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Em 1991, o Benfica e o FC Porto viviam de costas voltadas. As direcções eram inimigas, o ambiente entre os clubes, tenso e a desconfiança na arbitragem, muita. Como hoje. Em 1991, as duas equipas encontravam-se em plena guerra de pontos – o Benfica entrou nas Antas com um ponto de avanço.
Hoje, catroze anos depois, as equipas encontram-se empatadas no primeiro lugar, o jogo não é decisivo para a conquista do título, como na altura, mas as duas sabem que a derrota será um entrave à conquista do objectivo.
Em 1991 jogou-se nas Antas o jogo mais quente dos últimos catorze anos, que o Benfica ganhou com dois golos de César Brito. Foi no tempo do guarda Abel, figura que, curiosamente, reapareceu esta época no estádio da Luz. O CM ouviu os principais protagonistas de há catorze anos que contam como foi aquele jogo e falam do que aí vem.
No início da década de 9O, o Benfica acusava o FC Porto e a poderosa AF Porto liderada por Adriano Pinto de controlarem a arbitragem. Quem vencesse o jogo de 91 era, praticamente, campeão nacional. Calhou a Carlos Valente – nome mal visto nas Antas – a arbitragem do desafio. E calharam-lhe também agressões várias e uma, em particular: uma estalada oferecida pela mulher de Reinaldo Teles, actual administrador da SAD portista. Na véspera do encontro, o FC Porto acusou o árbitro de ter viajado para o Porto com a equipa benfiquista, acrescentando um ponto à tensão: o autocarro dos ‘encarnados’ é recebido à pedrada, nas Antas, e pelo guarda Abel, figura que Gaspar Ramos, chefe do departamento de futebol do Benfica, considerava “o chefe da guarda pretoriana do presidente portista”. Gaspar Ramos conta: “Nos balneários havia um cheiro nauseabundo, os jogadores equiparam-se no corredor, Eriksson não pode fazer a palestra”. Toni, adjunto do sueco, diz hoje que não quer lembrar “o lado mau do encontro, apenas que o Benfica ganhou”.
Na superior sul, o cartaz: “ Ides sofrer como cães”; cá em baixo, a relva encharcada. De acordo com Gaspar Ramos “para secar Valdo”, no entendimento de hoje de Artur Jorge “porque era normal”. “O FC Porto fazia sempre isso”, frisa o actual seleccionador dos Camarões, técnico do FC Porto em 1991. Versão que Guilherme Aguiar, na altura vice-presidente portista, corrobora: “Fazíamos isso para o jogo ganhar velocidade”. Semedo, um dos protagonistas, no campo, explica a derrota: “Vivemos esse jogo com grande ansiedade. Sabíamos que precisavamos de ganhar e a tensão tomou conta da equipa e esse facto teve um papel decisivo na derrota do FC Porto”. Depois do segundo golo, “ entregámos os pontos”, diz, recordando esse lance como aquele que mais o marcou. Outro derrotado, Jorge Couto, dá um conselho para o jogo de segunda-feira: “Vai ser difícil e equilibrado e o que posso dizer aos jogadores do FC Porto é que assumam o jogo, empurrem o Benfica para trás e nunca percam a concentração”. Artur Jorge não gosta de previsões: “Neste tipo de jogo tudo pode acontecer. Estão em campo duas equipas com os mesmos objectivos. No entanto penso que o FC Porto tem favoritismo porque joga em casa”.
De regresso a 1991, no final do jogo os benfiquistas “passaram por um inferno”, conta Gaspar Ramos. E mais: “No túnel, assisti com Bernardo Vasconcelos a várias agressões a Carlos Valente feitas por adeptos que ali estavam. Octávio Machado veio direito a mim dizer que o FC Porto tinha sido roubado e atribuindo-me a culpa do que estava a acontecer. Sei que nesse dia corri risco de vida”.
