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Correio da Manhã

Desporto
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As homenagens contra alguém

Carlos Queiroz sabe que Benfica e Sporting, para ele, são casas difíceis.
9 de Abril de 2011 às 00:00
As homenagens contra alguém
As homenagens contra alguém

Carlos Queiroz está zangado. Compreende-se. Foi despedido do cargo de seleccionador nacional através de um processo mal amanhado por parte de uma FPF na ânsia de encontrar uma justa causa politicamente correcta quando talvez tivesse sido mais corajoso e menos discutível tomar a decisão de afastar o seleccionador por razões que se prendessem exclusivamente com o rendimento e a qualidade de jogo da equipa nacional. Carlos Queiroz está de partida para o Irão que lhe confiou o comando técnico da sua equipa nacional pelos próximos três anos mas dificilmente estaremos três anos sem ouvir Carlos Queiroz lamentar-se do que lhe aconteceu em Portugal.

Nas suas mais recentes declarações – e já depois de ter assinado o compromisso com Teerão e já depois de o FC Porto já ter metido o título ao bolso -, Carlos Queiroz optou, numa linha de bom senso, por dar os parabéns aos novos campeões porque é o que se espera de um profissional do mesmo ofício com largas responsabilidades passadas e futuras dentro desta indústria. Mas Queiroz, apesar da sua vasta carreira internacional e dos muitos anos passados no estrangeiro, nunca consegue deixar de ser intrinsecamente português. Conhecem, certamente, aquela expressão muito nossa e mil vezes verdadeira que nos define no nosso pior: “Em Portugal as homenagens são sempre contra alguém”, diz-se e diz-se muito bem porque é assim mesmo.

E Queiroz provou-o mais uma vez esta semana: “Este título é uma lição difícil de aceitar para alguns em Lisboa (…) É muito difícil para os dirigentes do Benfica e do Sporting conseguirem estabilizar as vitórias contra esta atitude ganhadores que se instalou na cidade do Porto”. Ou seja, o actual seleccionador do Irão, muito portuguesinho, conseguiu transformar a sua homenagem pública ao FC Porto num achincalho ao Benfica e ao Sporting. E porquê? Tal como a vida, também o futebol dá muitas voltas e nunca se sabe o dia de amanhã. Mas, sabendo-se o que se sabe no dia de hoje, só muito dificilmente Carlos Queiroz voltará um dia a ser treinador do Sporting – Sousa Cintra ainda recentemente afirmou que a contratação do professor foi o maior disparate do seu mandato – e, no que diz respeito ao Benfica, também não se vislumbra o momento em que os adeptos aceitassem de ânimo leve a entrada de Queiroz como titular do “banco” do Estádio da Luz

Carlos Queiroz sabe que Benfica e Sporting, para ele, são casas difíceis. Mas no FC Porto, nada faz supor que o nome do ex-seleccionador nacional tenha um risco em cima. Quando Queiroz sente vontade expressa de diminuir o Benfica e o Sporting no momento de felicitar o FC Porto pela conquista do título não está a cumprir nenhuma regra básica do desportivismo. Nem sequer está a exercer pedagogia. Está apenas a fazer-se engraçado aos olhos do Dragão. E como o futebol, tal como a vida, dá muitas voltas, nunca se sabe o que é que vem aí a seguir…

ERRAR É HUMANO: As perversidades do regime

Para muitos benfiquistas vocacionalmente atentos às perversidades do regime, mais chocante do que ter de suportar na sua própria casa a festa dos novos campeões foi aquele momento em que o árbitro apontou para a marca de grande penalidade castigando uma falta que não existiu sobre Jara. Tal como o FC Porto, apesar dos 25 títulos somados, ainda não está culturalmente habituado a ser campeão – veja-se o número e os conteúdos absurdos dos comunicados oficiais produzidos no Dragão nas duas últimas semanas -, também o Benfica não está de modo algum habituado a ser beneficiado com grandes penalidades inventadas pelos árbitros e, muito principalmente, em jogos mais ou menos decisivos contra adversários importantes como é o FC Porto.

Mas se quisermos pensar melhor no assunto rapidamente se chega à conclusão de que se o adversário de domingo era importante, e era, já o jogo em si, ainda que podendo encerrar a questão do título, não era decisivo no sentido em que ainda faltariam umas quantas jornadas para o fim da prova e, perante o andamento da carruagem, nada impediria o FC Porto de acrescentar os 3 pontos que lhe faltavam contra os adversários que ainda vai ter pela frente. Objectivamente, o FC Porto entrou na Luz como campeão oficioso. Saiu como campeão oficial. E com razões de queixa do árbitro, como lhe soube bem politicamente. Foi por esta mesma razão que os tais benfiquistas mais atentos quando viram Roberto atirar com um adversário ao chão na sua área, se levantaram e gritaram em coro para o árbitro: “Não te atrevas a não marcar este penalty!”

POSITIVO

Salvio justifica

Enquanto o Benfica vai deitando contas à vida para descobrir se vale ou não a pena dar 15 milhões ao Atlético de Madrid, o argentino vai justificando o seu valor em campo. Marcou dois golos ao PSV e jogou uma enormidade. 

Falcão exagera

O FC Porto pode ir já preparando a sua meia-final com o Villareal muito graças ao seu avançado colombiano Falcão que, só à sua conta, marcou por três vezes ao Spartak de Moscovo. Ora aqui está um activo valioso.

Alan impecável

O Sporting de Braga saiu de Kiev com um resultado que lhe permite sonhar com a meia-final da Liga Europa, muito provavelmente contra o Benfica. Alan foi o autor do golo na Ucrânia… o tal golo “fora” que vale a dobrar.

Pérola

“Não sei, não sou electricista.”: JORGE JESUS

Os benfiquistas não vão guardar nenhuma recordação consoladora do facto de terem visto o FC Porto recuperar o título na Luz. Também é verdade que não “viram” a coisa acontecer com nitidez por défice de iluminação. Esteve bem Jesus, demarcando-se do “apagão” e rematando com pragmatismo bem-humorado, atendendo às circunstâncias…

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