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Correio da Manhã

Desporto
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Grandeza feita à medida

Braga segue uma estratégia oposta à dos emblemas que no passado tentaram ser o '4.º grande' clube nacional.
6 de Outubro de 2012 às 15:00
O capitão do Braga é exemplo do aproveitamento de jogadores com nível de clube grande
O capitão do Braga é exemplo do aproveitamento de jogadores com nível de clube grande FOTO: direitos reservados

O método que António Salvador elegeu para elevar o Sporting de Braga volta a distinguir um profissional há alguns anos na penumbra, valorizando a experiência ao nível dos clubes grandes. O resgate de José Peseiro de um longuíssimo afastamento para o patamar de maior reconhecimento, através da conquista de resultados e de aplausos generalizados, surge na linha da sucessiva recuperação de jogadores com passagens fugazes e pouco bem sucedidas pelos três clubes grandes, os adversários de referência.

O objectivo de alcandorar o clube minhoto ao segmento superior assenta de facto numa estratégia oposta à seguida noutros tempos pelos dirigentes de Belenenses, Vitória de Setúbal ou Boavista. O Braga procura fortalecer-se com jogadores experientes e com a noção da grandeza pretendida através da passagem nalgum daqueles clubes, enquanto os anteriores candidatos a «4.º grande» criaram equipas a partir do nada e tiveram de assistir aos seus declínios quando os seus melhores jogadores começaram a sair para os adversários.

Enquanto for possível esta via de reforço, que serve até os propósitos da selecção nacional, o Braga manter-se-á em ritmo crescente e pode aproximar-se do Sporting em poucos anos. Mas, como se viu recentemente com a transferência do brasileiro Lima para o Benfica, a notoriedade e competitividade da equipa constituem a maior ameaça à estabilização deste crescimento.

O primeiro sintoma de declínio de um clube grande, em Portugal, é a perda de jogadores para um rival directo. O Braga só será grande quando conseguir resistir ao assédio de Benfica ou Porto e quando os próprios jogadores entenderem que só vale a pena sair para um importante emblema estrangeiro, como acontece com os profissionais daqueles dois clubes.

DEZ ANOS QUE MUDARAM O BRAGA

Antes de 2003: 3 pontos por ano*

Até à posse de António Salvador, em Fevereiro de 2003, o Sporting de Braga registava uma média de apenas 3 pontos (em 18 possíveis) conquistados em cada época frente aos três grandes. Este indicador ficava então claramente aquém do Belenenses, do Boavista e dos dois Vitórias, que já se tinham candidatado em diferentes ocasiões e décadas ao título de «4.º grande».

Desde 2003: 5 pontos por ano*

Com Jesualdo Ferreira, o Braga começou a bater-lhes o pé e desde 2007 já equilibrou os confrontos com o Sporting (5 vitórias e 5 derrotas) e conquistou pontos com regularidade a Benfica e Porto. Esta média de 5 pontos por temporada frente aos três grandes atingiu o seu expoente com Domingos Paciência (12 pontos em 2009-10) e tem tendência a crescer com José Peseiro.  


* Contra os três grandes na Liga portuguesa 

ALAN: Brasileiro de dimensão europeia

Sagrou-se bicampeão no FC Porto, mas talvez as duas temporadas menos conseguidas de Alan em Portugal, onde chegou em 2001, terão sido precisamente as que passou no grande clube. Com ele, as equipas, incluindo do Marítimo e do Guimarães, chegaram sempre a lugares europeus, porque essa é a sua dimensão. Um dia falar-se-á destes tempos como o «Braga de Alan».

MICAEL: Reforço para grandes momentos

Quando um jogador sai em baixa de um grande clube paga pela incapacidade de afirmação perante uma concorrência interna feroz. Ruben Micael, que se firmou na selecção enquanto era dispensado pelo Porto, tem esse perfil para os grandes momentos, como atesta a incrível estatística de 12 golos em 22 jogos nas provas europeias, e rende melhor com o estatuto de primeira figura.

TREINADOR IDENTIFICADO NA AMBIÇÃO

Há sete anos, José Peseiro tocou o céu e caiu no inferno: o Sporting jogava o futebol mais espectacular, mas perdeu sobre a meta o campeonato e a Taça UEFA. O preço que o treinador pagou pelo insucesso desses meses em Alvalade foi um longo exílio, por terras de Espanha, Grécia, Roménia e Arábias, de onde foi agora resgatado pelo visionário minhoto. As primeiras semanas em Braga confirmam o espírito corajoso e ambicioso do futebol de Peseiro: vontade de ganhar sempre e espectáculo positivo mesmo nos dias piores. Uma identidade absoluta com o desejo de afirmação do clube.

BETO: FINALMENTE Nº 1

Da escola do Sporting, Beto teve uma carreira de enormes dificuldades, não conseguindo impor-se no FC Porto por causa de Helton. A aposta em Braga, onde estava Quim, parecia votada ao mesmo destino, mas a qualidade está finalmente a impô-lo entre os maiores, como n.º 1, com muitos anos pela frente.

NUNO COELHO:PORTUGUÊS INVULGAR

Da escola do FC Porto, Nuno André Coelho cumpriu a via-sacra dos empréstimos, regressou à casa-mãe ao fim de quatro anos, teve uma segunda oportunidade no Sporting, chegou à selecção e desapareceu. De porte físico invulgar para português, entra agora na melhor fase da carreira numa equipa à medida.

CUSTÓDIO:RESGATADO DA CRISE

Durante quatro temporadas, com apenas 20 anos, Custódio foi um jogador preponderante no Sporting, antes de escolher a emigração para a Rússia – um acto falhado que por pouco não lhe custou a carreira. Braga reabilitou-o ao fim de cinco épocas erráticas, no meio da crise vimaranense, como médio de selecção.

HUGO VIANA: SANTO DA CASA

Não se pode dizer que Hugo Viana não tenha singrado no Sporting, pois ambas as épocas conduziram-no, num intervalo de quatro anos, a excelentes contratos com o Newcastle e o Valência. Foi no estrangeiro que o minhoto não se deu bem, em contraste com as quatro épocas ao melhor estilo de um santo da casa.

RUBEN AMORIM: ABAIXO DO VALOR

Emprestado pelo Benfica durante dois anos num dos negócios mais estranhos do futebol profissional, Ruben Amorim luta permanentemente contra problemas físicos, mas tem contribuído com polivalência e prestações de classe, embora ainda num patamar abaixo dos jogadores de selecção e do que pode dar.

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