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Correio da Manhã

Desporto

Federer é mesmo fabuloso

O ‘Teatro dos Sonhos’ fica em Inglaterra mas não propriamente no estádio de Old Trafford em Manchester – fica em Wimbledon. Um ano depois da já lendária final entre Rafael Nadal e Roger Federer que passou à posteridade como o melhor duelo tenístico de todos os tempos, o vetusto Centre Court voltou a proporcionar uma dramática cimeira em cinco actos que se tornou na final com o set decisivo mais longo na história do Grand Slam: Roger Federer recuperou o ceptro ao bater Andy Roddick por 5-7, 7-6 (8/6), 7-6(7/5), 3-6 e… 16-14, ao cabo de 4h18m de grande intensidade!
6 de Julho de 2009 às 00:30
Após a última pancada de um longo jogo, Federer ainda teve força para festejar a vitória
Após a última pancada de um longo jogo, Federer ainda teve força para festejar a vitória FOTO: Stefan Wermuth/Reuters

Foi uma final épica que teve uma consequência de significado ainda mais histórico do que o inédito resultado da quinta partida: é que o sexto título de Federer em sete finais consecutivas em Wimbledon (um recorde), alcançado na sua 20º final de um torneio do Grand Slam (outro recorde), permitiu-lhe chegar ao 15º título do Grand Slam (o recorde dos recordes) e deixar definitivamente para trás Pete Sampras – o americano com quem partilhava a anterior melhor marca (14) desde o êxito em Roland Garros, há um mês, e que viajou de Los Angeles para marcar presença no camarote real. O milhão de euros pelo triunfo representa apenas mais uns trocados na gorda conta bancária do helvético (tens uns 55 milhões em ganhos oficiais e muitos mais em patrocínios) e o seu regresso ao primeiro lugar do ranking mundial acabou por ser apenas mais um bónus…

O facto de a enorme proeza ter sido particularmente sofrida num encontro de resolução indefinida até ao último instante valorizou-a ainda mais. Roddick jogou como nunca… mas acabou por perder como (quase) sempre: foi o seu quarto desaire diante de Federer em finais do Grand Slam (o terceiro em Wimbledon, após os de 2004 e 2005; um no US Open em 2006), e a 19ª derrota em 21 encontros. Apropriadamente, o código postal de Wimbledon é… SW19.

OS CINCO ACTOS DA FINAL

À partida para uma final que se adivinhava como um duelo de serviços com poucos breaks, considerei um dado estatístico como determinante: nas suas anteriores 19 finais de torneios do Grand Slam, Roger Federer havia ganho 16 tie-breaks e perdido apenas 3… todos eles para Rafael Nadal, o único a bater o suíço nas principais cimeiras. E, apesar de Andy Roddick ter chegado à final com 25 tie-breaks ganhos e apenas 4 perdidos na presente temporada, acabou mesmo por ceder dois cruciais desempates…

1.     O encontro começou com o norte-americano a servir – bombas a uma média de 210 km/h, como sempre. Aos 2-1 para Roddick, Pete Sampras (7 títulos de Wimbledon num total de 14 do Grand Slam) surgiu no camarote real e foi saudado pelos cerca de 16 mil espectadores – tal como Roger Federer, que lhe fez sinal: «Achei rude não o cumprimentar», confessou o suíço, que acusou essa presença solene na primeira fila da bancada de honra, ao lado de outros enormes campeões como Bjorn Borg (5 em Wimbledon, 11 no Grand Slam) e Rod Laver (4 em Wimbledon, mas o único a conseguir completar o Grand Slam no mesmo ano em duas ocasiões). Aos 5-5, Roddick salvou os primeiros break-points da final (quatro) para fazer o 6-5 com muita dificuldade e logo a seguir, no seu primeiro ponto de break, consegue mesmo adjudicar o set. Pormenor táctico importante: Roddick aprendeu a não cair tanto no engodo das bolas curtas e cruzadas para a sua esquerda – e, em vez de as devolver cruzadas, atacou-as ao longo da linha.

2.     No segundo set os servidores fizeram valer a qualidade dos respectivos saques de maneira mais autoritária; não houve qualquer break-point e surgiu o aguardado tie-break que acabou por não acontecer na primeira partida. No desempate, o americano chegou à vantagem de 6-2 – com quatro set-points consecutivos! Mas não aproveitou nenhum: logo no primeiro, e numa bola alta que iria seguramente flutuar para fora, enviou um desastrado vólei alto de esquerda para fora. Federer elevou então o seu nível de jogo e alinhou mais cinco pontos consecutivos que lhe permitiram resgatar o tie-break e colocar a final em um set para cada lado.

3.     Na terceira partida o cenário foi praticamente semelhante, com a diferença que Roger começou a servir e Andy teve de salvar o único ponto de break verificado; o set desembocou em mais um tie-break, com Federer a controlar desde o início para chegar aos 5-1 e a revelar-se suficientemente autoritário na gestão da liderança.

