Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
8

CLÃ MATIAS REINA EM CLUBE ALGARVIO

Ângela Matias não esconde a sua paixão pelo futebol e, especialmente, pelo Campinense. É a presidente, o seu marido é o treinador, o pai e o irmão são vice-presidentes e a filha é a mascote idolatrada pelo plantel.
23 de Outubro de 2004 às 00:00
Ângela Matias, 35 anos de idade, secretária, é presidente da direcção do Juventude Sport Campinense, actual líder do campeonato distrital de seniores da I Divisão da Associação de Futebol do Algarve, estando a cumprir o seu quinto mandato.
Muito embora não seja habitual uma mulher na presidência de um clube desportivo, o caso do Campinense atinge foros de anormalidade.
Isto porque o pai de Ângela Matias, Jorge Pinguinha, de 63 anos, e o irmão Jorge Santos, um engenheiro civil de 32 anos, são vice-presidentes da direcção, sendo este último o chefe de departamento de futebol. Mas não ficam por aqui as afinidades na direcção do Campinense, pois a prima Maria de Deus, uma funcionária da Câmara de Lagos, de 31 anos, ocupa o lugar de vogal. Para completar as afinidades, Paulo Renato, marido da presidente, é o treinador do plantel principal e a filha Inês Matias, com apenas sete anos, é a mascote da equipa.
De fora fica a mãe, Maria Guerreiro, de 58 anos, cuja tarefa é fazer o chá para os jogadores e o filho mais velho André Matias, de 13 anos, mais virado para os computadores do que para o futebol.
Ângela Matias cedo ‘morreu de amores’ pelo Campinense, trazida pelo pai e, desafiada por amigas, candidatou-se à presidência e ganhou as eleições: “Estava num jantar com amigas e, por brincadeira, desafiaram-me a candidatar-me à presidência. Aceitei o convite, agarrámos num guardanapo, formámos uma lista e cá estou, já há seis anos consecutivos”, explica a presidente do Campinense, que não sentiu dificuldade em entrar num meio maioritário de homens: “Desde pequena que, tal como faz a minha filha agora, ando metida no clube. Via os treinos e não perdia um jogo, pelo que isto não era novidade para mim e gostava muito”, garante.
No entanto, “no início foi um bocado difícil, pois as pessoas não estavam habituadas e ouvi algumas ‘bocas’, do género ‘vai para a cozinha’ e outras do género, e, curiosamente, de gente mais jovem, que são mais machistas que os mais velhos”, afirma Ângela Matias, que não tem problemas em ir para o banco: “Sinto que a minha presença acalma os jogadores e eles gostam de me ver ao pé deles. Nas situações mais complicadas, ‘os meus meninos’ têm uma melhor reacção quando estou por perto e têm grande respeito para comigo”, afirma.
Aliás, Ângela Matias gostaria de ver mais mulheres nas direcções do futebol: “Temos mais sensibilidade que os homens, uma maneira diferente de ver o futebol, e noto que há respeito por sermos mulheres, e isso poderia mudar o futebol português, tornando-o melhor”, diz a presidente.
O facto de a presidente ser mulher do treinador também é encarado com naturalidade: “Isso complica a minha tarefa e tem prejudicado a sua carreira. Já teve convites de equipas do nacional e eu consegui convencê-lo a ficar, pois tem feito um bom trabalho. O facto de conhecer, por dentro, as nossas limitações financeiras, faz com que seja um treinador mais compreensivo do que se fosse de fora. Discutir o seu ordenado tem sido fácil e resume-se a ganhar sempre o mesmo”, explica, com um sorriso Ângela Matias, que não esconde insónias por causa do seu cargo: “Passo muitas noites em branco a pensar como ir arranjar dinheiro. Temos um orçamento de 150 000 contos para o futebol (sénior e júnior), kick boxing e boxe, onde temos campeões nacionais, malha na laje e ténis de mesa.
O facto de Ângela Matias ser, profissionalmente, secretária do presidente da Câmara Municipal de Loulé não lhe traz vantagem na presidência de um clube do concelho: “Antes pelo contrário, pois não gosto de pedir nada para o clube, para que as pessoas não possam dizer que estou a utilizar o meu estatuto de secretária. Temos contrato-programa com a edilidade, placas publicitárias, apoio de firmas e a quotização de meio milhar de associados, e isso dá, com muita imaginação, para não termos passivo”, afirma a presidente do Campinense, um clube de bairro, mas que aspira a mais altos voos.
