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Correio da Manhã

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Da realeza à realidade

Perante o olhar dos Príncipes de Cambridge e da realeza do ténis, os quartos-de-final masculinos determinaram as melhores meias-finais possíveis após a eliminação precoce de Rafael Nadal. Frederico Silva esteve muito perto da melhor vitória da sua carreira nos oitavos-de-final do torneio júnior. E nesta quinta-feira jogam-se as meias-finais femininas.
5 de Julho de 2012 às 00:37
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ténis, wimbledon, londres FOTO: EPA

Bastava olhar para o Camarote Real no Centre Court para se constatar que a ocasião era solene: logo na primeira fila, o elenco era liderado por populares casais da realeza monárquica (William e Kate, Duques de Cambridge) e tenística (Andre Agassi e Steffi Graf, 30 títulos do Grand Slam e duas medalhas olímpicas), para além dos Príncipes de Kent, dos Lordes de Windsor, do campeoníssimo Rod Laver, de Presidentes e ex-Presidentes do ATP, do WTA e da Federação Internacional de Ténis, e de muitas outras figuras proeminentes, desde o actor Jeremy Piven ao seleccionador inglês de futebol Roy Hogdson. No court, uma prestação imperial – com Roger Federer a atropelar Mikhail Youzhny de tal maneira que o russo chegou a pedir a tão ilustres convidados conselhos sobre o modo como poderia inverter a situação diante do suíço. E depois uma nobre batalha sem tréguas entre um súbdito britânico e outro espanhol, com Andy Murray a impor-se a David Ferrer.

Como nos outros dois embates dos quartos-de-final masculinos agendados para o Court 1 também prevaleceram os favoritos, as meias-finais da 126ª edição de Wimbledon apresentam-se suculentas e são as melhores possíveis após o desaire precoce de Rafael Nadal na segunda ronda, já que incluem quatro dos cinco primeiros do ranking. Na sexta-feira, Novak Djokovic e Roger Federer defrontam-se pela 27ª vez (mas pela primeira na relva), enquanto Andy Murray mede forças com Jo-Wilfried Tsonga.



RAINHA DE PORTUGAL

Entretanto, no Court 4 jogava um jovem republicano português que, ironicamente, é oriundo de uma localidade baptizada em honra de uma rainha e que é das poucas povoações do país a possuir um brasão anterior à normalização da heráldica municipal levada a cabo no início do século XX. Frederico Silva, depois de já ter ganho o seu compromisso da segunda ronda de juniores da parte da manhã (6-1 e 6-2 ao australiano Jordan Thompson), esteve perto do melhor triunfo da sua carreira juvenil… mas não conseguiu concretizar a vantagem de 3-0 no terceiro set face ao número dois mundial  Kipper Coppejans, ele próprio um súbdito do reino da Bélgica.

O encontro teve lugar à tradicional hora do chá (já agora: o tipicamente britânico ‘Chá das 5’ deve-se à rainha portuguesa Catarina de Bragança!) e o esquerdino das Caldas da Rainha logrou ultrapassar o ímpeto inicial do recente campeão de sub 18 de Roland Garros e do evento de Roehampton para equilibrar a contenda no segundo set e começar da melhor maneira a partida decisiva. Mas quando tinha o ascendente do seu lado insistiu em demasia na táctica de amolecer o jogo e Kipper Coppejans mostrou então toda a sua qualidade, sempre muito possante no serviço e com poderosas pancadas profundas no fundo do court.

Mesmo assim, quando o belga servia a 5-4 para fechar o encontro, houve um momento crítico: a 15/30 enviou uma bola para fora que foi dada como dentro pela equipa de arbitragem. E em vez de 15/40 (dois break-points para o português fazer o 5-5) ficou 30/30; instantes depois o encontro ficava resolvido em favor do favorito.

GRANDE DESPORTIVISMO

Essa bola crucial a 15/30 foi mesmo fora porque no final Kipper Coppejans confirmou-o e pediu desculpa a Frederico Silva, dizendo-lhe também que se perdesse teria ficado contente por ser para o tenista luso. «São amigos e o belga é extremamente correcto», disse Pedro Felner, o treinador de ‘Kiko’, que analisou: «Houve um período do jogo em que o Frederico devia ter sido um pouco mais agressivo. Mas o belga serviu muito bem no final, ganhou muitos pontos directos no serviço e isso faz a diferença nos rápidos courts de relva». O pupilo acrescentou: «No início ele estava a jogar muito rápido, mas no segundo mudei o ritmo e desacelerei o jogo para ver se ele falhava e para eu próprio entrar mais no encontro. Também comecei a servir melhor, mas no terceiro set falhei uma ou outra bola que não devia ter falhado». E usou em demasia a direita cortada, permitindo ao adversário tomar as rédeas nas trocas de bola.

