Daúto Faquirá, treinador no desemprego depois da saída do Olhanense, diz que os dirigentes deviam apostar mais na sua própria formação. Defende que os treinadores precisam de tempo, que muitas vezes não lhes é dado, e deixa elogios a Vieira e Pinto da Costa por manterem a confiança nos seus técnicos
Correio Sport – Está há sensivelmente um mês sem treinar. O que tem feito neste interregno de tempo?
Daúto Faquirá – Aproveito para investir em formação contínua e para fazer estágios. No fundo, vou reciclando conhecimentos. Na vida de treinador, não escolhemos estar sem colocação.
- Que tipo de estágios?
- Estágios em clubes no estrangeiro. Vou a Inglaterra, à França e à Holanda.
- Em que clubes?
- Prefiro não revelar.
- Vai ao estrangeiro para se fixar lá como treinador?
- Não. O meu objectivo é assimilar hábitos de trabalho noutras culturas, pois hoje em dia o futebol está globalizado. Mas estou receptivo a trabalhar no estrangeiro. Quero sempre melhorar.
- Onde sente que pode melhorar?
- A intervenção como treinador pode ser sempre melhorada. Um treinador deve olhar para uma multidisciplinaridade de tarefas, desde o relacionamento interpessoal à parte técnica, passando pela componente psicológica. O meu propósito é sempre o de tornar melhores os jogadores com quem trabalho.
- E também melhora com os dirigentes?
- Tenho de ter a capacidade de lidar com todos os agentes que fazem parte do espectáculo. Prefiro dizer que os dirigentes são quem mais margem tem para evoluir. Era muito importante que os dirigentes investissem mais na sua formação.
- Os dirigentes têm dificuldade em gerir a relação com os treinadores ?
- Pela necessidade de mostrarem resultados, muitas vezes há factores que os dirigentes esquecem, como as dificuldades inerentes ao próprio jogo e as contingências. Quanto maior é a impreparação, mais os dirigentes escorregam na ‘casca da banana’. Mas escutar o pensamento dos dirigentes é um passo na construção da relação de confiança com os treinadores, sempre no princípio de respeito de um pelo outro.
- Foi isso que ditou a sua saída do Olhanense?
- Não quero falar do Olhanense.
- Já lançou muitos jogadores para a alta roda, nomeadamente Cissokho, que treinou no V. Setúbal, que chegou ao FC Porto e depois foi vendido para o Lyon por quinze milhões de euros. Como viu esta progressão?
- Com naturalidade. Fui buscá--lo a França, vi logo que tinha grandes qualidades físicas e técnicas e sabia que iria jogar num grande.
- Ele acabou no FC Porto, com Benfica e Sporting bem mais perto da cidade de Setúbal...
- É verdade. Alertei pessoas dos dois clubes para o valor do jogador quando me perguntaram sobre o Cissokho. O FC Porto antecipou-se, pois o Manchester United iria contratá-lo uma semana depois de ele ter ido para lá.
- Jardel (Benfica), Vinicius (Sp. Braga), Henrique (Sp. Braga), Tiago Gomes (Hércules), Fabiano, Salvador Agra e Wilson Eduardo também foram apostas suas. Como se sente por os valorizar?
- Obviamente satisfeito por ter contribuído para a evolução deles e por estarem em patamares mais elevados e com rendimento.
- Pereirinha esteve para ser treinado por si no Olhanense. Ficou com pena de não ter trabalhado com ele?
- Fiquei. A meu ver, teria sido melhor para o Pereirinha ir para o Olhanense do que ficar no Sporting. E ele queria ficar em Olhão. Há muito potencial para explorar no Pereirinha.
- Sente-se com capacidade para estar em patamares mais elevados, mais concretamente a treinar um dos grandes?
-Sinto. Acredito que vou chegar a um grande. Tenho tido um trajecto ascensional e tenho formação como treinador.
- Jorge Jesus e Vítor Pereira fizeram trajecto em equipas de pequena e média dimensão e hoje treinam Benfica e FC Porto. Isso fá-lo acreditar que lhes pode seguir os passos?
- São dois casos distintos, mas reveladores da aposta dos clubes, do tempo que os presidentes deram aos dois e do acerto que está a ser a aposta em ambos. Têm tido espaço e tempo para trabalharem. Mas sim, faz--me acreditar que é possível.
- Pinto da Costa é o presidente que mais estabilidade dá aos treinadores?
- Os exemplos estão aí. Pinto da Costa aprendeu o que não se deve fazer, não cede à tentação do que parece ser mais fácil, dá tempo e estabilidade aos treinadores, e os resultados aparecem.
- Despedir um treinador é dar um passo atrás?
- Depende do que se pretende. Há estudos que provam que a saída de um treinador não altera muito o curso desportivo de uma equipa. Muitas vezes a saída de um treinador serve é para aliviar a pressão sobre quem dirige.
- É mais fácil ser treinador actualmente tendo formação académica?
- Não ponho as coisas assim. A evolução só acontece com conhecimento. A minha convicção é a de que não é por se ter estudado que se é melhor treinador, mas a minha percepção é a de que se deve investir cada vez mais na formação. Leonardo Jardim, Rui Vitória, eu e Vítor Pereira temos formação académica superior, mas todos os outros da Primeira Liga também são bons treinadores e, no entanto, a sua formação profissional seguiu outra via. Jesus e Domingos são excelentes treinadores e não têm formação superior, mas não deixam de ser competentes.
- Domingos vive um momento delicado no Sporting. Acha que ele vai dar a volta?
- Acredito que sim. Domingos já deu muitas provas e, com o tempo, os resultados vão aparecer.
- Quem acha que vai ser campeão de Portugal?
- A discussão será entre o Benfica e o FC Porto. São as duas equipas mais fortes.
- Fala-se muito em projectos no futebol. Os projectos existem realmente?
- Não. O projecto é ganhar e não se compadece com tempo. E os treinadores acabam, invariavelmente, por ser as principais vítimas dessa falta de tempo.
- Sente-se um treinador obrigado a fazer muito com poucos recursos?
- Tenho de me integrar nas políticas desportivas do clube que treino e ajudar a desenvolver essas políticas. E isso tem passado por rentabilizar jogadores para gerar mais-valias aos clubes.
- A Liga portuguesa foi recentemente eleita a quarta melhor do Mundo. Essa classificação é condizente com a qualidade do nosso campeonato?
- Não. Isso teve a ver mais com os desempenhos de FC Porto e Sp. Braga na Europa na última temporada. Não me parece que o campeonato português esteja no quarto lugar a nível mundial. Por exemplo, em termos de assistências nos jogos e condições para adeptos, ainda estamos aquém.
PERFIL
Daúto Xaharmane Amade Faquirá nasceu a 26 de Dezembro de 1965 em Maputo (Moçambique). Tem 46 anos. Começou a carreira como treinador principal em 1997/1998 ao serviço do Sintrense, clube que representou como jogador. Depois, Daúto foi subindo a pulso na carreira, com passagens pelo Odivelas, Barreirense, Estoril Praia, Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal e Olhanense, de onde saiu em Dezembro do ano passado, afastado pelo presidente Isidoro Rodrigues. No currículo, tem subidas de divisão pelo Odivelas (à 2.ª divisão B) e Barreirense (2.ª Liga).
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