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"Espanha não foi superior a Portugal"

Fernando Santos faz um balanço positivo da participação da Grécia no Europeu e elogia a prestação da equipa de Paulo Bento. Critica Platini e analisa a crise que aflige gregos e portugueses
30 de Junho de 2012 às 15:00
entrevista, fernando santos, treinador, seleccionador, grécia
entrevista, fernando santos, treinador, seleccionador, grécia FOTO: Jacek Turczyk/Epa
Correio Sport - Que balanço faz da prestação da Grécia no Euro'2012?

Fernando Santos - Se excluirmos o Euro'2004, a participação da Grécia em provas de selecções tem estado limitada à primeira fase. Sinto-me satisfeito pelo que fizemos e por termos mostrado, na fase de grupos, que somos uma equipa estruturada e com ambição.

- Chegou a acreditar nas meias-finais?

- Esperava ir mais longe, mas não foi possível porque a Alemanha foi mais confiante do que nós, embora tenha mostrado nesse jogo que não era uma máquina infalível. Importante é a imagem boa que deixámos e, sobretudo, o orgulho que o povo grego sentiu em relação à nossa prestação.

- E assim se mantém como herói nacional na Grécia.

- Heróis só há na guerra (risos). Sou uma pessoa respeitada, só isso.

- Ser eleito o treinador da década num país estrangeiro não é para qualquer um...

- É uma distinção que aconteceu há dois anos. Depois de 11 anos ligado ao futebol grego, é gratificante saber que apreciam o nosso profissionalismo. Levo o meu trabalho muito a sério e isso transparece, felizmente.

- O Alemanha-Grécia foi mais do que um jogo para muitos gregos. Usou a crise para motivar a sua equipa?

- Não podia falar de Angela Merkel e de crise na palestra que precedeu o jogo. Pelo contrário, tentei garantir a imunidade dos meus jogadores a essa ‘guerra', alimentada sobretudo pela imprensa. Aquilo era só um jogo de futebol e não podia ser encarado como solução ou escape para os problemas económicos de um país. Seria ridículo misturar as coisas.

- O que mais o surpreendeu no Europeu?

- Grandes surpresas não posso dizer que tenha havido. Houve grandes jogos em termos tácticos, mas confesso que poucos me encheram as medidas em matéria de espectáculo. As favoritas Espanha e Alemanha chegaram às meias-finais e, a partir daí, qualquer uma poderia passar. Portugal fez um campeonato muito bom, essencialmente por se ter destacado, com classe, no ‘grupo da morte'. Ronaldo brilhou, como vários colegas. Não vale a pena individualizar. A Grécia alcançou o seu objectivo e também mostrou estofo de vencedora, sobrevivendo num grupo complicado e combatendo a descrença de quem nos via como selecção menor. Gostei particularmente da selecção da Croácia: bom futebol, organização e atitude. Podia ter ido mais longe, a meu ver.

- Que leitura faz da eliminação de Portugal?

- Um jogo tacticamente impressionante e muito equilibrado. Não acho que a Espanha tenha sido superior a Portugal. Faltou-nos a sorte nos penáltis. Há muito tempo que a selecção espanhola não passava por tantos apuros num jogo.

- O que achou das polémicas declarações de Michel Platini sobre a final do Europeu?

- Uma falta de bom senso inacreditável. A UEFA não devia permitir prognósticos por parte de um responsável tão importante, como é o caso do presidente [Michel Platini]. Se fosse outra figura, por exemplo associada à arbitragem, que apostasse em duas equipas para a final seria banida. Não lhe ficou nada bem e foi uma falta de respeito pelas outras selecções.

- O que se segue para si?

- Selecção grega mais selecção grega. Não penso além disso, até porque tenho contrato até 2014. O objectivo é marcar presença no Mundial do Brasil e continuar a projectar a equipa a nível internacional.


- Domina a língua grega?

- Falo quanto baste. Só os gregos são fluentes.

- Como é que faz nas palestras?

- Nas mais longas tenho a ajuda de um assistente que fala grego e português.

- Já incutiu nos seus jogadores algum tique ou hábito tipicamente português?

- Eles percebem muitas palavras portuguesas, até sabem o que vou dizer pelas minhas expressões. Quando digo "é para ganhar", compreendem logo.

- Já aprendeu a dança tradicional grega que se via nos filmes antigos do Anthony Quinn?

- Nunca dancei na minha vida e ia para a Grécia dançar como o Zorba? Era o que faltava. Ainda não sei dançar nem vou aprender. Há casas próprias onde se ouve música tradicional. Não tenho o hábito de as frequentar.

- E a bebida grega tradicional, o ouzo?

- Não bebo bagaço. É parecido.

- Leonardo Jardim, Manuel Machado, Jesualdo Ferreira. Porque é que os gregos estão a apostar tanto nos técnicos portugueses?

- Não será só pelo meu trabalho, embora reconheça que tenha peso. Têm influência, também, os feitos do José Mourinho, neste momento o melhor do Mundo, os do Manuel José, os de vários portugueses que dão cartas como treinadores em níveis muito altos.

- A Grécia está de pernas para o ar como se vê no telejornal?

- Está mergulhada na crise, como estão Portugal e Espanha e como estarão outros dentro de meses ou semanas. Mas há três meses que não há manifestações e posso garantir que não há clima de guerrilha nas ruas de Atenas. Faço uma vida tranquila. Eu e dez milhões de gregos.

- Como é que acompanha à distância a situação económica de Portugal?

- Com alguma preocupação, por causa de familiares e amigos.

- Tem negócios em Portugal?

- Sou treinador a tempo inteiro.

- Luís Figo disse que ia vender tudo o que tem no país porque paga muitos impostos. O que tem a dizer sobre isso?

- É impossível pronunciar-me sobre as declarações do Luís Figo sem conhecer o contexto em que as proferiu. Quanto a mim, só posso dizer que não tenciono vender nada.

PERFIL

Fernando Manuel Costa Santos nasceu a 10 de Outubro de 1954 (57 anos), em Lisboa, e iniciou a carreira de futebolista no Benfica. Representou o Marítimo e o Estoril, assumindo o comando deste clube em 1987/88. Depois de orientar o E. Amadora, atraiu a atenção de vários clubes e chegou ao FC Porto em 1998, onde conquistou o famoso pentacampeonato, passando a ser conhecido como ‘engenheiro do penta'. Passou depois por AEK, Panathinaikos e Sporting, antes de chegar ao Benfica. Voltou à Grécia para treinar o PAOK e assumiu em 2010 o leme da selecção helénica, onde se mantém até hoje.

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