Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto

GRANDES NÃO SÃO O MEU LIMITE

Várias vezes alvo de comparações com José Mourinho, o actual técnico do Belenenses também assume que a sua ambição vai mais além do que treinar FC Porto, Benfica ou Sporting em Portugal. Para já, pensa apenas no sucesso da equipa do Restelo, a qual gostaria de transformar numa crónica candidata à UEFA.
9 de Outubro de 2004 às 00:00
Mourinho referiu uma vez que a única diferença entre os dois é apenas circunstancial: ele teve a oportunidade que você ainda não teve. Concorda?
– Não gosto de fazer uma colagem a Mourinho, muito menos depois de ele ganhar tudo. Temos semelhanças como temos diferenças, a começar, desde logo, pelas nossas personalidades, distintas, quase antagónicas. Somos amigos – e essa é a grande afinidade –, e seguimos, na profissão, os mesmos métodos. Vemos o treino da mesma maneira e seguimos uma linha orientadora semelhante. Ao contrário de valorizar a parte para construir o todo, valorizamos o trabalho do todo, entendendo que o todo é muito mais do que a soma das partes. Essas serão as nossas semelhanças.
Concorda com aqueles que dizem que no futebol já está tudo inventado?
– Discordo completamente. Enquanto jogador sentia dúvidas e inquietações relativamente aos métodos de treino que só desfiz quando me licenciei em Educação Física e procurei a aquisição de outro tipo de conhecimento.
Quer dizer que é necessário ir para a escola para ser um bom treinador?
– Não. Para se ser treinador não é obrigatório seguir a minha via, que passou muito pelo trabalho de investigação. Dou o exemplo de Mourinho. Apesar de licenciado em Educação Física foi com a prática que obteve grande parte do conhecimento. O importante é aprender, evoluir, procurar saber mais porque, ao contrário do que se diz, no futebol ainda não se sabe tudo. Nem nunca isso vai acontecer.
Acha que essa é uma preocupação dos treinadores portugueses?
– Nota-se uma franca evolução. Actualmente, o treinador não pode preocupar-se apenas com as questões do treino. Tem que saber comunicar com os jogadores.
E como Mourinho, manipular a Comunicação Social?
– Não uso essa estratégia mas se entender que devo enviar uma mensagem pública aos meus jogadores ou à massa associativa claro que uso a comunicação social para proveito próprio. Faço-o todos os dias, apesar de nunca optar por declarações de choque, porque isso não combina com a minha personalidade.
Já há quem lhe reconheça personalidade e perfil para substituir José Peseiro no Sporting, caso venha a ser necessário.
– Desejo ardentemente que isso não aconteça. Por dois motivos: porque me sinto muito bem no Belenenses e porque sou amigo de José Peseiro. Qualquer treinador gosta de trabalhar um clube grande, é claro, mas sinto-me bem no Belenenses, a ajudar a preparar o futuro da equipa.
Mas a hipótese não é nova para si...
– Não posso valorizar o diz-que-diz. Desejo sorte a Peseiro, exceptuando, evidentemente, nos jogos com o Belenenses.
Vão jogar um contra o outro dentro de duas jornadas...
– E eu só posso falar pelo Belenenses. A manterem-se os actuais pressupostos, qualquer adversário está ao nosso alcance.
Lourenço ou Pinilla?
– Não conheço Pinilla. Não o tenho visto jogar.
(...)
– Não é ironia. Não tenho visto jogar o Sporting.
Sente-se em condições de treinar um dos grandes?
– As minhas ambições são elevadas. E a mais desejada é treinar no estrangeiro, num bom campeonato. Tenho este objectivo superior porque sei quanto sou capaz de investir em conhecimento, porque estudo e trabalho muito, preocupo-me com a minha valorização profissional e gosto do que faço.
Sente, como Mourinho, que o campeonato português é fraco e desmotivador?
– Não, sinto-me bem no futebol português... mas já fiz estágios no Real Madrid e no Manchester United e gostaria de lá estar, não necessariamente no topo do topo, mas em clubes desses campeonatos. É para isso que me preparo todos os dias.
Treinar um dos grandes portugueses é, portanto, um objectivo intermédio...
– Não necessariamente. Posso treinar como posso não treinar. Não preciso disso para ir para o estrangeiro. Há cinco anos dei a mim mesmo um prazo para atingir a primeira Liga e estar num bom clube. E prometi a mim mesmo mudar de actividade caso não atingisse o objectivo. Agora posso pensar no maior dos objectivos, signifique isso passar ou não por um dos grandes em Portugal. O que quero dizer é que Benfica, FC Porto ou o Sporting não são o meu limite. Quero mais. Mas também pode acontecer dar um grande salto para trás. No futebol, nunca se sabe.
