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Correio da Manhã

Desporto
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Eduardo: O dono da baliza

Eduardo perdeu o pai com 11 anos e prometeu ser “grande” como Michel Preud’homme para dar “uma vida melhor” à mãe. Hoje é alvo de cobiça dos emblemas mais poderosos do Mundo.
3 de Julho de 2010 às 00:00
Guarda-redes conquistou no Mundial a admiração e o respeito dos adeptos portugueses
Guarda-redes conquistou no Mundial a admiração e o respeito dos adeptos portugueses FOTO: d.r.

Cidade do Cabo, 29 de Junho de 2010. As lágrimas de Eduardo corriam o Mundo e chocavam Portugal. A Selecção dizia "adeus" à África do Sul e o guarda-redes começava uma nova era. Porquê? Pela primeira vez, os portugueses glorificavam-no e prostravam-se a seus pés, num sinal de que o aceitaram, finalmente, como número um de Portugal.

Reflexos soberbos, elasticidade e um sentido posicional invulgares explicam o desempenho deste fora--de-série da Selecção, mas só em parte. O resto vem de uma personalidade moldada por uma infância trágica e por dificuldades de afirmação.

Os pais eram caseiros na Quinta das Andorinhas, em Mirandela. Já jogava futebol nas escolas do Mirandela quando o pai faleceu num acidente de viação. Então com 11 anos, seguia na carrinha acidentada. Dois dias depois, estava a jogar futebol e prometeu ao treinador que ia ser "grande" como Michel Preud’homme, para "dar uma vida feliz" à mãe. Rochinha, seu treinador nos infantis do Mirandela, diz que " não mostrava em campo os problemas que vivia fora dele. Era compenetradíssimo e educado. Notava-se que ia fazer tudo para cumprir os seus sonhos".

Assim saiu Eduardo de Mirandela. Tinha 14 anos e sonhos. Deixou mãe e irmãos, que emigraram para o Luxemburgo. Foi rejeitado nas captações de Sporting e FC Porto, esteve dois anos no V. Guimarães e transferiu-se para os juvenis do Sp. Braga. Quando recebeu o primeiro salário, trouxe a mãe. Comprou-lhe casa perto da vivenda de luxo que partilha com a atleta olímpica Jessica Augusto. Conheceu-a no 10º ano do liceu. Foi a primeira e única namorada. Vivem juntos há sete anos e é Eduardo quem cozinha. Filhos e casamento só depois dos Jogos Olímpicos de 2012. Há aliança de noivado desde 2008, mas não usam, porque Jessica emagreceu e deixou de lhe servir.

O treinador de guarda-redes do Sp. Braga, Jorge Vital, diz que Eduardo "é reservado", mas "explode em competição". "Vira um monstro. Expande ali os seus sentimentos", explica. Os colegas do Sp. Braga dizem, entre risos, que "é o gajo mais certinho do balneário".

SEMPRE NA AGENDA DE CARVALHAL

Se Carlos Carvalhal tivesse continuado no Sporting, os leões estariam agora a contratar Eduardo. É que o guarda-redes está sempre na agenda do técnico. A ligação entre ambos é quase visceral, pois apostou nele quando o Sporting de Braga o mantinha emprestado ou na equipa B, à sombra de Quim e de Paulo Santos. Eduardo estreou-se na liga principal aos 24 anos. Carvalhal levou-o para o Beira-Mar e para o Vitória de Setúbal, onde brilhou.

TÉCNICA REFINADA PELA CHUVA

"Sem as suas defesas acrobáticas, a Espanha teria ganho por vários golos", escreveu o ‘New York Times’. "Eduardo impressionou-me", elogiou Júlio César, famoso guarda-redes do Brasil. O que poucos sabem é que a técnica de Eduardo foi refinada pela chuva intensa que cai no Minho. Em vez de segurar a bola, afasta--a quase sempre para longe com socos fortes. Tudo para não escorregar das mãos. "Não gosto de inventar [risos]. Mas acho que as pessoas preferem um guarda-redes que agarre", disse ao CM.

FÃ DE FADO, CANTOU COM ANA MOURA

Os amigos mais próximos estranharam o modo repentino como subiu ao palco do Theatro Circo, em Braga, durante um espectáculo da fadista Ana Moura, no passado dia 5 de Fevereiro. Venceu a timidez e o ‘low profile’ que o caracterizam e ofereceu-se para cantar ‘Búzios’ com a cantora. Resultado: uma plateia ao rubro e um balneário a falar dos dotes vocais de Eduardo durante mais de uma semana. "Dificilmente me apanham noutra", comentou junto dos colegas do Sporting de Braga, dizendo que foi "picado" para ir ao palco pela namorada Jessica Augusto e os amigos. O amigo de todas as horas, com quem sai e se diverte nas folgas do futebol, é Filipe Gonçalves, jogador do Trofense e ex-colega no Sporting de Braga e no Vitória de Setúbal.

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