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Correio da Manhã

Desporto
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Bons jogadores não garantem sucesso

Depois de uma experiência enriquecedora no Lokomotiv, o ex-treinador do Marítimo regressa a Moscovo como técnico adjunto´do Dínamo. O clube russo vai efectuar´o estágio de pré-temporada no Algarve.
31 de Dezembro de 2005 às 00:00
CM – Mais uma aventura na Rússia, o que o levou a aceitar o convite do Dínamo de Moscovo?
Mariano Barreto – Três razões. Uma do ponto de vista intelectual que me vai possibilitar concluir o doutoramento em Futebol, que iniciei em 2002 quando estive no Lokomotiv; de ordem desportiva uma vez que a Rússia integra a UEFA, o que permitirá disputar um campeonato competitivo; a última razão prende-se com razões de ordem sócio-económicas.
– Quais os objectivos do clube para a época que agora se inicia?
– O projecto do clube pretende conquistar já este ano o título de campeão nacional e, a curto prazo, tornar o Dínamo na melhor equipa russa na Europa.
– Como surgiu o convite?
– Os russos, desde que saí do Lokomotiv para treinar o Gana, sempre me sondaram para regressar. Fui o primeiro estrangeiro a treinar na Rússia e penso que serei o primeiro a regressar, logo tem a ver com o trabalho que desempenhei no Lokomotiv.
– A contratação prende-se com o elevado número de jogadores portugueses que compõem o plantel?
– Não. O convite parte fundamentalmente do responsável de todo o futebol do Dínamo, Yuri Syomin antigo seleccionador russo e ex-treinador principal do Lokomotiv quando estive lá. Ele quis, para construir este projecto, que eu fizesse parte tal como Boris Ignatiev, que é o director para o futebol.
– Mas pode ajudar na adaptação dos muitos jogadores portugueses?
– Não. Se tivesse sido no ano passado, por uma questão de adaptação dos novos jogadores, aí eu diria que sim. Agora, serei mais uma peça neste ambicioso projecto.
– Quanto às saídas anunciadas?
– Não confirmo saídas de jogadores, algumas são já públicas mas outras ainda não estão confirmadas, pelo que não vale a pena falar sobre isso.
– E quanto a entradas?
– Existem alguns jogadores que estamos a acompanhar, mas o critério de escolha de jogadores vai ser bastante diferente do ano passado. No estágio que vamos efectuar no Algarve vai haver mais novidades no que respeita a novos jogadores.
– Muitos estrangeiros podem gerar conflitos no balneário?
– Num país estrangeiro, quando há muitos jogadores de uma determinada nacionalidade, tal cria sempre clivagens com os jogadores do país de origem e isso terá sido uma das razões pela época desportiva desastrosa do Dínamo. Ficou provado que ter bons jogadores não é garante de sucesso.
– Para além dos jogadores lusos, Seitaridis e Enakarhire tiveram dificuldades na adaptação.
– O facto de ser português e de encontrar alguns jogadores portugueses e outros que tiveram experiência no futebol luso em nada constituirá um factor de favorecimento. Obviamente, falando a mesma língua o relacionamento tornar-se mais fácil.
– O que é que correu mal na adaptação de determinados jogadores?
– A língua terá sido outro dos factores para a difícil adaptação de alguns jogadores. Na sua grande maioria os jogadores tiveram a primeira experiência no estrangeiro o que nem sempre é fácil.
– Quais as diferenças entre o futebol russo e o português?
– Uma grande diferença de mentalidades. O campeonato russo é mais imprevisível. Não há problemas financeiros, ou seja, não há salários em atraso. Existem orçamentos que sustentam contratações de bons jogadores.
– Conheceu Fedorychev?
– Sim, estive reunido com ele, parece-me ser uma pessoa ambiciosa com o sonho de construir a equipa mais forte da Rússia. É muito educado, afável, muito simples e tem feito tudo para que não falte nada ao clube.
– Depois do Marítimo não houve mais convites?
– Houve convites da Liga e da Honra, mas esses convites não pareciam ser suficientemente fortes para aceitar e passados seis meses veio a verificar-se que algumas dessas equipas atravessam agora grandes dificuldades, por isso tomei a decisão certa.
– Qual a visão sobre o panorama actual do futebol português?
