Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
1

Domingos reencontra o passado

Durante duas décadas, Domingos foi um ídolo do FC Porto. Dos 13 aos 32, foram quase 20 anos de golos e de domingos felizes (e quartas, e sábados, e outros dias...) com a camisola do Dragão, aquela que o resgatou a uma infância complicada passada numa miserável casa de pedra no Bairro do Rodão, junto à refinaria de Leça, arredores do Porto.
20 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Domingos Paciência
Domingos Paciência FOTO: D.R.

Amanhã – um domingo... –, nenhum destes pensamentos deverá perturbar o objectivo primordial do agora treinador do Sporting de Braga na luta pelo título nacional: derrotar o clube que um dia lhe deu a mão, a fama, uma vida melhor, a glória. Nunca até agora o FC Porto terá tido, com tal expressão, a face do inimigo.

A paixão do jovem Domingos pelo futebol começou bem cedo. Filho de um pintor da construção civil que, por infortúnio de uma queda enquanto trabalhava teve de reformar-se cedo (pouco depois do seu nascimento), Domingos ficou com mais seis irmãos entregue ao sustento quase único da mãe, operária da indústria conserveira. A vida não era fácil e para que o pão não faltasse os extras não eram admitidos. Domingos sonhava com uma bicicleta mas esse era um luxo proibido. Um dia, já mais crescido, a mãe deu-lhe dinheiro para comprar umas sapatilhas. Com o bichinho do futebol a formigar-lhe no corpo, em vez dos ténis comprou, à revelia, umas chuteiras. “Andava com elas durante todo o dia”, disse uma vez.

 

As chuteiras acabaram por ser o passaporte para o salto da sua vida. Com elas nos pés já podia ir treinar ao Académico de Leça, deixando para trás as peladinhas de rua com bolas de plástico. Ali se tornou amigo quase inseparável do guarda-redes da equipa, o Vítor. O Vítor Baía. Um na baliza, o outro a marcar golos, depressa a fama de ambos chegou aos ouvidos de um olheiro do FC Porto. Um jogo terá chegado para fascinar o observador: aos 13 anos, Domingos tornou-se jogador do FC Porto. Foi viver para o centro de estágio do clube, pois os treinadores achavam-no demasiado magro e em casa não havia fundos para bifes.

 

Com idade de juvenil, ainda sem ganhar nada, os pais chamaram-no  a casa e quase o obrigaram a largar o futebol, com o pretexto de que precisavam de braços para ajudar a compor o parco orçamento familiar. Domingos pediu mais um ano. Mais uma decisão acertada: na época em que o FC Porto acabaria por se sagrar campeão europeu, 86/87, Domingos, então com 17 anos, era chamado por Artur Jorge para treinar com os seniores. Uns meses mais tarde, assinou o primeiro contrato de profissional, com o dinheiro do qual ‘vingou’ o sonho reprimido da bicicleta: comprou um Fiat Uno. Iria então acelerar para uma carreira brilhante no FC Porto, clube que representou como jogador até 2001. Amanhã, Domingos reencontra o clube da sua vida. Por enquanto – segundo alguns – ainda do outro lado do campo.

 

PALMARÉS NO FC PORTO

 

Campeonato Nacional (7 títulos)

(87/88, 89/90, 91/92, 92/93, 94/95, 95/96, 96/97)

 

Taça Portugal (3 vitórias)

(87/88, 90/91, 93/94)

Supertaça (4 vitórias)

(89/90, 90/91, 92/93, 93/94)

Registo no Campeonato

262 jogos/106 golos

 

Melhor marcador (1 vez)

95/96 (25 golos)

 

Competições europeias

52 jogos/10 golos

Internacionalizações - 34

(30 como jogador do FC Porto)

 

JESUALDO NO SENTIDO INVERSO

O jogo de amanhã à noite assinala ainda outro reencontro: o de Jesualdo Ferreira, treinador do FC Porto, com a equipa do Braga, onde cristalizou o estatuto que lhe permitiu merecer a confiança de Pinto da Costa. Na cidade dos arcebispos,  Jesualdo conseguiu dois quartos lugares e um quinto.

SAIBA MAIS

1997/98

‘Tapado’ pelo ‘furacão’ Jardel, Domingos assinou em 1997 pelo Tenerife (Espanha). Despediu-se do FC Porto em lágrimas, clube ao qual regressou passados dois anos, para terminar a carreira onde começara.

TÉCNICO NA EQUIPA B

Também a carreira como treinador está umbilicalmente ligada ao FC Porto. Domingos Paciência ‘debutou’ como técnico-adjunto na equipa B. Passou a técnico principal ao fim de três anos. Na Liga, estreou-se na U. Leiria, seguindo-se Académica e Braga.

25 GOLOS

Na temporada de 1995/96, Domingos contribuiu de forma decisiva para mais um título do FC Porto, ao apontar 25 golos em 29 jogos. Foi a última vez que um jogador português foi o melhor marcador do Campeonato.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)