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Correio da Manhã

Desporto
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Conversa igual, imagens diferentes

Como os treinadores do FC Porto e do Sporting reagiram à derrota com o Benfica
26 de Fevereiro de 2011 às 00:00
Conversa igual, imagens diferentes
Conversa igual, imagens diferentes

Mas quem é este visconde? – terão perguntado a si próprios muitos adeptos sportinguistas quando, na segunda-feira, pouco depois das dez da noite, viram surgir na “flash interview” o vulto de Alberto Cabral (é este o seu nome)) a proclamar proletariamente a “superioridade” do futebol de ataque do Sporting sobre o Benfica no “derby” que se tinha encerrado com, pasme-se, um resultado negativo para os donos da casa. Alberto Cabral é um adjunto do treinador Paulo Sérgio que não pôde estar sentado no “banco” do Sporting a dirigir a equipa contra os rivais porque, na jornada anterior do campeonato, foi expulso por Olegário Benquerença no jogo de Olhão.

 

Aliás, o diferendo entre Paulo Sérgio e Benquerença veio para ficar. O árbitro justificou no seu relatório a expulsão do treinador do Sporting acusando-o de ter proferido insultos à sua imaculada reputação. Paulo Sérgio diz que é mentira. Diz que o que Benquerença escreveu no relatório não reflecte o que se passou em Olhão. Quando surgem situações deste género, as opiniões acabam sempre por dividir-se em função dos afectos dos adeptos e do público em geral. Haverá, assim, quem acredite no árbitro e haverá quem acredite no treinador do Sporting, como é o nosso caso.

 

É fundamentalmente uma questão de imagem. E, reconhecendo a validade de opiniões contrárias, Paulo Sérgio tem melhor imagem do que Olegário Benquerença, até porque como treinador, por muitos erros que tenha cometido, nunca conseguirá errar tanto quanto Olegário Benquerença na sua profícua carreira como árbitro. E o público destes espectáculos, os adeptos em geral, tende sempre a levar mais a sério as palavras dos protagonistas mais a sério em termos de currículo e de… imagem.

 

Retome-se o exemplo de Alberto Cabral que, de facto, não terá aquela imagem consentânea com a identidade aristocrática que os sportinguistas, muito anacronicamente, reclamam para si. Ninguém o levou a sério quando, no final do “derby”, irrompeu mal-encarado a proclamar a tal “superioridade” da sua equipa sobre o Benfica. Houve até sportinguistas de peso que zurziram publicamente no pobre Cabral forte e feio. Mas Cabral, na verdade, só tem contra o seu discurso a sua imagem, que não é a melhor, vá lá saber-se porquê.

 

O que o adjunto de Paulo Sérgio disse depois de perder, em casa, por 2-0 com um Benfica reduzido a 10 por todo o segundo tempo, foi exactamente a mesma coisa que André Villas Boas disse depois de perder em casa, por 2-0 com o mesmo Benfica, reduzido a 10 unidades por quase todo o segundo tempo. Ambos afirmaram a pés juntos a “superioridade” das suas equipas e do seu futebol. Mas com Villas Boas não houve escândalo nem repugnância pelo que disse. Compreende-se. É sempre a velha questão de imagem. Até nisto o Sporting anda com azar.

 

ERRAR É HUMANO

 

Há males que vêm por bem

 

O Real Madrid conseguiu aquilo que se pode considerar um bom resultado na sua visita a Lyon – um empate a uma bola – mas Mourinho não conseguiu esconder a irritação que lhe sobreveio quando, com o resultado em 1-0 a favor do Real, o árbitro ignorou uma “mão” de Gourcuff na área dos franceses. Compreende-se. Passar de 1-0 para 2-0 é muito melhor do que acabar por empatar 1-1 nos instantes finais do jogo.

 

No entanto, se o registo histórico se mantiver, o Real Madrid “já” eliminou o Olympique de Lyon. Há nove anos, desde que o Beira-Mar foi ganhar às Antas, que José Mourinho não sabe o que é perder um jogo em casa. Mais modestamente e à medida do futebol português, Jorge Jesus também já leva um honroso registozinho histórico. Desde a derrota no Dragão para o campeonato, o Benfica vem a somar vitórias e exibições convincentes.

 

A última foi em Alvalade na segunda-feira passada e poucos acreditariam que seria possível o Benfica dar cabo do velho rival de forma tão ligeira. Ao contrário de Mourinho, Jesus optou por não acusar o árbitro do Porto de alguns erros de julgamento em desfavor do Benfica que, do ponto de vista especulativo, terão impedido os campeões de alcançar um resultado mais de acordo com a diferença real entre as duas equipas. Mas Jesus limitou-se a sugerir uma “reciclagem” nestas questões de apitos. E fez bem. O treinador do Benfica é um intuitivo por excelência e, lá no fundo, soube-lhe melhor ganhar em Alvalade com 10 do que lhe saberia ganhar com 11. Viva o árbitro!

 

POSITIVO

Jardel à 'leão'

Finalmente o Benfica tem um Jardel! Estreou-se em Alvalade quando a equipa jogava com 10 e se temia que a superioridade numérica do Sporting viesse a produzir resultados. Mas Jardel aguentou-se na luta e ainda foi elogiado pelo seu treinador.

Rui e vitórias

O Paços de Ferreira é a equipa sensação deste campeonato. Não só pelo que joga, e joga bem, mas também pelo que vai ganhando, e ganha muitas vezes. Na última jornada foi a Braga vencer. Rui Vitória é o treinador de quem se fala.

 

NEGATIVO

FPF à nora

Desvendou-se esta semana o segredo que está por trás da guerra das Associações do Porto, Braga e Leiria contra a legalização do estatuto da Federação Portuguesa de Futebol. Trata-se, tão simplesmente, de uma questão de árbitros. É importante.

 

PÉROLA

 

“O Sporting é um triturador de profissionais.”, PAULO SÉRGIO

 

Do outro lado da Segunda Circular, algures entre as vigências de Manuel Damásio e Vale Azevedo, já Toni tinha expresso a mesma ideia por outras palavras: “O Benfica é um cemitério de treinadores.” Mas a crise de resultados e de identidade mora agora em Alvalade e Paulo Sérgio não será, certamente, o último moicano.

 

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