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Correio da Manhã

Desporto
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Cotações em queda

Já não havia memória de um defeso tão pouco movimentado e de reduzido interesse, devido à falta de recursos económicos. Nacional e Braga são os clubes com maior intervenção no mercado, graças a terem também realizado as principais vendas.
27 de Junho de 2009 às 00:00
Ramires, em trânsito para um «grande» da Europa, única aquisição de peso até agora
Ramires, em trânsito para um «grande» da Europa, única aquisição de peso até agora FOTO: Halden Krog / EPA

Tem sido pouco disputado e apaixonante o defeso futebolístico deste ano, com os clubes grandes a comprar pouco e a privar o mercado de liquidez que eram a base de negócios dos clubes menos abonados. A crise económica e a incapacidade de persuasão dos clubes portugueses impõe finalmente a contenção que os faz virar para o mercado interno, com destaque para o FC Porto que, desde a revolução de Mourinho, contratou pela primeira vez mais portugueses do que estrangeiros.

Embora vá dando sinais de poder voltar a contratar os serviços de alguma antiga vedeta em desgraça na Liga espanhola, como o argentino Saviola, o Benfica concretizou em devido tempo a melhor aquisição da época, do brasileiro Ramires, o jogador que mais se valorizou nos últimos tempos, depois de Cristiano Ronaldo, claro! Quanto ao Sporting, a maior mudança terá sido a do presidente, mantendo-se uma prudência religiosa acompanhada de muita fé na capacidade de evolução dos jovens da Academia de Alcochete nas mãos do treinador Paulo Bento.

A dependência dos investimentos de Verão de algum desafogo financeiro reflecte-se apenas no número significativo de aquisições do Nacional da Madeira e do Sporting de Braga, os dois clubes mais fortes depois dos grandes na última temporada e também os que conseguiram realizar vendas significativas (Nené, Maicon, Luís Aguiar, Orlando Sá). Igualmente o Paços de Ferreira, abonado pelo prémio da final da Taça e com os olhos nas receitas da Liga Europa, exerce pressão no mercado intermédio, ajudando clubes de escalões inferiores, como é da tradição.

Sem treinador a poucos dias do começo da temporada, a situação mais atípica deste defeso é a do Vitória de Guimarães, que já contratou sete novos jogadores, todos no estrangeiro, incluindo Rui Miguel, que se destacou ao serviço do Paços de Ferreira, mas pertencia a um clube da Polónia. Pelo contrário, o Marítimo continua bastante discreto em compras e aparentemente mais interessado em regressar à órbita do FC Porto, lutando por algumas cedências portistas com Nacional e Leixões (Bruno Gama e Hélder Barbosa são os mais disputados).

REGRESSOS A CASA

Quando o futebol português se dissemina pelos sub-mercados da Europa do Sul e do Leste, mantém-se o vaivém a que já se assistira no ano passado, com alguns repatriamentos de jogadores portugueses de qualidade, que não foram muito felizes no exterior, casos de Alex e Jorge Rodrigues (Guimarães), Manuel José (Paços de Ferreira) ou Tiago Gomes, um dos poucos activos que restam ao Estrela da Amadora, enquanto a Liga tarda em decidir o afastamento do clube.

Apesar de o Estrela ter os dias contados, a maioria dos jogadores que deram tão boa conta na época anterior constituíram o principal alvo do mercado nacional, numa espécie de oferta «low cost» ou, mais que isso, a custo zero. Desde Silvestre Varela para o FC Porto, à dupla Vítor Moreno e Hugo Gomes para o promovido União de Leiria, os jogadores do Estrela espalham-se por toda a Liga, dando uma ideia do prejuízo incalculável provocado pela má gestão do clube: Académica (Vítor Vinha), Braga (Fernando Alexandre), Nacional (Anselmo), Naval (Mustafá), Paços de Ferreira (Filipe Mendes), Vitória de Setúbal (Jardel, Ndaye e Rui Varela) – são poucos os que não aproveitam a falência do adversário, oferecendo uma nova vida aos jogadores, sem esquecer os que eram emprestados por FC Porto (Nuno Coelho e Tengarrinha) e Sporting (Celestino) que, agora, também rumarão a outros emblemas de aluguer.

As sobras do FC Porto têm muito mais procura que as de Benfica e Sporting. O Olhanense, treinado por um dos mais famosos números 2 de Pinto da Costa, Jorge Costa, reaparece na 1.ª Liga como autêntica sucursal sulista, provavelmente com seis jogadores azuis e brancos, incluindo o guarda-redes Ventura e o avançado Rabiola.

AQUISIÇÕES DOS 3 GRANDES

Não fosse a febre de contratação de valores emergentes que este ano atacou a administração do FC Porto, alguns dos quais certamente acabarão cedidos a outros emblemas, e o regresso de mais dois antigos recrutas a Alvalade, o número de aquisições dos três grandes no defeso teria descido a um mínimo recorde, circunscrevendo-se às surtidas do Benfica no mercado brasileiro. Apesar disso, o total de 13 aquisições (incluindo Matías Fernandez) dadas como asseguradas continua a ser, de longe, o mais baixo deste século, metade do ano passado e menos de um quarto das registadas no ano louco de 2002, quando os três se preparavam para responder à enorme humilhação acabada de sofrer com a vitória do Boavista na Liga.

DE REGRESSO A MOURINHO

Pela primeira vez em sete anos, o FC Porto contrata mais portugueses do que estrangeiros, um dos quais (Maicon) também no mercado interno, e acompanha a tendência geral de menos compras, embora com mais folga que os adversários.

À MARGEM DAS LOUCURAS

O Sporting mantém-se à margem dos loucos negócios de Verão, repetindo o perfil da última temporada com o regresso discreto de antigos juniores em evolução e à aquisição de uma vedeta chilena com pouco sucesso em Espanha.

MENOS SOBRAS DE ESPANHA

Os negócios ainda não aquietaram, com tanto desperdício da Liga espanhola por colocar depois do «furacão Ronaldo», mas já será impossível a Rui Costa igualar a média de 11 novos jogadores por ano, neste século benfiquista.

FLOP DE CISSOKHO UMA 'BOCA LIVRE'

A história muito mal contada do flop da venda de Cissokho pelo FC Porto ao Milan acaba por desembocar na melhor aquisição dos portistas para a próxima temporada, precisamente o lateral esquerdo adquirido há meses ao Vitória de Setúbal. Como dizem os brasileiros, Cissokho é uma «boca livre» na mesa de Jesualdo Ferreira, partindo do princípio de que não perderá mercado nem valor com mais uma temporada de azul e branco na Liga dos Campeões.

DEPRIMENTO TESTE ÀS FINANÇAS LOCAIS

O leilão do melhor goleador da última Liga portuguesa veio a constituir um deprimente teste às depauperadas finanças dos pretendentes locais, os chamados grandes. «Estão tesos», dizia a propósito o presidente do Nacional, enquanto levantava asas para mercados mais abonados, embora sem conseguir melhor do que outro ilhéu periférico, a Sardenha, para um jogador que parece assim condenado a passar ao lado de uma carreira de mais alto nível.

ORGULHO E POUCA AMBIÇÃO

O Sporting acha que se dá bem com a promoção dos seus valores jovens e alimenta o orgulho com o crescente número de jogadores formados em casa que vão assentando praça na equipa principal. Parece que chega, quando a ambição se resigna pela impossibilidade de chegar ao título. O regresso de Carlos Saleiro, que nunca seria opção para um clube grande após épocas de tirocínio discreto e improfícuo, é um exemplo de que santos da casa inspiram milagres.

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