ÂNGELA, A SECRETÁRIA DA CÂMARA DE LOULÉ
Quem vê, nos jogos, Ângela Matias a vibrar com o seu Campinense, de fato de treino vestido, não imagina que, no dia-a-dia, a presidente desempenha um cargo importante na Câmara de Loulé.
Secretária do presidente Seruca Emídio, Ângela Matias filtra quem quer ter acesso ao autarca, que explica: “Antes de ser minha secretária, já era presidente do clube e funcionária da Câmara”. Aliás, o autarca vê com bons olhos o desempenho no dirigismo da sua secretária: “Penso que só com a participação de mulheres em cargos directivos é que as modalidades desportivas podem ter um melhor desenvolvimento e tenho acompanhado o seu trabalho no Campinense, que considero de grande valor”, afirma o edil, que recusa proteccionismo para com o Louletano: “Antes de desempenhar cargos no Louletano fui médico do Campinense. O apoio da Câmara aos clubes está bem definido, de acordo com os atletas em actividade e o nível de participação a nível nacional e é lógico um maior apoio ao Louletano”, concluiu.
TREINADOR É O MARIDO
Como se não bastasse quase toda a família pertencer à direcção, também o treinador da equipa principal é o marido da presidente.
Paulo Renato, um electricista camarário com 38 anos de idade, conheceu Ângela Matias no clube e foi ‘amor à primeira vista’: “Conhecemo-nos no clube. Eu era jogador e ela era secretária da direcção, começámos a namorar e depois casámo-nos sempre com o Campinense a dominar as nossas vidas. O futebol ocupa praticamente a nossa vida familiar. Apesar de ela ser sportinguista e eu benfiquista, conseguimos ter discussões civilizadas e sempre em prol do Campinense”, afirma o técnico.
Encantado com a sua presidente, Paulo Renato não esconde que “ao princípio foi complicada esta afinidade, mas depois o seu dinamismo ajudou a fazer este bom trabalho, que é fruto de o clube ser uma família, o que faz com que, de ano para ano, o plantel praticamente não sofra alteração”, concluiu técnico.
ÁRBITROS MOSTRAM RESPEITO PELA PRESIDENTE
Obrigada, como delegada aos jogos, a ter que entrar nos balneários das equipas de arbitragem, antes e depois dos inícios dos jogos, Ângela Matias tem uma táctica para evitar problemas: “Cá de fora, grito-lhes, dizendo ‘cuidado que vai entrar uma mulher’ e eles compõem-se. Até agora, tenho sido sempre respeitada e, no banco, evito dizer os palavrões que, confesso, dizia quando estava na bancada e via a minha equipa ser prejudicada”, explica a presidente do Campinense: “Agora tenho outra postura no futebol e privilegio o diálogo aos confrontos”, garante.
CAPITÃO É FÃ DA PRESIDENTE
Tó Manel, aos 33 anos de idade, é um dos jogadores mais experientes do plantel, tendo uma carreira que passou por vários clubes: “Depois de representar vários emblemas, estou no Campinense há cinco anos e nunca tive um ambiente assim. Isto é uma verdadeira família, pois a presidente Ângela tem a sensibilidade para resolver os problemas dos jogadores”, garante o capitão do Campinense, que considera fundamental para o êxito do clube o facto de a presidente conseguir unir o grupo de trabalho.
O CHÁ MILAGROSO DE DONA MARIA GUERREIRO
O único elemento da família Pinguinha que não pertence à direcção do Juventude Sport Campinense é a mãe da presidente.
Maria Guerreiro, doméstica, de 58 anos de idade, acompanha sempre a família nos jogos e tem uma participação que é bem recebida principalmente no Inverno: “Levo um termo com dois ou três litros de chá com ‘Bela Luísa’ e limão. Nos dias muito frios, ao intervalo, os jogadores não dispensam aquela bebida e, não sei se é psicológico ou não, o certo é que entram para a segunda parte com mais energia”, garante a mãe da presidente do Campinense.
INÊS MATIAS A MASCOTE
Tal como Ângela Matias sempre fez, acompanhando o Campinense desde pequena, também a sua filha Inês não perde um treino ou jogo da equipa.
Com apenas sete anos de idade, a criança veste-se a rigor e, nos treinos, acompanha a preparação da equipa, não dispensando várias voltas ao campo.
Nos dias dos jogos, enquanto a família vai de automóvel para os campos de futebol, Inês não dispensa a viagem no autocarro da equipa, junto dos seus ídolos.
O único elemento da família que não comunga da ‘doença’ é André Matias. Aos 13 anos, prefere os jogos de computadores e, desporto, apenas uma prática pouco entusiasta do ténis de mesa.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)