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Correio da Manhã

Desporto
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Futre deixa Figo no banco

Uma viagem aos bastidores da final da Champions na companhia de Paulo Futre e de muitas outras estrelas do futebol mundial.
24 de Maio de 2014 às 18:45
A crónica de Luís Aguilar (jornalista/escritor) no dia em que Futre voltou aos relvados

O dia de sexta-feira começou ainda na quinta à noite: «Luisinho, amanhã vou buscar-te às dez da manhã e seguimos diretamente para o hotel Tiara, onde vai estar toda a equipa do Atlético de Madrid.» Trabalho com o Paulo Futre há muitos anos. Já fizemos livros, programas de televisão e muitos conteúdos para jornais e revistas. Mas contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes que começámos a trabalhar de manhã. No entanto, este é um momento especial. Para ele e para todos os adeptos do Atlético. Às 10 em ponto está à porta da minha casa.

Assim que entro no carro, diz-me logo que nem conseguiu dormir só a pensar na final da Champions. O seu estado de espírito é o espelho de toda a família colchonera. Percebo isso quando chegamos ao hotel. Estão ali algumas dezenas de adeptos do Atlético, mas pela forma como cantam parecem centenas. Falo com um deles: «Somos a maior força deste clube. Por acaso, a final é em Lisboa, mesmo ao lado do nosso país, mas podia ser em Pequim e também irias ver toda esta gente. Vou seguir o Atlético até morrer. E, nessa altura, deixo cá o meu filho para continuar o meu caminho.» Olho para o lado e vejo uma criança que não tem mais de 10 anos. Acena a cabeça a concordar com tudo o que o pai acaba de dizer. Este miúdo não viu o Paulo jogar, mas tem a resposta na ponta da língua quando lhe falo no nome Futre: «É o nosso herói. O nosso símbolo.»

Por volta das 14h chega o autocarro que transporta a equipa de Diego Simeone, um dos primeiros a sair. Estou dentro do hotel e vou para a zona dos elevadores onde o Paulo já segura o microfone da CMTV e prepara-se para entrevistar Tiago e o presidente do Atlético de Madrid, Enrique Cerezo. Tiago é o primeiro. Está bem-disposto e confiante. Depois da entrevista, não nega qualquer autógrafo ou fotografia aos fãs que se aproximam. O presidente é entrevistado pelo Paulo, entra no elevador e Tiago continua rodeado de adeptos. É o último homem do Atlético a abandonar a zona. Afasta-se com um sorriso nos lábios: «Agora tenho de ir almoçar.»

Nós vamos fazer o mesmo, mas já não será ali. Seguimos para o hotel Corinthia onde estão hospedados alguns dos melhores jogadores do mundo de todos os tempos. Olho para um lado e vejo Fabio Canavarro a conversar com Cafu. Também ali está Hierro em amena cavaqueira com McManaman. Rui Costa, Figo, Nuno Gomes, Deco e Maniche formam um grupo onde se ouvem muitas gargalhadas. Karembeu e Djorkaeff posam para fotografias. Michael Laudrup está no bar com familiares. E tantos outros que estas linhas não chegavam só para falar de todas as estrelas. O que fazem ali? São os protagonistas do UEFA Ultimate Champions: um jogo de futebol de cinco entre velhas lendas da Liga dos Campeões que irá ter lugar na Praça do Comércio. O Paulo será o treinador dos portugueses. Os estrangeiros serão orientados por Butragueño. Com uma particularidade: o guarda-redes desta equipa chama-se David Pereira. Quem? Um jovem que ganhou o concurso para poder jogar com as estrelas. Basta olhar para ele e percebe-se logo que está nas nuvens.

CONSTELAÇÃO DE ESTRELAS 

Os autocarros saem do hotel com os batedores e chegam ao centro de Lisboa num abrir e fechar de olhos. Quando dou por mim estou dentro do campo: «Luisinho, vais ser o meu adjunto», diz-me o Paulo. É uma estreia para mim como elemento de uma equipa técnica. Mas para ele também. E começa a sua carreira logo com uma decisão polémica: Figo inicia o jogo no banco. O antigo capitão da seleção parece não gostar da condição de suplente, mas não se deixa abalar. Passado pouco tempo, entra e marca golo na primeira vez que toca na bola. Outro sinal de que os portugueses dominam as operações por completo. É um jogo a brincar, dá para tudo e o treinador chega mesmo a afastar-se do banco para atender uma chamada. «Não pode ser. O mister está ao telefone em vez de nos dar indicações», reclama Figo. «Vocês estão perfeitos. Não precisam que eu vos diga nada», responde o Paulo.

É verdade. Muitos daqueles que ali estão ainda podiam jogar ao mais alto nível. Figo, Rui Costa e Paulo Sousa mantêm toda a elegância. Vítor Baía voa para as bolas com a mesma agilidade que tinha aos 20 anos e Deco continua com aquela classe de toque de bola nos faz viajar, imediatamente, à seleção dos tempos de Scolari. Os portugueses têm um reforço estrangeiro: o brasileiro Cafu. Lenda do Milan e da seleção canarinha. Está com 43 anos, mas é só no passaporte. Corre, dribla, remata, defende e ataca. Um dos elementos fundamentais para a vitória da equipa portuguesa. 14-11? 19-15? 21-17? Ninguém sabe muito bem qual o resultado final. Nem os jogadores, nem os treinadores. Mas também não interessa.

MANICHE COM O CORAÇÃO DIVIDIDO 

No final, falo com Pierre Van Hooijdonk. O holandês que passou pelo Benfica é uma das estrelas do jogo. Ainda está em grande forma: «Sim, tenho 44 anos, mas faço uma alimentação saudável, jogo ténis e futebol.» Está radiante com a temperatura: «Na minha opinião, todas as finais da Champions deviam ser jogadas em cidades com este clima. Olha para isto…» E aponta para o sol. Maniche também é dos mais sorridentes. Fala do fantástico convívio do qual fez parte e aborda a final da Champions: «Joguei no Atlético e tenho muitos amigos no Real. Vou estar com o coração um bocadinho dividido, mas deverá ser mais para o lado do Atlético.» E a seleção? «Estamos num grupo difícil, mas temos qualidade para passar à fase seguinte. Depois, logo se verá. Importante é estarmos todos com a equipa e acreditar nestes jogadores.»

 

Regressamos ao hotel Corinthia. Mais abraços e muitas fotografias. Vou buscar uma água e sou pisado por Ángel María Villar Lona. O presidente da federação espanhola quase me partiu um pé: «Perdoname.» Digo-lhe que não há problema, mas afasto-me a coxear e percebo que aquele é o sinal para me ir embora. Para mudar de ares e ver o espírito da Champions noutros pontos da capital.

Já são quase oito da noite. Vou para o sítio onde tudo começou. No hotel do Atlético ainda estão centenas de fãs. Agora aguardam que a equipa regresse do treino realizado no Estádio da Luz. Volta o autocarro, voltam os gritos, os cânticos, as bandeiras e os cachecóis. O meu dia tinha começado assim. E acabou da mesma forma. O Paulo diz-me que ainda tem de dar dezenas de entrevistas. Eu tenho de ir para casa. Tomar um banho, jantar e escrever esta crónica. Despeço-me dele e aproveito a boleia de um amigo. Quando estou a entrar no carro, o Paulo diz-me: «Luisinho, não te esqueças. Amanhã às dez da manhã.» A saga continua…

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