O Estádio José Alvalade pode ser interditado por três jogos devido à invasão de campo durante o Sporting-Benfica de domingo, de acordo com o que estipula o regulamento Disciplinar da Liga. O incidente levou ontem o Governo a abrir um inquérito sobre a actuação das forças de segurança, enquanto o Conselho Fiscal e Disciplinar do Sporting pondera suspender o apoio às claques
Se a Comissão Disciplinar da Liga entender (com base nos relatórios do árbitro, da PSP e do delegado ao jogo) que os invasores tiveram a intenção de “protestar, agredir ou ameaçar” agentes do jogo, o Sporting incorre numa interdição do seu estádio “de 1 a 3 jogos ou realização de 1 a 2 jogos à porta fechada e multa de 10 000 a 20 000 euros”, determina o artigo 139 do regulamento.
No melhor cenário, os ‘leões’ teriam apenas de pagar uma multa de 1250 a 5000 euros, punição prevista no artigo 144 para punir invasão de campo que obrigue a uma interrupção no jogo inferior a cinco minutos.
Os adeptos que invadiram o relvado podem também ser sujeitos a processos-crime nos termos da lei geral, embora a nova legislação contra a violência no Desporto não se aplique porque a lei não foi ainda promulgada pelo Presidente da República – os invasores poderiam ficar impedidos aceder aos estádios caso a nova regulamentação estivesse em vigor.
Só um dos adeptos foi identificado. “Não achámos conveniente identificar no momento os outros elementos para que as coisas não atingissem proporções mais graves. Estamos a visionar imagens captadas por elementos da polícia no terreno para identificar os restantes elementos”, disse ao CM Isabel Canelas, comissária da PSP.
Os invasores são membros da claque Juve Leo, que emitiu ontem um comunicado a incriminar os jogadores do Benfica Zahovic e Argel. “Sem querer desculpar o acto em si da entrada em campo de elementos da Juventude Leonina, todos os espectadores presentes no Topo Sul do Estádio se aperceberam, durante o aquecimento dos jogadores suplentes do Benfica, dos constantes insultos e provocações, quer gestuais, quer mesmo com ‘bocas’ e cuspidelas feitos por Zahovic e Argel”, pode ler-se no comunicado. A claque vai solicitar uma audiência a Dias da Cunha para “expor o sucedido e saber da possibilidade de haver registo de imagens que comprovem os insultos e provocações dos jogadores do SLB. Contactado pelo CM, Argel negou qualquer acto obsceno.
O CM chegou à fala com João Guerreiro, da Direcção da Juve Leo, que teceu acusações graves contra os dirigentes leoninos. “Façam o inquérito que nós responderemos. Mas os dirigentes do Sporting deviam era estar preocupados com as contas da Sporting Comércio e Serviços porque há situações que configuram processos-crime”, afirmou, escusando-se a concretizar as acusações.
TRIGO MIRA TAMBÉM ACUSA BENFIQUISTAS
Isabel Trigo Mira, membro do Conselho Leonino, ex-responsável pelos núcleos do Sporting e actual vice-presidente da Conselho Fiscal da ANAF (Associação nacional de Adeptos de Futebol) assistiu ao ‘derby’ e, apesar de lamentar o comportamento de alguns elementos da Juventude Leonina, atribuiu grande parte da responsabilidade a Argel e Zahovic. “Esses jogadores estavam a aquecer e provocaram os adeptos. Foram actos lamentáveis que eu me recuso aceitar. Se os profissionais de futebol querem ser respeitados, então terão de também eles respeitar os adeptos”, disse, antes de enumerar “os actos provocatórios que”, garante, “os jogadores protagonizaram”: “fartaram-se de gesticular e até chegaram a cuspir, para além de terem postos as mãos, numa atitude reprovável, nas partes...”, disse, frisando existirem várias testemunhas oculares sobre os incidentes de Alvalade.
