Ao fim de 16 anos na liderança do futebol nacional, Gilberto Madaíl deixou o cargo. O ex-presidente da FPF diz sair com a consciência de ter deixado trabalho feito, apesar de reconhecer que subsistem “pequenas frustrações”. Recorda os feitos mais marcantes dos seus mandatos, destaca os momentos mais complicados e explica as razões por que encara o futuro com optimismo.
Correio Sport – Com que sensação deixou a presidência da Federação Portuguesa de Futebol (FPF)?
Gilberto Madaíl – Com a sensação de ter deixado trabalho feito. É claro que sinto algumas saudades de jogadores e pessoas com quem me relacionei ao longo de 16 anos.
- Como avalia o facto de ser o presidente que mais vezes levou Portugal a grandes competições?
- Não posso falar por mim, terão de ser os críticos e a Comunicação Social a julgar a minha obra.
- Antes do seu mandato era difícil assegurar os apuramentos. Qual foi o segredo da mudança?
- Foi termos produzido jovens futebolistas de grande valor. E, depois, ter criado condições de logística e humanas que muito ajudaram.
- Acredita que a nova direcção vai saber dar continuidade ao seu trabalho?
- Fernando Gomes é uma pessoa muito competente. Ele saberá dar o seu melhor, da mesma forma que o fiz no meu mandato.
- Já sabe quando será nomeado presidente honorário?
- Fernando Gomes já se pronunciou sobre esse assunto. Estou à espera de que me comuniquem quando levam o assunto a Assembleia Geral.
- Nestes 16 anos, o que ficou por fazer na FPF?
- Reformas administrativas e outras no plano competitivo. Fizemos bastante, mas podíamos ter ido mais longe se a Federação tivesse competências que só agora estão consignadas nos estatutos e no regime jurídico. A Casa das Selecções é outra frustração. Apesar da boa vontade, não conseguimos ultrapassar questões burocráticas.
- Como traça os perfis dos seleccionadores com quem trabalhou?
- Todos eles, de Artur Jorge a Paulo Bento, resultaram de escolhas minhas e todos deram o seu contributo para a melhoria da situação.
- Pareceu haver maior cumplicidade com Scolari...
- É uma pessoa extrovertida e imprimiu um estilo próprio à selecção nacional. As minhas relações com ele foram sempre abertas.
- Mesmo após o anúncio da sua contratação pelo Chelsea, em pleno Europeu de 2008?
- A forma como saiu foi precipitada. Claro que foi ele que assinou contrato, mas foi complicado. As nossas relações ficaram mais tensas. Todavia, continuo a admirá-lo muito.
- A seguir, contratou Carlos Queiroz, mas a história acabou mal. Arrepende-se?
- Fiquei desiludido, não pela sua prestação como seleccionador, porque ele qualificou a Selecção, mas pela forma como se relacionou com Amândio de Carvalho (antigo ‘vice’ da FPF) e as declarações que veio a fazer quando rescindimos o contrato.
- E a confusão que houve no Mundial Coreia-Japão em 2002, em que Portugal não passou a fase de grupos?
- O que se passou é que as relações do seleccionador (António Oliveira) com o vice-presidente (António Boronha) e o director desportivo (Carlos Godinho) eram tensas e acabaram por resvalar para uma série de situações que afectaram a Selecção. É um caso que teve o seu tempo e já está esquecido.
- Carlos Cruz, protagonista na atribuição do Euro’ 2004 a Portugal, acabou envolvido no ‘caso Casa Pia’. Foi um embaraço para a FPF?
- Carlos Cruz não foi indicado por mim para integrar a comissão e sim pelo Governo. Mantive boas relações com ele e só espero que consiga resolver o problema que tem.
- Como vê a exigência de Paulo Bento, em saber se renova antes do Europeu de 2012?
- É um assunto pessoal do seleccionador. Tem o direito de pensar o que quiser. Eu não vou pronunciar-me sobre esse assunto.
- Ver João Vieira Pinto na FPF é motivo de orgulho para si?
- Sim, da mesma forma que Pauleta, Humberto Coelho e outros que lá estão. É sinal de que um jogador de futebol pode fazer carreira na gestão desportiva.
- Não ficou também uma pequena frustração pelo facto de a ‘Geração de Ouro’ não ter conquistado um título?
- Sim, embora não em relação à ‘Geração de Ouro’. Estivemos quase no Euro’2004. Não conquistar um título cria sempre uma sensação de tristeza.
- Acha que o grande problema era a luta entre associações e clubes?
–Não sei, mas quem devia mandar, como vai ser agora, é a FPF. Havia um duplo poder, FPF e Liga. Procurámos coexistir bem. Posso dizer que foi muito difícil resistir às pressões sobre a FPF. Tudo o que se passava era imputado ao presidente da FPF, mesmo em situações que não podíamos resolver. Procurei fazer o melhor possível.
- Se não fossem os problemas de saúde, recandidatava-se ?
- Ponderei bem a minha saída da FPF, não foi só os problemas de saúde, que felizmente já estão resolvidos. Foi, sim, o desgaste destes 16 anos. Tudo isso, e também por entender que era altura de se proceder a uma renovação nas estruturas do futebol português, pesou na minha decisão.
- E a nível internacional...
- Pertenço a comissões da UEFA e da FIFA até 2013. Mas se decidirem nomear-me embaixador da UEFA, como já ouvi dizer há dias a Pascal Torres, representante do presidente Michel Platini, será uma honra.
PERFIL
Gilberto Parca Madaíl nasceu a 14 de Dezembro de 1944 (67 anos), na República Democrática do Congo. Foi presidente do Beira-Mar e da Associação de Futebol de Aveiro, antes de assumir a liderança da Assembleia Geral da FPF. Em Maio de 1996, foi eleito presidente e com ele à frente da Federação a selecção nacional assegurou cinco participações em fases finais do campeonato da Europa (Inglaterra-1996, Bélgica/Holanda-2000, Portugal-2004, Áustria/Suíça-2008 e Ucrânia/Polónia-2012). Soma ainda os mundiais de Coreia/Japão-2002, Alemanha-2006 e África do Sul-2010.
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