.
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