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Correio da Manhã

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Após Sporting comecei do zero

Norton de Matos nega ter convites da Académica e do Standard de Liége para a próxima época, ataca o ex-presidente do V. Setúbal, Chumbita Nunes, a quem acusa de ter faltado à palavra, e recorda os tempos passados em Alvalade no cargo de director desportivo como o ponto alto da sua carreira.
15 de Abril de 2006 às 00:00
Após Sporting comecei do zero
Após Sporting comecei do zero FOTO: Tiago Sousa Dias
Correio da Manhã - Confirma o interesse da Académica e do Standard de Liége na sua contratação?
Norton de Matos – Ninguém desses dois clubes falou comigo.
– Em relação à próxima época não foi contactado por nenhum clube?
– Fui contactado por um presidente de um clube da Liga que me disse para não tomar nenhuma decisão sem antes falar com ele. Não vou nomeá-lo mas ele sabe o que quero.
– O FC Porto vai ser um justo campeão?
– Sim. É a equipa mais regular e jogou sempre com vontade de vencer. Tem, também, o plantel que permite mais soluções.
– E o Sporting de Paulo Bento?
– O Paulo Bento trouxe a disciplina ao balneário. Quando entrou, havia um grande pessimismo e ele tirou partido disso. Com a disciplina que impôs organizou o jogo, factor que se foi consolidando através dos resultados e dos pontos.
– Trabalhou no Sporting no início do projecto Roquette. Esse projecto faliu?
– Desconheço a dimensão real do problema financeiro do Sporting mas defendo que é preferível formar activos, de forma a que possam ser bem vendidos, a alienar património. E o Sporting tem uma excelente formação. Lamento o fim da equipa B, que nem sequer é cara. Eu faço uma com 500 mil euros, o salário de um profissional. Na minha altura toda a equipa custava 100 mil contos/ano e só o Boa-Morte foi vendido por 500 mil contos.
– Os anos de Sporting foram os melhores?
– Não tive vida fácil no Sporting. O cargo de director desportivo era uma novidade e fui muito atacado. Ou porque era benfiquista, ou por isto ou por aquilo. O projecto Roquette trouxe mudanças importantes, e não nego que esses quatro anos em Alvalade foram o ponto alto da minha carreira. Mas não foram os mais fáceis - ainda há quem pense que fui eu que trouxe o Rodrigo Tello como houve quem muito me criticasse pela contratação do Acosta que acabou por ser o menino bonito de Inácio. Julgo que fiz um bom trabalho. Estabeleci vários protocolos. Tivemos a hipótese, por exemplo, de ficar com o Roque Santa Cruz por um milhão de dólares, um jogador que seis meses depois o Bayern de Munique foi buscar por 7 ou 8 milhões. Jozic não o quis.
– Treinador ou director desportivo?
– Sempre adorei treinar. Quando Carlos Queiroz me convidou para ir para o Sporting estava no Espinho e sonhava com a 1.ª Divisão. Mas, perante o convite demorei apenas 24 horas a decidir-me. Depois de sair do Sporting estive três anos sem treinar e, por isso, tive de começar do zero.
– Chegou à Liga com o V. Setúbal. Compensou?
– O Vitória foi a realização do sonho de trabalhar na Liga. Lamento que não me tivessem dado a hipótese de me preocupar apenas com o treino.O que se passou em Setúbal vai ficar nos anais, pelos piores motivos. Com tantos anos de futebol nunca conheci uma pessoa que faltasse tanto à palavra dada como Chumbita Nunes. Lido muito mal com a mentira. Os jogadores foram enganados e eu também, até nos termos do meu contrato. Tinha ficado combinado um certo ordenado vezes 12 meses e, quando percebi, os 12 meses tinham passado para dez. Chumbita Nunes ouviu os jogadores chamarem-lhe mentiroso, cara-a-cara.
– Quando deixou o V. Setúbal a equipa estava em 3.º lugar...
– Os jogadores estavam muito motivados e adorei trabalhar naquele grupo. Vi casos absolutamente dramáticos, jogadores que só podiam comer uma lata de atum com batatas. Houve muita dedicação.
– Já acertou contas com o clube?
– Não. Trabalhei seis meses e recebi dois salários e meio. Rescindi com justa causa e o ex-presidente vai ser responsabilizado pelo que me fez passar. Foi um abanão na minha carreira que não esquecerei. Com pessoas como ele, nunca mais.
"É ESTRANHO SER AVÔ"
CM– Foi avô há uma semana...
N.M.– É uma sensação estranha e forte. Senti que estava a reviver o nascimento da minha filha. Está ali a carne da nossa carne. Vi-a dois dias depois de ela nascer porque na altura do parto estava em Paris.
– Tem uma filha ainda criança, com oito anos...
– Já era uma espécie de pai-avô da Mariazinha. Ela está muito excitada com o facto de ser tia tão novinha. Tenho com os meus filhos uma relação muito próxima e as raparigas têm uma ligação forte. Sou um pai-galinha e serei um avô igual.
QUARTOS-DE-FINAL SERÁ BOM
CM – O que espera da participação de Portugal no Mundial?
N.M.– Estamos a pôr a fasquia muito alta.Trata-se de uma competição complexa. Por isso é preciso muito cuidado. Para Angola, ganhar a Portugal será um acto heróico e isso pesa muito. O Irão tem uma equipa rapidíssima e encaram a representação da pátria com fanatismo. São dois jogos em que vamos precisar de muita humildade e concentração. O México é uma equipa com qualidade e é sabido que o nosso futebol não encaixa bem no tipo de jogo sul-americano. Se chegarmos aos quartos-de-final já será muito bom”.
PERFIL
Luís Maria Cabral Norton de Matos terminou a carreira de jogador em 1988, depois de ter representado o Estoril-Praia, o Benfica - nunca jogou na equipa sénior -, a Académica, o Atlético, o Beleneneses, o Standard de Liége, o Portimonense e o Estrela da Amadora. Foi cinco vezes chamado à selecção nacional onde, mais tarde, chegou a trabalhar como adjunto do triunvirato constituído por Artur Jorge, Toni e António Oliveira. Mas a primeira experiência como treinador foi no Atlético, a que se seguiram Barreirense e Espinho.
Em 1995 aceitou o convite do Sporting, tornando-se no primeiro director desportivo do futebol português. Ficou em Alvalade até 1999. Três anos depois, retomou a carreira de treinador, primeiro, no Espinho e, depois, no Salgueiros e em Setúbal.
Nasceu em 14 de Dezembro de 1953. É casado e tem quatro filhos. Foi director da revista Foot e mantem colaborações na Imprensa desportiva.
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