GUIMARÃES - SPORTING SEM PÚBLICO
A Comissão Disciplinar (CD) da Liga decidiu que o jogo da última jornada da SuperLiga, entre o Vitória de Guimarães e o Sporting, vai realizar-se à porta fechada, devido aos incidentes ocorridos no encontro entre os vimaranenses e o Paços de Ferreira, da 31.ª ronda. O jogo é decisivo para a permanência dos vimaranenses na SuperLiga, enquanto o Sporting ainda tem hipótese de chegar ao segundo lugar.
A sanção visa castigar o sucedido a 18 de Abril, em Paços de Ferreira, quando vários adeptos do Guimarães, do exterior do estádio da Mata Real, em protesto com o elevado preço dos bilhetes (40 euros), atiraram pedras para dentro do recinto. Pimenta Machado, presidente do clube – que ontem mesmo foi suspenso por 2 meses e multado em 2 mil euros pela CD da Liga, por causa de declarações sobre incidentes entre V. Guimarães e Boavista (4 de Fevereiro) –, já defendeu que os regulamentos não prevêem esta sanção: “Este despacho é arbitrário e ilegal, é um abuso de poder, mais uma labareda para o futebol”, disse.
Em declarações à Lusa, também Neno, director desportivo considerou a decisão uma “afronta às pessoas da cidade”. “A PJ deveria investigar os elementos da Comissão Disciplinar da Liga”, disse, enquanto uma fonte do clube garantiu à Lusa existir um “vazio legal na aplicação da medida preventiva, quando tudo o que se passou ocorreu fora do estádio”.
Também António Magalhães, presidente da Câmara Municipal de Guimarães, reagiu a esta situação: “Aqueles que tomaram a decisão, a 400 km de distância e de ânimo leve, revelam falta de bom senso. Puseram 15 mil adeptos do clube indignados”.
REACÇÕES À 'INVASÃO' EM ALVALADE
"MELHORAR A SEGURANÇA" (FIGUEIREDO LOPES, MIN. ADM. INTERNA)
“Pedi ontem mesmo aos mais altos responsáveis da segurança que analisassem os acontecimentos de Alvalade, para verificar o que poderá ser melhorado. Felizmente a situação foi controlada, mas vamos continuar a trabalhar para que as forças de segurança continuem a melhorar”.
"IRRADIAR ESPECTADORES" (JOSÉ M. CONSTANTINO, PRES. DO IND)
“Penso que será desejável que as alterações de natureza legislativa que estão previstas em sede da AR, no sentido de permitirem irradiar dos recintos desportivos espectadores cujo comportamento regular e sistemático desaconselha a sua presença em campos de futebol, seja aprovada”.
"SEGURANÇA FALHOU" (LEONEL DE CARVALHO, COORD. SEG. EURO'2004)
“Se há uma invasão de campo é evidente que houve uma falha na segurança. É necessário que haja mais meios junto às claques, mais treinados e mais capazes. Houve claramente uma distracção por parte dos assistentes do recinto desportivo, que deviam ter contido a invasão de campo”.
"ACONTECE EM TODO O LADO" (SCOLARI, SELECCIONADOR NACIONAL)
“Invasões de campo acontecem em qualquer estádio do Mundo. Não devemos dar tanto ênfase a isto, caso contrário estamos a valorizar e a dar demasiada importância aos destabilizadores. É pena que as coisas más sejam tão enfatizadas neste País”.
SINDICATO CRÍTICO
O Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP) considerou ontem, em comunicado, que os incidentes durante o Sporting–Benfica revelam “enormes fragilidades de articulação no terreno” e constituem “um mau presságio para a segurança do Euro’2004”. Segundo o Secretariado Distrital de Faro do SPP, “há algumas falhas na planificação da intervenção em tempo útil, de modo a garantir níveis satisfatórios de eficácia”.
RIGOR NA FORMAÇÃO
De acordo com uma fonte do Ministério da Administração Interna (MAI) citada ontem pela Agência Lusa, a formação dos assistentes de recinto desportivo “desenrola-se sob critérios muito rigorosos e cada novo curso tem que ser alvo de aprovação e os exames remetidos ao MAI”. Segundo a mesma fonte, os assistentes de recintos desportivos, também chamados ‘stewards’, são todos “vigilantes que recebem uma formação específica num curso de seis módulos”.
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