O encontro foi presenciado por algumas figuras da modalidade, como o empresário Ugo Colombini (agente de Juan Martin del Potro), a árbitra portuguesa Mariana Alves, o sul-africano Wayne Ferreira (ex-top 10 mundial nos anos 90) e o holandês Sven Groeneveld (reputado treinador e director da equipa técnica da Adidas). «Gosto de o ver jogar, mas acho a esquerda dele um pouco mole», disse Ferreira; «tem um jogo muito interessante», confessou Groeneveld. Apesar dos elogios, o encontro caiu para o belga número dois mundial de juniores: 6-1, 6-7 (7/4) e 6-4. Mas, aos 17 anos, Frederico Silva pode voltar a jogar a prova em 2013 e para ele a edição de 2012 ainda não acabou: o cair da noite suspendeu o seu encontro da ronda inaugural de pares ao lado do holandês Max de Vroome.



O MEU REINO PELO TÍTULO

Na competição principal, a jornada estava reservada para os quartos-de-final masculinos e as hierarquias pré-estabelecidas foram respeitadas com a vitória dos favoritos – com o encontro do dia a ser seguramente aquele que opôs Andy Murray a David Ferrer. O espanhol esteve muito perto de chegar à vantagem de dois sets a zero quando serviu a 5-4 e depois teve 5/2 e set-point a 6/5 no tie-break, só que o escocês mostrou-se um pouco mais possante e sobretudo mais versátil nos momentos decisivos; ao cabo de cerca de quatro horas de jogo, triunfou por 6-7, 7-6, 6-4, 7-6 e qualificou-se para as meias-finais pela quarta vez consecutiva, igualando o anterior número um inglês Tim Henman. E desta vez não terá Rafael Nadal pela frente, já que irá defrontar Jo-Wilfried Tsonga para tentar tornar-se no primeiro britânico a chegar à final de Wimbledon desde Bunny Austin em 1938 e eventualmente ser o primeiro a erguer o troféu desde Fred Perry em 1936.

Na outra meia-final o pedigree é estratosférico, já que será disputada por dois campeões com 21 títulos do Grand Slam entre si. Roger Federer, com 16 e a tentar igualar o recorde de sete troféus de Pete Sampras em Wimbledon, também tem como motivação suplementar o facto de poder recuperar a liderança do ranking mundial e bater o recorde de semanas do mesmo Sampras no topo da hierarquia; a sua vitória expedita nos quartos-de-final permitiu-lhe atingir as 32ª meias-finais de um evento do Grand Slam e bater o recorde de Jimmy Connors. Mas terá pela frente o actual número um e campeão de Wimbledon, Novak Djokovic, que o derrotou em quatro das cinco meias-finais de torneios do Grand Slam que jogaram juntos nos últimos dois anos.

Se a realeza esteve presente em peso no Camarote Real nesta quarta-feira, prevê-se que na sexta-feira o nível nobiliárquico seja ainda mais elevado…

RESULTADOS DOS QUARTOS-DE-FINAL MASCULINOS:

Novak Djokovic (Sérvia, cs1) v. Florian Mayer (Alemanha, cs31), 6-4, 6-1, 6-4

Roger Federer (Suíça, cs3) v. Mikhail Youzhny (Rússia, cs26), 6-1, 6-2, 6-2

Andy Murray (Escócia, cs4) v. David Ferrer (Espanha, cs7), 6-7, 7-6, 6-4, 7-6

Jo-Wilfried Tsonga (França, cs5) v. Philip Kohlschreiber (Alemanha, cs27), 7-6, 4-6, 7-6, 6-2

QUINTA-FEIRA: MEIAS-FINAIS FEMININAS

Agnieszka Radwanska (Polónia, cs3)-Angelique Kerber (Alemanha, cs8)

Serena Williams (EUA, cs6)-Victoria Azarenka (Bielorrússia, cs2)

Enviado-especial do Correio da Manhã no Twitter: http://twitter.com/MiguelSeabra

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