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Correio da Manhã

Desporto
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A hora H dos pontas-de-lança

"Pongan los dos". Reza a história que na goleada de Madrid por 0-9, em 1934, os espanhóis brincavam com a possibilidade de Portugal usar os dois guarda-redes em simultâneo. Também na falta de um avançado fora-de-série bom jeito daria agora à selecção que Postiga e Almeida fundissem as características num goleador ideal.
23 de Outubro de 2010 às 00:00
Hugo Almeida tem conseguido com diferentes seleccionadores um rendimento regular num quadro quem nem sempre é de muita confiança.
Hugo Almeida tem conseguido com diferentes seleccionadores um rendimento regular num quadro quem nem sempre é de muita confiança. FOTO: Manuel Araújo/Record

Hélder e Hugo têm em comum a inicial H que assinala a sua hora de marcarem a história da selecção, provavelmente para os próximos quatro anos, pelo menos. No meio de uma crise de valores que levou à nacionalização de Liedson, Postiga e Almeida discutem agora uma titularidade relevante e decisiva, repetindo de certa forma a proveitosa rivalidade entre Nuno Gomes e Pauleta nos melhores anos da nacional portuguesa.

Embora exista uma apreciação genérica de algumas semelhanças físicas, técnicas e até de formação, no FC Porto, são muito diferentes e, em certa medida, complementares – tal como os viu Paulo Bento para os seus primeiros embates, apostando primeiro no poder de choque de Almeida e mais tarde na argúcia e técnica de Hélder. Mas logo se percebeu a vantagem do jogador do Sporting, mais adaptado ao estilo de jogo de iniciativa e controlo de bola que o novo seleccionador defende.

Aliás, Hugo Almeida foi utilizado por Carlos Queiroz de uma forma mais posicional e isolada, pouco consentânea com as suas características de passada larga, abrangência espacial e remate forte, sentindo enormes dificuldades frente aos adversários mais fortes. Como se vê na análise das suas melhores finalizações, Hugo Almeida marca muito pouco na curta distância, ao contrário de Postiga, este sim um jogador de espaços curtos e presença central.

Esmiuçando um pouco mais diferenças e atributos, ressalta o facto de Hugo Almeida nunca ter conseguido marcar frente a selecções mais poderosas, ao contrário do seu colega. Azerbaijão,  Arménia, Malta, Albânia, Liechtenstein, China, Moçambique, Coreia do Norte e Chipre constituem o roteiro goleador do avançado do Werder Bremen, enquanto Postiga já marcou a Inglaterra e Alemanha, entre outras.

HÉLDER POSTIGA: MELHOR NO JOGO AÉREO

Depois de Nuno Gomes, Fernando Gomes e José Torres, os melhores cabeceadores do passado, Hélder Postiga consegue um excelente registo no futebol aéreo ao serviço da selecção, apesar de não ser um especialista ou um jogador fisicamente dotado para a função. Tal como o capitão do Benfica, é do sentido posicional e do instinto de grande área que o avançado do Sporting tira maior proveito, conseguindo uma elevada taxa de sucesso em poucas tentativas. Até agora, metade dos seus golos por Portugal foram marcados de cabeça, mas os 21% na Liga retratam com mais realismo as suas capacidades.

Rendimento com Mourinho

A irregularidade da carreira de Hélder Postiga não se sentiu no período de ano e meio em que foi dirigido por José Mourinho, em que atingiu o excelente ratio de 0,5 golos por jogo (25 em 53 partidas em todas as competições), suscitando o interesse do Tottenham e afastando-o da equipa que veio a vencer a Champions League. Com Jesualdo atingiu 0,3 (12 em 36) e com Paulo Bento no Sporting apenas 0,1 (5 em 45).

HUGO ALMEIDA: MELHOR EM VELOCIDADE

Alto e pesado, como os ‘panzers’ do futebol alemão dos anos 80 e 90, Hugo Almeida é um avançado talhado para o jogo de contra-ataque em velocidade, aproveitando os grandes espaços, e rende menos, espartilhado na zona central, até porque o seu jogo de cabeça não é tão forte como as condições atléticas indicam. Quer na selecção, quer nos clubes uma boa percentagem dos golos nasceram de lances de contra-ataque e desmarcação, com tempo e espaço para aplicar em andamento o seu potente remate de pé esquerdo, sentindo muitas dificuldades perante marcações de proximidade e rígidas.

Sucesso no estrangeiro

Enquanto Hélder Postiga só teve experiências errantes no estrangeiro (Inglaterra, França e Grécia), que lhe atrapalharam bastante a carreira, Hugo Almeida é dos casos de maior sucesso de adaptação rápida e duradoura a uma realidade complexa, como o futebol alemão e a cidade de Bremen. Já vai na quarta temporada, com 59 golos marcados nas diversas frentes, incluindo 15 em provas europeias.

Selecção Postiga Hugo Almeida
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