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Correio da Manhã

Desporto
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Estou no momento mais alto da carreira e no desemprego

Um caso ‘sui generis’. João Ricardo, guardião da Selecção de Angola com presença garantida no Mundial, está sem clube. Tudo porque se recusa a aceitar propostas ao desbarato e a ir para a baliza só pela vaidade de dizer que é jogador de futebol.
11 de Outubro de 2005 às 00:00
- Correio da Manhã – Como está a viver a consumação do apuramento de Angola para a fase final do Mundial?
João Ricardo – É um momento único. Uma alegria talvez só comparável a ser campeão nacional num grande clube, mas como isso não sei o que é, digo é que muito melhor que evitar uma descida de divisão. E isso sei o que é. [risos]
- Contudo, você não tem clube, o que faz de si um caso ‘sui generis’: Jogador ‘pré-convocado’ para um Mundial, mas desempregado. Como é que isso acontece?
- Após sair do Moreirense recebi algumas propostas, mas nenhuma me agradou. Como não gosto de estar a jogar só pela vaidade de dizer que sou jogador de futebol, fiquei nesta situação.
- Eram propostas de clubes da primeira Liga?
- Infelizmente não, por isso também tomei esta opção.
- Mas sente que, aos 35 anos, ainda tem mercado na primeira Liga?
Sinceramente sim. Mas o futebol português é fértil em situações estranhas, interesses obscuros...
- De que está a falar?
- Olhe, esta época chegaram para clubes da primeira Liga cinco guarda-redes brasileiros. Não coloco o valor deles em causa, mas...
- Você não tem empresário?
- Não, não tenho. Se calhar é por causa disso, não tenho quem venda o meu produto...
- Acha que a sua idade pode ter algo a ver com a situação?
- Sinto-me melhor que nunca. E de resto há grandes guarda-redes na primeira Liga com a minha idade, ou lá perto, como o Vítor Baía, o Marco Aurélio, o Paulo Jorge, do Gil Vicente.
- Está desencantado com o futebol?
- Não posso estar. É verdade que estou desempregado, mas estou a viver o momento mais alto da minha carreira, ao mesmo tempo. É irónico mas é verdade. Sinto-me até um privilegiado. Quanto ao resto... os clubes tomam as suas opções e temos de viver com isso.
- Encontra na selecção de Angola um espaço de reconforto?
- Sim, têm sido todos excepcionais comigo. Para além do apoio da família e dos amigos, os colegas da selecção têm-me incentivado imenso.
- O treinador dá-lhe uma prova de confiança ainda maior: convoca-o sem estar a jogar num clube...
- É verdade, ele é o grande responsável por tudo isto. Quando começaram os jogos decisivos do apuramento nós falámos e eu disse-lhe que talvez não fosse bom eu ser titular, visto não estar a jogar. Ele convenceu-me a mudar de opinião. Hoje agradeço-lhe por ter insistido comigo, pois eu não queria jogar.
- Já deu por si a pensar no Mundial? Estar lá, naqueles estádios, com aquele ambiente?
- Já, é verdade que já pensei nisso até já falei nisso com um tio meu, aqui em Angola. Já me imaginei no jogo de abertura do Mundial... até me arrepio.
- Até onde pode Angola chegar na Alemanha?
– O sonho não tem limites. Quando o apuramento começou havia duas equipas destinadas a discutir um lugar na Alemanha: a Nigéria e a Argélia. Os apurados fomos nós e agora tudo é possível.
'A FESTA? SÓ ESTANDO CÁ A VER'
A recepção do povo angolano aos seus heróis foi algo nunca visto no jovem país de 30 anos. Ricardo diz não ter palavras para descrever as emoções vividas nas últimas horas.
“Não dá para contar, só estando cá para ver. Eu já tinha visto algo parecido quando Angola conquistou o oitavo título africano de basquetebol, mas isto supera tudo. As pessoas são muitos carinhosas, andam connosco ao colo, é muito emocionante.” Agora, a vida continua. João Ricardo regressa a Portugal dentro de dias. Um regresso também aos treinos junto com a equipa do Portomosense e aos negócios da empresa de comércio de madeiras exóticas, de que é sócio com o pai e o irmão.
PERFIL
João Ricardo Santos Ferreira nasceu em Luanda há 35 anos. Na principal divisão do futebol nacional alinhou pelo Salgueiros e, depois, pelo Moreirense, clube a que esteve ligado contratualmente durante três temporadas. O vínculo com a formação minhota terminou no mesmo ano em que esta caiu na Liga de Honra. João Ricardo passou para o desemprego e não conseguiu clube antes do fecho das inscrições. Contudo, não perdeu a titularidade na selecção angolana. Agora, vai ao Mundial.
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