4.     No quarto set, Roddick começou a servir e continuou sempre muito agressivo e consistente com a sua direita perante alguma passividade do adversário; conseguiu algumas esquerdas paralelas milagrosas e fez o break aos 2-1 para chegar aos 4-1 e gerir a vantagem até aos 6-3. O público exultava: pelo terceiro ano consecutivo ia ver uma final individual masculina em Wimbledon decidida na quinta partida. E o melhor estava para vir…

5.     Em Wimbledon não há tie-break no último set e foi extremamente importante para Federer ter sido ele o primeiro a servir, forçando Roddick a correr atrás do marcador. Logo a 1-0, o suíço teve um ponto de break que não aproveitou. A partir daí serviram ambos de maneira imperial até que, a 8-8, Roger esteve a perder por 15/40 no serviço, mas salvou os dois break-points numa sucessão de quatro pontos consecutivos. Apesar do percalço, Roger continuou a servir magistralmente e chegou aos 50 ases, um seu recorde pessoal e perto dos 55 de Ivo Karlovic que constituem recorde absoluto no circuito; mas continuava com dificuldades em responder convenientemente ao portentoso saque de Andy, que “só” fez 27 ases mas que alinhou 98 serviços não devolvidos (contra 89), forçando o antagonista a muitos erros na resposta. Com o desfilar dos jogos e sempre sob pressão de ter de ganhar o seu jogo de serviço para não perder o encontro, Federer esteve por nove vezes a dois pontos da vitória e Roddick começava a dar sinais de menor eficácia: menor percentagem de primeiros serviços, um pouco menos coordenado na movimentação, mais esquerdas falhadas, a acertar mais na bola com a armação da raqueta do que com a encordoação. E, com o resultado em 14-15, após 4h18m e ao sétimo break-point que enfrentou, lá sofreu finalmente o primeiro break e, consequentemente, a derrota que lhe custou o título ao enviar uma bola para fora.

GRÁVIDA E GLADIADOR

Enquanto Federer comemorava aos saltos (ele, que costuma ajoelhar-se e deitar-se no court), a mulher de Federer, Mirka Vavrinek, suspirava de alívio no camarote dos jogadores. Grávida de oito meses, num dia de calor e perante tamanha tensão, poderia ter dado à luz precocemente – em vez disso, ficou iluminada com mais uma fabulosa prestação do seu fabuloso marido... que não jogou tão bem como noutras ocasiões, mas aguentou-se, teve momentos sublimes e saiu com o almejado recorde. Federer não subiu tanto à rede como devia, falhou algumas direitas (mas conseguiu muitas fabulosas…) e a sua esquerda cortada não se revelou tão eficaz para contrariar Roddick como habitualmente, mas o suíço foi sempre mais fluído e felino perante a força bruta do americano. Uma final de gladiadores testemunhada in loco por… Russel Crowe, o actor de “Gladiador”.

TESTEMUNHOS

Na cerimónia da entrega de prémios e após receber o troféu das mãos do Duque de Kent, Federer teve uma palavra de ânimo para com o infeliz Roddiick: «Não fiques muito triste, mas também perdi aqui uma final dura com o Nadal o ano passado»; o espirituoso americano ripostou de imediato, para gargalhada geral: «Sim, mas tu já tinhas ganho cinco!». Depois, foi a passagem à sala de conferências de imprensa.

Primeiro Roddick, completamente abananado. Teve tempo de agradecer o apelo do público, ainda no court e antes da entrega dos troféus, quando os espectadores gritaram pelo seu nome e o fizeram levantar da cadeira para lhe oferecer uma tremenda ovação: «Foi bonito, mostra o quanto apreciaram o que fizemos». Ainda disse que sentiu que Federer «pela primeira vez estava com problemas em antecipar o meu serviço» e que «isso nem sequer pareceu frustrá-lo», que «ele é elogiado por muitas coisas mas nem sempre pelas vezes em que luta porque nele tudo parece fácil». Balbuciou mais algumas coisas, inconsolável, até que um veterano jornalista americano, Bud Collins, resolveu acabar com a tortura: «Libertemos este homem. Muito bem, Andy». Roddick agradeceu, e despediu-se. Seguramente que irá passar uma má noite, depois de a sua mulher Brooklyn Decker, uma manequim de fatos-de-banho, ter confessado que têm dormido no chão – mas confortavelmente – porque o colchão da casa que alugaram em Wimbledon era mole demais…

DEPOIS VEIO FEDERER:

«Foi difícil, porque o Andy estava a jogar incrivelmente. Sei o que é jogar um quinto set numa final de Wimbledon, mas foi diferente – nos dois últimos anos, com o Rafa, jogou-se mais no fundo do court; hoje foi mais um jogo de serviço e resposta ao serviço, que é um jogo mais tradicional nos courts de relva. Foi frustrante porque só consegui quebrar-lhe o serviço mesmo no fim e daí talvez a satisfacção seja maior desta vez, porque não consegui controlar o jogo. Tive de jogar o meu melhor para sobreviver»

«Ganhar o 15º título e quebrar o recorde aqui em Wimbledon, precisamente no local do meu primeiro título do Grand Slam e no torneio onde costumava ver os meus ídolos jogarem finais e ganhar. Foi como que um círculo que se fechou»

«Foi muito especial a presença do Pete Sampras. Quando ele entrou e o vi pela primeira vez no camarote real, fiquei um pouco mais nervoso. Só tinha tido a confirmação de que viria ontem, mas há muito que ele me tinha prometido vir assistir à quebra do recorde»

«Estou contente por ter voltado a ser número um mundial por ganhar o torneio, não apenas pela ausência do Nadal. Gostaria que ele tivesse jogado Wimbledon e não é justo que não pudesse ter essa possibilidade por estar lesionado»

Mais uma vez, no mítico Centre Court, se viu o verdadeiro esplendor na relva. E a 123ª edição de Wimbledon ficou concluída com outro recorde: 511.043 espectadores ao longo de uma quinzena particularmente quente e ensolarada que forçou ao fecho do novo tecto movível de 100 milhões de euros numa única ocasião!

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