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Correio da Manhã

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Benfica vai ser campeão

A continuação do Beira-Mar na SuperLiga decide-se hoje. Augusto Inácio explica por que aceitou treinar o clube, fala da ascensão e queda da sua carreira, dos novos treinadores e diz que, no Sporting, foi traído. Mas garante que vai voltar a um dos grandes
30 de Abril de 2005 às 00:00
Benfica vai ser campeão
Benfica vai ser campeão
CM – A descida do Beira-Mar é inevitável?
Augusto Inácio – A partir de amanhã [hoje] ficaremos a saber. O resultado do jogo com o Moreirense e o do Boavista com a Académica vão decidir tudo.
– Vai continuar no Beira-Mar?
– Admito as duas possibilidades. Até agora ainda não recebi qualquer convite para continuar.
– E de outros clubes?
– Nesta altura não estou preocupado com o telefone. Quero é salvar o Beira-Mar da descida.
– Foi difícil trabalhar o plantel com tantos jogadores estrangeiros?
– No Sporting também havia muitas nacionalidades e fomos campeões. Hoje, isso não pode ser um problema. Peguei na equipa numa situação difícil, mas senti que o presidente precisava da minha ajuda. Informei-me sobre a estabilidade financeira do clube, sobre o plantel e as informações foram muito positivas. E fui muito bem recebido.
– Esta época, o futebol da SuperLiga é ‘rasca’?
– Não. pelo contrário. Esta época prova que a qualidade e a competência não estão apenas ao alcance dos grandes.
– Quem vai ser campeão?
– Julgo que vai ser o Benfica.O Sporting joga um futebol mais espectacular, o Braga é mais consistente, o FC Porto ainda tem uma palavra a dizer mas o Benfica tem uma grande dinâmica e arrasta multidões.
– Podia ter voltado a ser campeão pelo Sporting, ou Luís Duque tinha razão quando quis Mourinho?
– De Mourinho não quero falar. Sobre o Sporting: quando o clube foi campeão, o Schmeichel disse-me que eu iria ficar ali dez anos. Respondi-lhe que Portugal não é a Inglaterra. Passados poucos meses saí e ainda hoje estou para perceber porquê.
– Sentiu que foi usado por Luís Duque na guerra entr a SAD e o clube?
– Dou sempre a cara pelas pessoas que trabalham comigo. Se havia uma guerra entre a SAD e os dirigentes do clube, nunca tomei partido e sempre me vi como o treinador do Sporting. Mas admito ter ficado no meio desses jogos, mesmo sem querer.
– Foi traído por Luís Duque?
– Senti-me traído pelas pessoas que sempre me juraram ser mentira andarem à procura de outro treinador quando se passava precisamente o contrário.
– Nunca recebeu uma explicação?
– Gosto de manter a cordialidade com toda a gente e espero o mesmo dos outros. Se as pessoas entenderem que devem falar comigo estou cá para as ouvir. Ainda não o fizeram. Sempre estive de boa-fé, acreditei, cheguei a comprar casa em Lisboa onde não estive o tempo que pensava lá estar.
– Que recorda da conquista do título?
– O simbolismo: dezoito anos depois de ter sido campeão pelo Sporting como jogador, ganhei o título como treinador. Não há dinheiro que o pague. No final do jogo com o Salgueiros olhei para o céu e pensei no meu pai. Não me esqueci da anterior equipa técnica, de Materazzi. mas quando o Sporting ganhou a Supertaça esqueceram-se de mim. Magoa-me a falta de gratidão.
– Para quem foi campeão pelo Sporting esperava mais da sua carreira?
– Em Portugal a regra é simples: só há três grandes. Estive no Vitória de Guimarães, onde estive três anos com muita motivação. Depois foi a aventura do Belenenses. Fiquei estupefacto quando percebi que ia sair porque não posso ser responsável por erros de terceiros. Assumo sempre as minhas atitudes mas apenas as minhas. Mas decidiram que deveria ser eu a pagar as favas. Foi muito injusto. E depois fui para o estrangeiro, uma experiência que sempre desejei viver apesar de o Qatar não ser o melhor sítio do mundo para um treinador.
– Acredita que vai regressar a um ‘grande’ português?
– Estou convencido de que vou chegar outra vez a um grande clube. Mas fundamental é trabalhar com paixão e gosto.
'CHEGUEI A PENSAR QUE SE TINHAM ESQUECIDO DE MIM'
– Esperava ter regressado mais cedo ao futebol português...
– Confesso que sim. Vim do Qatar em Dezembro, tive oportunidade de ir para África e para o Médio Oriente e não aceitei, até porque sempre pensei que iria começar a trabalhar mais cedo em Portugal. Cheguei a pensar que se tinham esquecido de mim e ninguém sabe o que representa para um treinador estar fora do treino. Tentei aguentar-me como pude. Mas não foi por causa disso que fui para o Beira-Mar.
– A que atribui esse esquecimento?
– Há pessoas para quem o futebol está a ser injusto. Dou o caso do Vítor Manuel. Depois da aragem fresca do Mourinho, todos os outros são esquecidos. Não estou contra as novas gerações mas critico aqueles dirigentes que se deixam iludir por palavras caras, porque quem as usa também cai. Quando não há resulatdos, também caiem. É uma questão de moda mas Eusébio só há um, Pelé só há um, Mourinho só há um e Inácio também só há um. As imitações raramente têm qualidade.
– O mercado está difícil?
– Muito dificil e não sei como se pode lutar contar isso. A não ser que os dirigentes começem a abrir os olhos.
PERFIL
Tem 50 anos. Iniciou a carreira de treinador nos juniores do FC Porto e como técnico adjunto da equipa principal portista venceu três campeonatos, duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Passou pelo Rio Ave, Felgueiras, Marítimo e Chaves até chegar ao Sporting, onde foi campeão. Como jogador, Inácio ganhou dois campeonatos e duas Taças de Portugal pelo Sporting. Pelo FC Porto venceu três campeonatos, duas Taças de Portugal, três Supertaças, uma Liga dos Campeões Europeus, uma Supertaça europeia e uma taça Intercontinental. Tem 26 internacionalizações pela selecção nacional A.
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