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Correio da Manhã

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"Compete-me potenciar as grandes condições de Ronaldo"

Após o primeiro desaire como seleccionador (1-2 com a Argentina), Paulo Bento reconhece que a equipa teve um rendimento diferente após saída de CR7.
12 de Fevereiro de 2011 às 00:00
O seleccionador nacional Paulo Bento
O seleccionador nacional Paulo Bento FOTO: Paulo Bento

Correio Sport – Ficou desiludido com a derrota diante da Argentina?

Paulo Bento – Perder aborrece sempre. Entramos em todos os jogos para ganhar. Fizemos tudo bem, não fomos inferiores à Argentina e acabámos por perder num lance algo infeliz, em cima dos 90 minutos. Nada tenho a apontar aos jogadores, mostraram uma atitude que deve nortear a Selecção  em todos os jogos.

- Substituir Ronaldo foi uma decisão assumida previamente  ou no decorrer do jogo?

- As decisões são tomadas de acordo com o plano de jogos, tendo em conta também a época dos jogadores. Se tivesse de tomar a mesma decisão  para defender os interesses do Ronaldo, o calendário e, acima de tudo, os interesses da Selecção, tomá-la-ia novamente.

- A Argentina ganhou porque Messi jogou os 90 minutos?

- Admito que a partir dos 60 minutos tivemos um rendimento diferente. Defensivamente, a equipa manteve-se organizada, mas tivemos mais dificuldades em transitar para o ataque e dominar, mas não perdemos o controlo, devido às substituições.

- Messi  acabou por desequilibrar o jogo após saída de Ronaldo?

- Contra a Espanha, Cristiano Ronaldo ficou na cabina ao intervalo. O resultado estava 1-0 e, na segunda parte, marcámos três golos. Ganhámos por 4-0 e ninguém falou da ausência de Ronaldo. Desta vez, como sofremos um golo no minuto 90, fala-se em função disso.

Mourinho disse que os adversários castigam Ronaldo e desviam-se de Messi. Concorda?

- Em função de um conjunto de jogos na Liga espanhola é possível permitir esse tipo de análises. A mim compete-me potenciar, em termos colectivos, as grandes condições de Ronaldo. Por isso, esse tipo de análise fica para quem tem uma base de dados que eu não tenho.

- Rui Patrício tem a titularidade à vista na Selecção?

- Há pouco mais de três anos, era colocada em causa a qualidade e maturidade do Rui. De um momento para o outro, passou a ser um talento extraordinário e aqueles que não tinham permitido que jogasse no Sporting agora já pressionam para o Rui ser titular da Selecção.

- Os mesmos que não o queriam ver no Sporting?

- Achavam que era um erro de quem comandava o clube. A pessoa que treinava o Sporting passou a orientar a selecção nacional e o Rui é visto como um grande guarda-redes, quase pondo em causa o valor do Eduardo para ele poder jogar. Tanto um como outro têm qualidade e capacidade suficiente para defender a selecção nacional.

- Também há quem lamente a falta de pontas-de-lança...

- Da mesma maneira que sabemos existir algum problema na quantidade de laterais-esquerdos, admitimos que poderá haver também alguma escassez de pontas-de-lança. A nós compete-nos ir tentando arranjar soluções. Nos jogos que disputámos entraram Hugo Almeida e Postiga. Também Ronaldo pode fazer essa posição, dentro de outro sistema e outra estratégia.

- Liedson vai continuar a ser opção?

- Se tivermos de o convocar, convocaremos, vamos segui-lo através da televisão e vídeo e não propriamente pela observação directa. Mas não está descartado.

- Celsinho acusou-o de, no Sporting, colocar os brasileiros à margem. Isso mexeu consigo?

- Não. Dormi como durmo todas as noites. É um problema dele.

- Preocupa-o o facto de os portugueses seleccionáveis jogarem fora?

- A tendência é, cada vez mais, os jogadores portugueses irem para ligas com mais dinheiro. A nós compete-nos fazer o nosso trabalho de observações, análises e convocatórias, independentemente do clube onde joguem. O que pode ajudar a consolidar a identidade da equipa, a exemplo dos que estão em Espanha, é haver muitos num clube. Depois, há os casos de Inglaterra, Itália e Alemanha, em que os jogadores podem não ser da mesma nacionalidade mas estarem adaptados ao mesmo estilo de futebol.

- De Brasil e Argentina chegam jovens com 20 ou 21 anos e os portugueses dessa idade são emprestados...

- Tem a ver com opções das pessoas, políticas dos clubes, situações que exigem alguma coragem, ou de os treinadores se sentirem protegidos pelos dirigentes para entrarem neste tipo de apostas. Se congregarmos estas posições, será fácil alguns jogadores de 20 ou 21 anos jogarem na Liga.

- Lançou muitos jovens nacionais no Sporting. Foi uma forma de contrariar esta política?

- O Sporting é um clube com aposta diferente, e os jogadores têm muitas vezes um trajecto mais curto para a equipa principal, por uma questão de política e também de necessidade. A aposta na formação nunca foi minha, e sim do clube. Tenho a certeza de que vai continuar.

- Portugal pode aspirar a ser a melhor selecção do Mundo?

- Não podemos dar um passo maior do que a perna. Há selecções tão boas como a portuguesa e outras que a nível de qualidade e quantidade, como Brasil e Argentina, com base de recrutamento em função da população, não são comparáveis. Temos de criar, dentro das nossas restrições, uma identidade na nossa forma de jogar, abordar os jogos, sejam oficiais ou particulares, saber os valores inerentes a quem representa a Selecção e depois ter capacidade para jogar de igual para igual com qualquer selecção.

- Continua preocupado com eventuais sanções da FIFA ou UEFA devido aos Estatutos da FPF?

- Esperamos e desejamos que até ao jogo com a Noruega, a 4 de Junho, quase decisivo para o apuramento para o Euro’2012, as coisas estejam resolvidas, a bem do futebol português.

- Essa questão pode afectar os jogadores?

- Se não for resolvida, tenho receio de que desestabilize de alguma maneira ou que os afecte em termos emocionais. Mas eu sempre disse que se não conseguirmos o apuramento a responsabilidade é minha. Se o conseguirmos, é mérito dos jogadores.

-Já percebeu bem as diferenças entre treinar um clube e a selecção nacional?

- O trabalho de observação e análise é mais frequente, mas em qualquer dos casos treinar implica liderança e competência.

- O Sporting vive um momento difícil. Isso preocupa-o?

- O que me preocupa, quando vou observar e analisar jogadores, é saber em que contexto estão inseridos e se o rendimento deles é afectado por algum problema. Saí do Sporting em 2009, já passaram quase dois anos. Não posso fazer nada para que as pessoas não me relacionem com o Sporting, mas já passou muito tempo, houve dois treinadores e outros directores.

- Como tem encontrado os jogadores do Sporting?

- Quando vou analisar jogadores seleccionáveis, seja do Sporting ou de qualquer outro clube, aquilo que tenho notado é um comportamento excepcional e um bom rendimento. Estou satisfeito com João Pereira, Hélder Postiga e Rui Patrício.

PERFIL

Paulo Jorge Gomes Bento nasceu em Lisboa há 41 anos (20/06/1969). Em 2004, terminou a carreira de futebolista no Sporting e tornou-se treinador dos juniores dos leões, vencendo o título nacional em 2005. Seguiram-se quatro anos no comando da equipa principal. Conquistou duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Em Setembro de 2010, rendeu Carlos Queiroz na selecção nacional.

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