José Guilherme Aguiar também se lembra desses momentos: “Naquela altura não existiam barreiras entre os adeptos e os balneários e quando a massa associativa reconheceu os dirigentes do Benfica começaram a atirar pedras”. Foi ele quem “salvou” Jorge de Brito e foi considerado, pelos benfiquistas, como o dirigente portista mais esforçado na protecção à comitiva ‘encarnada’: “Peguei em Jorge de Brito, literalmente, e meti-o numa ambulância que ali estava enquanto Fezas Vital, aos gritos, atraía cada vez mais a raiva dos adeptos”. De acordo com o ex-vice-presidente de Pinto da Costa “não houve uma acção concertada nem o guarda Abel fez distúrbios, limitando-se apenas a impedir a entrada em determinado sector”. Para o jogo de 2005, Guilherme Aguiar está confiante: “ Por muita tensão que haja, com os actuais estádios é impossível tal acontecer”. E dá um conselho aos portistas: “Não deves responder a provocações. Devemos lembrar-nos que Veiga foi um adepto incondicional do FC Porto e é assim que o devemos receber no Dragão”. Respostas, “só no campo, dadas pelos jogadores portistas”. Gaspar Ramos também acredita que os tempos mudaram: “À entrada do estádio é provável que se verifiquem provocações, mas lá dentro as condições são outras. Há câmaras e delegados e hoje o FC Porto não tem a guarda pretoriana”. E dá a táctica: “O Benfica não deve provocar nem responder a provocações. Quando o fizeram baixaram o nível e saíram-se mal. Veiga não tem tradição benfiquista nem muita moral para atacar Pinto da Costa”. Toni deixa o repto: “Espero que não se inflame o ambiente. Já basta o que se passou em 1991”.
O GUARDA ABEL QUE AMEAÇOU JOÃO SANTOS
O guarda Abel foi uma personagem muito conhecida no já destruído Estádio da Antas. Era agente da PSP e nas suas folgas, tanto quanto se sabe, ajudava no sistema de segurança que o clube montava em dias de jogos. No dia desse encontro com o Benfica em 1991, o guarda Abel terá tido problemas com Manuel Barbosa, o empresário de jogadores que estava então muito ligado ao Benfica (Mozer, Valdo).
Mas uns dias depois, numa tomada de posse da direcção do Salgueiros, no Orfeão do Porto, Abel ameaçou o presidente ‘encarnado’, o recentemente falecido João Santos: “Aqui ou em Lisboa, hei-de matá-lo”, contaram os jornais da altura. Pinto da Costa, apercebendo-se da situação delicada, acalmou-o. João Santos diria depois: “Esse senhor [guarda Abel], um verdadeiro arruaceiro, protagonizou desacatos e desmandos, nas instalações das Antas, antes do FC Porto-Benfica. Não sei se tem protecção de alguém, mas impediu os nossos dirigentes de acederem à cabina do Benfica no final do jogo, dizendo que estava a cumprir ordens de Pinto da Costa”, acusando ainda a polícia fardada, onde Abel estaria incluído, de ter pontapeado dirigentes ‘encarnados’.
Hoje, Abel está reformado da PSP e é treinador do Passarinhos da Ribeira, do Campeonato de Amadores do Porto. Reapareceu ao lado de Carolina Salgado e no meio dos SuperDragões, no Estádio da Luz, no jogo da primeira volta.
CÉSAR BRITO: TÍNHAMOS SUPER-EQUIPA
Já teve um restaurante e uma loja de desporto. Neste momento tem apenas “umas ideias” mas nenhuma delas relacionada com o futebol. César Brito está afastado do meio e, por isso, gosta de lembrar aquele domingo de 1991, e os dois golos que marcou nas Antas. O avançado entrou em campo ao minuto 81 para substituir Pacheco e, em dez minutos, resolveu o assunto. “O primeiro golo”, conta, “resultou de um cruzamento excelente de Paneira, do lado direito,e limitei-me a cabecear”. Até aí, “era um jogo de tudo ou nada, que caminhava para o empate”. Lembra-se dos “muitos benfiquistas” que estavam no estádio rival e “da relva encharcada”. Que, pelos vistos, não anulou a “ mestria de Valdo”, no segundo golo: “O Valdo faz um passe em profundidade, ganhou velocidade e marcou a Baía”. Há onze anos que o Benfica não ganha nas Antas: “Agora é um jogo importante mas não tão decisivo. Para ganhar ao FC Porto, o Benfica tem de fazer muito mais do que tem feito”. E mais: “Não vamos comparar esta equipa com a de 1991. Essa ganhava campeonatos e taças, era uma super-equipa”. Não acredita que a violência se repita e dá um conselho aos ‘encarnados’: “Jogar muito rápido, com força e confiança”.
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