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Correio da Manhã

Desporto
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Diferenças postas à prova

Num contexto de final, com três pontos em jogo que podem fazer toda a diferença na classificação, as duas melhores equipas confrontam a imagem de poder e o reconhecimento da hegemonia que ambas reivindicam.
27 de Março de 2010 às 00:00
Cardozo
Cardozo FOTO: d.r.

O jogo desta noite na Luz serve de tira-teimas a alguns argumentos e análises empíricas a que o futebol português se tem sujeitado publicamente, à medida que se popularizaram os areópagos televisivos de comentário diletante. Há quem considere que o Sporting de Braga realizou o melhor campeonato, que tem o melhor futebol, até que dominou o campeonato ao longo de meses. Há quem duvide de forma metódica e permanente da consistência do Benfica e eleja mais um «jogo seguinte» como o do exame final que ainda lhe faltaria passar.

Os números, desde os mais óbvios (golos marcados e sofridos) às mais particulares estatísticas, mostram, pelo contrário, que o Benfica tem sido mais espectacular, mais produtivo e mais eficaz. O Braga foi sempre um adversário competitivo, venceu com autoridade e segurança o primeiro confronto entre ambos, mas teve mais dificuldades em mais jornadas. Quando começou a perder pontos e acabou por ceder a liderança, a seguir à 18.ª jornada, a curva descendente já se desenhava e esse desfecho não surpreendeu.

Ao invés, o Benfica manteve sempre um ritmo elevado de jogo, difícil de suportar pela maioria dos adversários domésticos e elogiado por vários treinadores adversários, não obstante o número de jogos ganhos tangencialmente ser agora bastante mais elevado do que a lembrança das goleadas da primeira volta poderá sugerir. O Benfica venceu sete partidas por quatro ou mais golos de diferença, mas também acabou uma meia dúzia com 1-0, o resultado mais visto neste campeonato.

É num contexto de desafio do título, com três pontos em jogo que podem fazer toda a diferença na classificação final, que as duas melhores equipas portuguesas confrontam igualmente a imagem de poder e o reconhecimento de uma hegemonia que ambas reivindicam. O Braga não só não pode perder, como arrisca deixar de ser vista como equipa poderosa e impositiva. A formação de Domingos Paciência não sofre a pressão das provas europeias e regista um desgaste, em número de jogos, muito menor que o seu adversário directo. Deve ter, por isso, despendido os últimos 15 dias a elaborar e preparar uma estratégia que possa surpreender o Benfica e manter viva a luta por este título.

Olha-se para os números, para as rotinas das equipas, e percebe-se onde o Braga pode procurar superioridade. Definitivamente, roubar a bola ao Benfica: as partidas em que sentiu maiores problemas em casa foram aquelas em que teve menos bola, em particular FC Porto (52%) e Belenenses (54%), ambos derrotados por 1-0, e Vitória de Guimarães (52%), batido por uma diferença enganadora (3-1).

Em segundo lugar, dominar a agressividade e a tensão que vão condicionar a partida, conseguindo baixar o ritmo através de um jogo faltoso em regiões avançadas, procurando a todo o custo manter os onze jogadores – pretensão que a maioria dos visitantes do Benfica, este ano, não satisfez.

São as diferenças, muito reais e substantivas, entre os dois candidatos ao título que vão estar frente a frente na Luz. Ao Benfica, além de manter a vantagem pontual, importa resolver a desvantagem directa trazida da única derrota, na Liga.

UM REMATE A CADA 5 MINUTOS

Ligeiramente abaixo do FC Porto em número de remates, o Benfica apresenta um ratio de eficácia traduzido em quase o dobro dos golos dos seus principais adversários. Em média, é um remate a cada cinco minutos de jogo jogado, com destaque para Cardozo, o maior artilheiro da Liga, quer em golos, quer em tentativas: um em cada quatro remates do ataque benfiquista é da autoria do paraguaio. O Sporting de Braga finaliza menos e não deixa de ser curiosa a verificação de que é Alan, um extremo sem grande evidência goleadora, quem mais finaliza na equipa de Domingos, à frente de Meyong e Paulo César, os homens que actuam mais perto da baliza. O Benfica é melhor no jogo aéreo, mas o Braga tem uma longa distância de referência – foi de Hugo Viana o único golo sofrido por Quim de fora da área.

 

DOMÍNIO TOTAL DA BOLA

Apenas uma equipa (Paços de Ferreira) conseguiu dominar o Benfica em posse de bola, nas 23 jornadas da Liga. O domínio benfiquista é esmagador, com uma média geral de 58%, graças a oito partidas em que foi superior a 60 %. A maior parte destes jogos foram disputados no Estádio da Luz, onde apenas o FC Porto e o Guimarães conseguiram não ser esmagados territorialmente (48 %). Em jogo jogado, o Braga tem idêntico tempo de posse (27 contra 28 minutos), mas percentualmente está apenas nos 53 %, com onze partidas em que foi dominado pelos adversários.

BENFICA CEDE MAIS CANTOS

Um dos raros itens em que o Benfica é, ilusoriamente, suplantado pelo Sporting de Braga. A defesa encarnada cede praticamente o dobro dos pontapés de canto, mas em plena segurança. Ao fim de quase 200 cantos, Quim não sofreu qualquer golo. Em contraste, o Braga sofreu três, um golo por cada 40 cantos.

BRAGA CONSENTE MAIS OCASIÕES

A pouco e pouco a equipa do Braga foi perdendo eficácia defensiva, a que não será estranha a ausência forçada de Vandinho, e é agora mais vulnerável que o Benfica. Os adversários Braga têm mais ocasiões de golo frente ao Braga do que contra o Benfica, numa proporção de 4 para 5. Mas, na segunda volta, essa relação é de 3 para 5.

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