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Correio da Manhã

Desporto

FUI CAMPEÃO EUROPEU E SCOLARI NÃO ME CHAMOU

Encantado com Inglaterra. É assim que Pedro Mendes se sente depois de uma transferência que lhe causou alguma surpresa. Contudo, algo o entristece: o facto de não ser chamado à selecção. Tristezas à parte, amanhã joga com o Chelsea, onde vai ter a oportunidade de rever Mourinho, Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho.
18 de Setembro de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Faz parte da emigração portuguesa em Londres. Como está a decorrer a experiência no Tottenham?
Pedro Mendes – Estes primeiros meses têm sido muito positivos. A integração no clube foi realmente boa, sem esquecer o apoio dos colegas que já cá estavam e que me ajudaram. E se no plano pessoal tenho razões para estar satisfeito, também desportivamente as coisas têm corrido de acordo com as minhas expectativas. Afinal, tenho jogado e os resultados da equipa estão a ser bons, como comprova a nossa classificação. É uma experiência empolgante.
Mas debate-se certamente com alguns problemas de adaptação, até porque são grandes as diferenças entre a Liga inglesa e a nossa SuperLiga, não?
– Claro. Aqui tudo é diferente, não é só o futebol. Talvez a maior dificuldade que senti foi conduzir com o volante à direita e não à esquerda, como em Portugal [risos]. Mas não é só: a comida nada tem a ver com a portuguesa, a moeda... enfim. Nos primeiros dias, confesso que andava permanentemente às apalpadelas mas depois, com o passar do tempo e com o hábito, tudo se resolve. Mas admito que custa.
E o futebol?
– Não se compara. O futebol inglês é muito mais agressivo, mais rápido e a abordagem ao jogo completamente diferente do que acontece noutros países. Só para se ter uma ideia, posso dizer que já tivemos jogos em que o nosso massagista nem sequer entrou em campo. Em Portugal talvez fosse possível acontecer o mesmo, mas seria por certo uma raridade. Depois, o próprio ambiente à volta dos jogos, toda a envolvência é fantástica. A forma como aqui se vive o futebol é uma motivação extra.
Apesar da boa época que fez no FC Porto, a sua transferência não deixou de ser uma surpresa, porventura até para si próprio. Concorda?
– Sinceramente, não esperava sair do FC Porto. Fui apanhado de surpresa a poucos dias de me apresentar para a nova época. Na altura, soube do interesse do Tottenham, soube que havia esta oportunidade de vir jogar para a 'Premiership' e aproveitei. E não me arrependo. Ao longo da minha carreira, e mesmo quando era mais novo, sempre admirei três campeonatos: o inglês, o espanhol e o italiano. Chegar aqui foi o concretizar de um sonho.
Não ficou desapontado com os responsáveis do FC Porto por estes o terem envolvido no negócio Postiga?
– Claro que não. Pelo contrário. Aliás, aproveito para agradecer tudo o que fizeram por mim. As pessoas do FC Porto foram fantásticas, trataram-me sempre muito bem, tanto profissionalmente como a nível pessoal.
Vive em Londres, cidade que acolhe também os portugueses do Chelsea, alguns deles – Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho – seus ex-colegas. Costumam encontrar-se ou conversar?
– O único com quem já falei, telefonicamente, foi com o Paulo Ferreira, há pouco tempo, mesmo antes dele ir para a Selecção. Na altura, até marcámos um jantar, mas esta semana não nos era possível, até porque Domingo jogamos um contra o outro. Podia não cair bem... Mas não vão faltar oportunidades para estarmos juntos. É só encontrar um momento oportuno. Com os outros portugueses ainda não falei.
Já falou do Chelsea-Tottenham de Domingo, o seu primeiro 'derby' londrino. Como são aí as rivalidades?
– Ainda não tive oportunidade de sentir, porque esta temporada ainda não jogámos contra qualquer equipa de Londres. Mas pelo que sei, a grande rivalidade do Tottenham é com o Arsenal. Fala-se muito disso por aqui. Mas todos os jogos são espectaculares, não é preciso ser entre duas equipas da mesma cidade. O jogo com o Liverpool, em casa, e com o Newcastle, fora, foram fenomenais. Em Inglaterra, há sempre casa cheia. O Tottenham, por exemplo, quando joga em casa, tem sempre 36 mil pessoas no Estádio.
Como classifica, até pela proximidade geográfica, o trabalho até agora realizado por Mourinho, no Chelsea?
– Os números não mentem, o trabalho está a ser excelente, não só o de Mourinho, mas também o dos jogadores portugueses. Somaram quatro triunfos em quatro jogos, no melhor início de época do Chelsea. Tiveram um empate, mas voltaram logo às vitórias, ainda para mais na Liga dos Campeões. Por tudo isto, os portugueses do Chelsea estão muito bem cotados.
E agora recebem o seu Tottenham. Mais um grande jogo em perspectiva?
– Sim, sem dúvida. Acho que, até por se tratarem de duas equipas de Londres, se pode esperar um jogo especial, um grande espectáculo de futebol. E, atenção, nós vamos a Stamford Bridge jogar para vencer. Aqui não há outra mentalidade. Caso contrário, seríamos sempre derrotados.