Pinto da Costa tem um grande apreço profissional por si, como tornou claro no prefácio que assinou no seu livro [No treino de futebol de rendimento superior. A recuperação é... muitíssimo mais que recuperar]. É uma porta aberta?
– Pinto da Costa sempre prezou os bons profissionais e penso que deixei no FC Porto, como jogador, a imagem de um excelente profissional. Mas já lá vão 15 anos e ao longo desse tempo não falei com Pinto da Costa mais do que duas ou três vezes.
A ruptura no modelo tradicional de treino protagonizada por si ou por Mourinho é irreversível? Ou o FC Porto teria sobrevivido com Del Neri?
– Não. A primeira mudança fez muito mal à equipa. Os riscos seriam muito grandes. Os pressupostos de Del Neri e de Mourinho são tão diferentes que os riscos seriam muito grandes. Penso que agora o FC Porto está a recuperar a identidade que perdeu por momentos e na recente análise que fiz à equipa percebi que recuperou a organização ofensiva, a defensiva e até o que é mais dificil de recuperar – a eficácia na fase de transição de defesa para o ataque e vice-versa.
O Belenenses é candidato a um lugar na UEFA?
– No início da época foi-me pedido um lugar nos 10 primeiros da tabela. Não podemos esquecer que, na época anterior, a equipa quase desceu de divisão e a massa associativa estava muito pessimista. Agora, penso que está demasiado optimista e compete encontrar o equilíbrio. Por isso, digo que o importante não é transformar o Belenenses num esporádico candidato à Taça UEFA mas sim num crónico candidato ao lugar. Quero bom futebol e muitos golos. Como aconteceu no Leixões e no Vitória de Setúbal. O Belenenses tem um excelente futebol, se não for mesmo a equipa que, neste momento, melhor o pratica em Portugal.
"NÃO POSSO DAR TIROS NO PRÓPRIO PÉ"
Depois do jogo com o FC Porto anunciou a possibilidade de lhe “saltar a tampa” por causa da arbitragem...
– Essa frase não foi dita em resultado directo da arbitragem ao jogo. Foi retirada do contexto. Apenas disse que se um dia tivesse que falar da arbitragem não o faria por um único jogo mas sim por uma sequência de erros acumulados.
De facto, poucas horas depois, no seu ‘site’, um texto altamente elogioso para a arbitragem portuguesa. ‘Se não podes vencê-los, junta-te a eles’?
– De forma alguma. Mas como agente do futebol não me compete denegrir o espectáculo. Não posso dar tiros no próprio pé.
Também lamenta, nesse artigo, a atitude daqueles colegas que se aproveitam dos erros dos árbitros para desviar a atenção do fraco futebol das respectivas equipas...
– Exactamente. Não sou um anjinho mas acho incorrecto a utilização da arbitragem para desviar a atenção de um jogo menos conseguido. Tenho colegas que insistem nisso e tenho pena porque muitas vezes condicionam as crónicas da imprensa.
"POSSO SER DEMOCRATA OU DITADOR"
O que nunca admite a um jogador?
– Tenho uma liderança flutuante. Depende dos momentos e das equipas. Por regra, ando com a flor numa mão e com o vaso na outra. E tanto dou a flor como atiro o vaso. Todos eles sabem que não podem pisar o risco. Aconteceu isso no Leixões. O jogador foi afastado.
O que é isso de liderança flutuante?
– Há alturas em que podemos ser democratas, noutras em que é preciso ser um ditador. A rua disciplinar que traço é de sentido único. Os atletas podem optar pelo sentido proibido mas ficam sem carta.
Quantas horas gasta com o seu ‘site’ pessoal?
– No princípio muitas, porque, só no primeiro mês o ‘site’ recebeu 4 mil e tal visitas. Agora, uma manhã para escrever uma crónica.
E que mais gosta de fazer?
– O meu ‘hobbie’ é estudar, ler trabalhos monográficos, gosto de andar de bicicleta, da natureza, cinema e comer.
PERFIL
Carlos Augusto Soares da Costa Faria Carvalhal nasceu em Braga a 4 de Dezembro de 1965. Percorreu todos os escalões do Sp. Braga e foi internacional português até ao escalão de sub-21.
Estreou-se, ainda júnior, na equipa sénior dos bracarenses e jogou ainda no Chaves, FC Porto, Beira-Mar, Tirsense e Sp. Espinho, clube onde iniciou a carreira de treinador.
Depois treinou ainda o Freamunde, o Vizela, o Aves e o Leixões, levando a equipa à final da Taça de Portugal. Na época passada orientou o Vitória de Setúbal, ajudando a equipa do Sado a regressar ao escalão principal do futebol português.
É licenciado em Ciências do Desporto e em Educação Física - Especialização em Alto Rendimento - Futebol (Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade do Porto).
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)