Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
1

AS TIAS TAMBÉM TÊM GARRAS

Para quem ousou ameaçar transformar-se no 'clube das tias', sempre muito preocupado com as acções e as reacções, não está nada mal: de repente, o Sporting apetrecha transversalmente a sua equipa - do guarda-redes ao ponta-de-lança, ainda com a 'marca' Ribeiro Telles.
21 de Julho de 2003 às 00:00
1. Ricardo queria ir para o Benfica e acaba por ser contratado pelo Sporting. Polga também era um jogador referenciado pelos responsáveis ‘encarnados’ e ruma a Alvalade. O Benfica consentiu durante meses a fio que se criasse sobre ele a imagem do 'campeão das aquisições', obrigando Camacho a criticar a desproporcionalidade entre o número de jogadores referenciados e a real eficácia das operações, e, até agora, apenas deu protagonismo à ex-mulher de Pinto da Costa e às suas nódoas negras, o que não deixa de ser sintomático relativamente a uma certa forma de gestão.
2. Parece agora claro que o interesse do Benfica em Ricardo resultava mais do entendimento estratégico entre benfiquistas e boavisteiros, agora posto gritantemente em causa, e da vontade do guarda-redes em representar o grande clube da águia, do que da análise realizada por Camacho aos défices da equipa.
3. Não deixa de ser intrigante, nos dias de hoje, um jogador querer muito representar um clube, pôr-se a jeito, digamos assim, para mudar para a sua casa de eleição, haver entendimento entre as entidades que compram e vendem, e o negócio não se realizar por divergências entre o contratante e a pessoa contratada. Sobretudo, quando se sabia à partida quanto auferia o atleta no Boavista e se tratar, para muitos, do melhor guarda-redes português.
4. Seja como for não é saudável para nenhum clube, nem em Portugal nem no estrangeiro, definir tão tarde a constituição dos seus plantéis, com graves repercussões em matéria de preparação das respectivas equipas.
5. O Sporting só se envolveu na operação de aquisição de Ricardo depois da desistência do Benfica. Eticamente, parece bem mas é uma inevitabilidade: o Boavista, por razões estratégicas, daria sempre preferência aos ‘encarnados’. A verdade é que o valor das alianças está à vista: o clube do Bessa vendeu Silva e Ricardo e vai receber dinheiro de Alvalade. Impensáveis contradições.
6. Para quem ousou ameaçar transformar-se no 'clube das tias', sempre muito preocupado com as acções e as reacções, não está nada mal: de repente, o Sporting apetrecha transversalmente a sua equipa - do guarda-redes ao ponta-de-lança, ainda com a 'marca' Ribeiro Telles.
7. Conclusões a partir de Nyon serão sempre precipitadas. O Benfica tende a melhorar. O Sporting tem de melhorar.
8. Não posso, contudo, deixar de ser coerente relativamente àquilo que venho defendendo publicamente: os clubes (ou SAD) portugueses, que não estão neste plano sozinhos na Europa, não se encontram em condições de gastar nem mais um cêntimo em aquisições. E venho dizendo, desde o tempo em que ninguém o dizia, absolvendo-se com sorrisos impunes todas as loucas operações de transferência realizadas nos últimos anos, que (suponho) deram 'boa vida' a muitos intermediários, assinalando um caminho: mais e melhor formação, mesmo que isso gere bolsas de impopulismo difíceis de controlar. Em conformidade, porque os erros foram demasiados no passado - repito, não são um exclusivo do futebol português - neste momento é mais sensato vender do que comprar. Para isso é preciso ter para vender e registar as respectivas mais-valias.
9. Se, no passado recente, não tivessem sido recrutados para a primeira competição doméstica jogadores como Buturovic, Mogrovejo, N'tsunda, Wetl, Harkness, Pembridge, King, Thomas, Skhuravy, Missé-Missé, só para dar alguns exemplos, entre centenas de casos falhados, certamente os clubes (e SAD) estariam hoje numa posição bem mais confortável, em termos de se abalançarem para a modernização das suas infra-estruturas e, também, para darem maior competitividade aos seus plantéis, sem que isso representasse rupturas de tesouraria alarmantes.
10. Em Espanha, onde se concentram as atenções sobre a Liga das Estrelas, o debate está aceso. A dicotomia entre as compras (hoje, um pouco mais controladas em volume de despesas) e um horizonte desportivo incerto domina as preocupações de homens responsáveis, contrariados com os especuladores e com aqueles que beneficiam com gestões de capricho.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)