– O que mais me espanta é que no actual enquadramento há uma irresponsabilidade sucessiva de atrasos, gestões danosas e incumprimentos por parte das direcções. Surpreende-me que alguns cronistas e dirigentes sustentem como normal os jogadores terem ordenados em atraso, e que os administradores passem impunes a desastres económico-financeiros.
– O que se pode fazer para inverter essa situação?
– Fazer cumprir a lei. Fica-se com a sensação que quando se cria uma lei, encontram-se logo outras situações que permitem fugir a ela.
PERFIL
NOME: Mariano Barreto
IDADE: 48 anos
NACIONALIDADE: Portuguesa
CLUBE ACTUAL: Dínamo
CLUBES ANTERIORES: Sporting, Borússia Dortmund (Alemanha), Lokomotiv (Rússia), Selecção do Gana, Marítimo, Al--Nasr (Arábia Saudita).
REGRESSO À ÍNDIA 40 ANOS DEPOIS
Mariano Barreto, nascido em Goa, aproveitou a estada na Arábia Saudita para visitar a terra natal, mais de quatro décadas depois de ter abandonado a ex-colónia portuguesa. Durante a visita, Barreto deparou-se com uma situação inesperada. As raízes lusas estão bem patentes nos goenses e o futebol assume-se como um dos principais desportos.
O facto de Goa ser uma região onde as monções (período das chuvas) são muito fortes, impossibilita as equipas locais de treinar. Foi a pensar nisso que Mariano Barreto, juntamente com um investigador português, Júlio Garganta, sugeriram a construção de um campo sintético. Para isso já foi contactado o presidente do Comité Olímpico Português, Vicente Moura e a secretaria de Estado do Desporto, tendo em vista a cooperação com a ex-colónia portuguesa.
'CONTINGENTE' PORTUGUÊS NO DÍNAMO REDUZIDO
A contratação de Maniche por parte do Chelsea e as mais que prováveis saídas de Frechaut e Jorge Ribeiro fizeram diminuir a preponderância lusa no plantel do Dínamo. Depois da entrada de Mariano Barreto, que vai trabalhar de perto com o responsável máximo pelo futebol Yuri Syomin, podem surgir nas próximas semanas novas contratações que se podem juntar a Costinha, Danny, N-uno, Derlei e aos nossos bem conhecidos Seitaridis e Enakarhire.
É por demais evidente a admiração que o patrão do Dínamo, Alexei Fedorychev, tem por jogadores portugueses, pelo que não é de estranhar que nos próximos dias possam avançar com mais contratações, até porque os russos vão disputar alguns jogos particulares em Janeiro, no Algarve durante o estágio de pré-temporada. Para já estão contratados três russos: o ex-guarda-redes do FC Porto e Benfica, Serguei Ovchinnikov, Bulikin e Semshov .
ANTÓNIO GASPAR COOPERA COM MÉDICOS DO DÍNAMO
O fisioterapeuta António Gaspar esteve há poucas semanas na capital russa onde trabalhou na recuperação de Maniche, que recentemente foi sujeito a uma intervenção cirúrgica, e de alguns jogadores russos do plantel. Durante os 15 dias que esteve em Moscovo, a convite do departamento médico do Dínamo, António Gaspar aproveitou para se inteirar das condições e infra-estruturas existentes do departamento médico da milionária formação russa a nível de recuperação física de jogadores.
O corpo clínico do Dínamo elogiou e registou as sugestões do recuperador físico português a nível de organização, novos tratamentos e aparelhos de musculação. Em declarações ao Correio da Manhã, António Gaspar reconheceu que o departamento médico local tem “uma maneira diferente de trabalhar”. “Os responsáveis do Dínamo mostraram-se entusiasmados em implementar algumas das técnicas que têm revelado bons resultados, uma vez que são pessoas ‘abertas’ a novas sugestões”, afirmou o fisioterapeuta.
A passagem de Gaspar pela Rússia deixou tão boa impressão que foi convidado a colaborar de futuro com o departamento médico do Dínamo de Moscovo de forma a dinamizar e melhorar uma infra-estrutura que apresenta algumas lacunas a vários níveis.
O clube russo, que tem como objectivo tornar-se no maior clube da Rússia e um dos maiores a nível europeu, vai iniciar a curto prazo a construção de um centro de estágio onde estará englobado um moderno departamento médico, pelo que o contacto e a troca de experiências com outros recuperadores físicos e outras realidades é preponderante para construir um corpo clínico competente que possa fazer face a toda e qualquer eventualidade no que diz respeito a lesões no âmbito da actividade desportiva.
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