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Correio da Manhã

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Ascensão e queda

Para acabar de vez com as edições ‘deluxe’ (leia-se: caixas de colecção e revisão de matéria dada) e com as últimas propostas de 2004 (no formato, vieram antes Michael Jackson e os Nirvana), olhemos de frente para ‘Silver Box’ e para a carreira dos Simple Minds, banda caída em desgraça durante a década passada – é verdade que pouco fez para o evitar –, mas, antes disso, uma das poucas capazes de ombrear com o crescimento uniformemente acelerado dos U2.
23 de Janeiro de 2005 às 00:00
A comparação não é descabida. Bono é convidado para um dos momentos verdadeiramente memoráveis desta compilação: no terceiro dos cinco CD, é chamado ao palco pelo amigo Jim Kerr para uma ‘desgarrada’ na rapsódia de ‘New Gold Dream / Take Me To River / Light My Fire’. Foi o cantor dos U2 que apresentou o produtor Steve Lillywhite a Kerr, e foi Lillywhite quem se sentou aos comandos do mais duradouro álbum dos Minds, ‘Sparkle In The Rain’, ainda que alguns prefiram o épico ‘Once Upon A Time’. Enfim, se os U2 sempre foram uma bandeira da Irlanda, os Minds nunca esconderam a sua costela regional escocesa, nem que fosse pela certidão de nascimento do seu mentor e cantor, Kerr, nativo de Glasgow.
Mais uma vez – à semelhança do que acontece com ‘With The Lights Out’, dos Nirvana –, a opção editorial assenta em não repetir as versões há muito digeridas dos álbuns de estúdio, que percorrem toda a década de 80 e parte substancial da seguinte. Voltamos às versões de palco, às ‘demos’ gravadas para convencer as editoras, às sessões especiais para programas de rádio como os de John Peel e David Jensen. O que permite perceber, de uma forma continuada, o que valeu este grupo que, caso raro, os portugueses puderam contactar muito cedo. Peter Gabriel, impressionado com o terceiro álbum da banda, ‘Empires and Dance’, trouxe--os como grupo de suporte para o seu memorável concerto de Cascais, em Outubro de 1980.
Quando voltaram, já eram banda de estádio, feito o tirocínio das pequenas e médias salas – voltaram a Alvalade, numa noite partilhada com Joe Cocker. Esta diferença diz muito: se o primeiro e segundo discos mostram canções contidas, quase em compressão, entre a electrónica rudimentar e as guitarras alinhadas, apesar dos saltos finais com a já referida ‘New Gold Dream’ e com o passaporte decisivo para a condição de campeões de vendas, ‘Don’t You Forget About Me’ (aqui, no ensaio para o Live Aid), o terceiro e o quarto mostram uma banda enorme, empolgante (‘All The Things She Said’, ‘Alive and Kicking’, ‘Mandela Day’, ‘Oh Jungleland’, ‘Belfast Child’), mas a perder o sentido do equilíbrio e das proporções. E o épico vai esmorecendo…
O quinto disco é, aliás, uma peça exclusiva para fanáticos: trata-se de ‘Our Secrets Are The Same’, o álbum gravado em 1999 e que a editora recusou editar. Teria as suas razões… Assim, vale como bónus numa colecção que ilustra, como poucas, o que pode ser a ascensão e queda de um grupo, teimoso, marcante, mas demasiado barroco, a partir de certa altura. Se bem que ainda hoje se sinta um arrepio quando voltam hinos como ‘Someone Somewhere In Summertime’ ou ‘Ghost Dancing’, parte de um património de crescimento que também seria idiotice ou maneirismo estar a negar. O tempo é que raras vezes perdoa…
TOCA A TODOS
A mocinha já tinha mostrado estar em forma nas últimas gravações feitas dos No Doubt, especialmente a versão de ‘It’s My Life’ (dos Talk Talk). Agora, em ‘Love Angel Music Baby’, a platinada GWEN STEFANI solta-se: electropop cruzado com R & B, produções surpreendentes e convincentes (Nellee Hooper, Dr. Dre, Jimmy Jam & Terry Lewis), num disco que – apesar da falsa leveza – depressa se torna irresistível. Como actriz, não sei. Como figura pop, está mesmo garantida, com êxitos à escolha.
A colecção vai andando para trás no tempo e apetece dizer que vai crescendo de qualidade – depende do critério. O mais importante é que esta ‘Platinum Collection’ (três CD) se torna num retrato sério do que valeu e mudou um dos grupos vitais vindos do princípio dos anos 70, do ‘rock progressivo’ à música de dança. Ou, se preferirem, da pré-história de Peter Gabriel ao melhor de Phil Collins. Os GENESIS, genuínos e sem disfarces. Com muito boas memórias pelo meio. Até cá está ‘Supper’s Ready’…
TOCA E FOGE
Reclamações, parte um: os PINK MARTINI, doze músicos de Portland, Oregon, são um dos superlativos do ‘easy listening’, campeões dos arranjos sumptuosos. Chegaram a valer culto por cá com o álbum e a canção ‘Sympathique’ (“je ne veuz pas traveiller…”). Espanta a demora no acesso ao segundo álbum, ‘Hang On Little Tomato’, clássico imediato, infalível antidepressivo, divertido e poliglota (cantado em seis línguas, até a croata e a japonesa). Soberbo, em 14 canções. E ausente – em nome de quê?
Reclamações, parte dois: ‘When Love Speaks’ é um CD especial, concebido a partir dos sonetos de William Shakespeare, com os lucros a reverter para a Royal Academy of Dramatic Art. Com canções – BRYAN FERRY, Annie Lennox, Des’ree e Rufus Wainw-right, entre outros – e palavras ditas por grandes actores britânicos (John Gielgud, Kenneth Branagh, Joseph e Ralph Fiennes, John Hurt e Diana Rigg são exemplos). Uma obra de arte, para guardar, uma real iniciação a Shakespeare. Alguém importa, por favor?
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