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Correio da Manhã

Desporto
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A transição de Villas-Boas

O treinador do FC Porto recusa o rótulo de equipa de contra-ataque, embora tal evidência constitua um elogio para o melhor rendimento de sempre neste capítulo.
9 de Abril de 2011 às 00:00
O técnico do FC Porto, André Villas-Boas
O técnico do FC Porto, André Villas-Boas FOTO: Manuel Araúdo/Record

Depois de recuperar o título nacional, o treinador do FC Porto afadiga-se em discussões filosóficas sobre o perfil táctico da equipa, assumindo o rótulo de «equipa de posse», com uma identidade mais aproximada de um jogo português típico, «de pé para pé», de certa forma para se distanciar do modelo de jogo de velocidade e risco, praticado pelo Benfica de Jorge Jesus, a sua principal referência.

 

Apesar de a sua equipa ter marcado o dobro de golos do Benfica em contra-ataque (10 contra 5), o treinador mostrou-se quase ofendido com um comentador ignaro que terá caracterizado os dragões como «equipa de transição», o que na nomenclatura moderna significa de contra-ataque. Era um elogio, fundamentado no melhor rendimento de sempre neste capítulo, mas ele acha que não. Destaca a posse de bola, a troca segura em evolução territorial, com preponderância dos centro-campistas e apoio dos laterais, como jogam as melhores equipas europeias da actualidade.

Villas-Boas tem razão, mas não em absoluto. Na verdade, o FC Porto é tudo o que ele diz, mas também melhorou bastante a eficácia do contra-golpe, chega a ter golos marcados com assistência directa do guarda-redes Helton para a flecha de contra-ataque que é o avançado Hulk, após recuperação rápida de bola em lance de bola parada.

Até nos livres intermediários, a cultura desta equipa é de marcação rápida na tentativa de surpreender os adversários. Com extremos rápidos e um avançado muito móvel, como Falcão, o FC Porto ilude, assim, os observadores menos perspicazes: chega a parecer uma equipa de contra-ataque. Até porque, em quantidade e percentualmente, nunca fez tantos golos em «transição» rápida como nesta temporada, apurando uma evolução que já se verificava nos quatro anos de Jesualdo, passando de apenas 6% em 2007 para perto dos 20 % este ano.

Ao longo da época, porém, apenas na visita aos dois grandes de Lisboa o FC Porto não foi dominante em termos de tempo de posse de bola – e é isso que o distingue de uma equipa defensiva por natureza. A equipa com mais golos marcados não depende tanto das bolas paradas como os seus principais adversários e também é muito menos eficaz nos cruzamentos, contrariando as teorias clássicas para uma estratégia de ataque com dois extremos.

A esmagadora maioria dos golos de bola corrida do FC Porto nasce de passes curtos, com realce para Hulk (9 passes e 5 cruzamentos). E também para os médios: Belluschi, João Moutinho e Ruben Micael (pelos três, 12 assistências e apenas três cruzamentos). Esta tipificação do último passe é a principal chancela da marca que Villas-Boas quer ver reconhecida à sua equipa. 

CONTRA-ATAQUE

Maior percentagem de sempre

O FC Porto já marcou tantos golos em jogadas de contra-ataque como em toda a temporada anterior, o que significa uma percentagem maior (17%) , relativamente ao último ano de Jesualdo Ferreira. Os números desmentem André Villas-Boas. O FC Porto pode não ser uma equipa «de transição», mas nunca marcou tantos golos em contra-ataque rápido como nesta temporada, não se conseguindo dissociar de um jogador como Hulk, precisamente na sua melhor época em Portugal.

DEFESA

Números de equipa «defensiva»

Também não se pode chamar ao FC Porto uma equipa defensiva. E, no entanto, uma enorme fatia do êxito colectivo deve-se ao invulgar acerto do departamento mais recuado, que sofreu apenas nove golos até agora e tem ainda uma margem para poder ser a equipa campeã nacional menos batida de sempre. É em particular no futebol aéreo e nos pontapés de canto que a segurança azul e branca se manifesta de forma quase imaculada.

EQUIPA DE POSSE

Só por duas vezes (Alvalade e Luz) o FC Porto não foi a equipa mais possessiva, atingindo uma média de 64 minutos de controlo por jogo. Não se trata, porém, de uma grande mudança relativamente ao histórico da equipa, apenas mais dois minutos do que na época anterior.

Hulk em 60% dos golos

A influência de Hulk no sucesso desta temporada reflecte-se na contribuição em mais de metade dos golos apontados na Liga, em contraste com uma influência bem menor na Liga Europa, onde reina Falcão. O brasileiro é o principal fautor do jogo de contra-ataque, pela sua velocidade, com a sua influência a subir para 80% neste tipo de acções ofensivas.

Bolas paradas na UEFA

Não é porque o protagonista tem sido Falcão e não Hulk que nos jogos da Liga Europa as características ofensivas se apresentam diferentes. Idênticos 16% de golos em contra-ataque confirmam a identidade do conjunto, embora mais dependente de cruzamentos. O contraste verifica-se nas bolas paradas, ditado pelas características específicas das eliminatórias europeias, com o grau de eficácia a duplicar em relação às provas nacionais. Chega perto dos 50%, com realce para os golos de livre directo (3 contra 1 na Liga portuguesa) e sobretudo nos pontapés de canto (5 contra 2).

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