Estão prontos para jogar taco a taco frente a um dos candidatos ao título?
– Como sempre. Antes de qualquer jogo, a nossa ideia é sempre vencer. Em Inglaterra, chega-se a uma altura de jogo em que não há táctica que resista. O ritmo é sempre infernal, muito exigente para os jogadores. Fisicamente temos de estar muito bem preparados, caso contrário não aguentamos uma partida.
E o Tottenham, onde pode chegar?
– No clube, todos temos o objectivo comum de devolver o Tottenham às competições europeias. Essa é a grande meta. Mas o Tottenham, apesar de não vencer nada há alguns anos, é uma grande equipa, com fãs espalhados por todo o Mundo. Por isso, seria muito bom podermos chegar ao final da época e oferecer alguma coisa a estes adeptos fantásticos. A equipa está empenhada e vai trabalhar para isso.
E os objectivos do Pedro Mendes?
– Continuar a crescer como jogador. Julgo que o facto de estar num futebol diferente, com níveis de competitividade altíssimos, vai forçosamente fazer-me evoluir e tornar-me mais completo. Depois, até pelas conquistas do FC Porto em que participei, é lógico que pretendo manter o hábito de ganhar, mas sei que isso não depende apenas de mim. Ninguém ganha títulos sozinho.
Mas não acha que uma boa época em Inglaterra pode abrir-lhe as portas da Selecção Nacional?
– [pausa] É melhor não pensar muito nisso. Fui Campeão Europeu e Scolari não me chamou, talvez seja melhor limitar-me a trabalhar. O trabalho fala por mim.
O seu discurso parece revelar alguma falta de ambição...
– Não, nada disso. Claro que gostava muito de ir à Selecção e não estou a esconder esse desejo. Mas, sinceramente, acho preferível não fazer disso uma obsessão. Até porque reconheço que a Selecção está numa fase muito boa e que, porventura, não há razões para mudar.
Que análise faz ao trabalho de Scolari?
– Uma análise muito positiva. Depois de um segundo lugar no Europeu, Portugal arrancou bem na qualificação para o Mundial. Esse era o objectivo e está a ser alcançado. Só posso dizer bem.
Mas não estranha que apenas tenha privado com o seleccionador enquanto jogador do V. Guimarães?
– Não sei que lhe responda. É verdade que só pelo Vitória cheguei à Selecção.
"PREFIRO O METRO AO CARRO"
Pedro Mendes, ao contrário de outros emigrantes lusos em Inglaterra, não teve na língua inglesa mais uma barreira a dificultar a adaptação. "Falo muito bem inglês e isso é uma grade vantagem", salienta o jogador, confessando-se cada vez mais ambientado a Londres. De tal forma que, à imagem do mais comum dos britânicos, até já faz do metro o seu meio de transporte favorito.
"Estou muito bem instalado, num condomínio fechado, perto do centro de treinos. É uma zona calma, com todas as condições, e extremamente segura. Estou a cerca de vinte quilómetros do centro de Londres mas, de carro, para lá chegar demoro uma hora e meia, devido ao trânsito. Hoje, quando vou ao centro, prefiro utilizar o metro. Demoro apenas meia hora e não me chateio", disse. Quem aprecia o feitio do português são os adeptos do Tottenham. É que, a qualquer momento, podem sentar-se a seu lado e pedir-lhe um autógrafo, a caminho de Picadilly Circus ou qualquer outra estação do "muito bem apetrechado metro londrino".
A SABRINA, A INÊS E O TEMPERO LUSO
Esta é a primeira aventura além-fronteiras de Pedro Mendes e... não só. Porque com o jogador, para Londres, viajaram também a esposa e a filha. Aliás, segundo o médio, nem poderia ser de outra forma. "Tenho a companhia da minha família e isso é muito importante. A Sabrina [esposa] e minha filhota, a Inês, com 10 meses, dão-me o equilíbrio emocional de que preciso para realizar o meu trabalho da melhor forma", reconhece Pedro Mendes, que enumera ainda outras vantagens: "É muito bom chegar a casa e termos lá quem nós amamos e é isso que acontece", lembra o jogador.
E as saudades? " São muitas, principalmente dos meus pais e da minha irmã, apesar de falarmos diariamente por telefone. Mas também sinto a falta dos amigos e das rotinas que tinha em Portugal. Dos jantares e de outras pequenas coisas que habitualmente não valorizamos e que no fundo, quando estamos privados delas, aí sim, lhes sentimos a importância e damos connosco a pensar. Mas é assim a vida", salienta o centrocampista do Tottenham, que logo descobre nova vantagem que a presença da esposa proporciona: "Até pela comida... Em minha casa, à mesa, felizmente que o tempero é português", enaltece, desaprovando a culinária inglesa. "Aqui, só mesmo os restaurantes italianos se... assemelham. E não é a mesma coisa", garante.
PERFIL
Nome: Pedro Miguel da Silva Mendes
Data de Nascimento: 26/02/79 (25 anos)
Naturalidade: Moreira de Cónegos
Nacionalidade: Portuguesa
Altura: 1,78m
Peso: 77 Kg
Posição: Médio
Clubes representados: Felgueiras, Vitória Guimarães e FC Porto
Clube actual: Tottenham
Internacionalizações: 2
Títulos: Campeão português (2003/2004), Supertaça e Liga dos Campeões, tudo pelo FC Porto.
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