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Correio da Manhã

Desporto
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“Há que ter coragem para segurar Domingos"

Mário Jardel elogia o treinador do Sporting e pede que lhe dêem tempo. Aos 38 anos, garante que a sua aptidão para os golos ainda podia ser útil, mas frisa que só aceitará jogar num dos três grandes. Afirma ainda que gostava de trabalhar em Portugal como técnico dos avançados do FC Porto ou dos leões.
21 de Janeiro de 2012 às 00:00
Mário Jardel
Mário Jardel FOTO: d.r.

Correio Sport - A que se deve esta presença tão prolongada em Portugal?

Mário Jardel - Vim passar o Natal com a família e fiquei mais tempo pelos meus dois filhos. Gosto muito deles. Em Fortaleza, às vezes, choro só de me lembrar deles. Para mim é uma enorme felicidade estar perto deles, ir aos jogos juntos, matar saudades.

- Para lá de razões afectivas, não existem também razões desportivas?

- Não escondo que gostava de trabalhar em Portugal. Já estou cá há um mês e tenho de pensar em voltar se não resolver nada. Estou bem financeiramente, tenho um negócio de confecções no Brasil e não o posso descurar.

- As expectativas de arranjar emprego por cá são boas?

- Estou a aguardar respostas. O ideal seria trabalhar no FC Porto. Já falei com eles, sabem que preciso de uma ocupação. Posso trabalhar na área de gestão, técnica ou formação, ou treinar os avançados. Tenho muitos conhecimentos e experiência no futebol. O clube que me contratar não se vai arrepender.

- Continua a sentir o carinho dos adeptos?

- Muito mesmo, em todo o lado onde vou chamam-me super-Mário. Dizem-me para ir lá para dentro marcar golos... só com um pé, o direito. Fico muito feliz com isso.

- Ainda se sente capaz de corresponder a esses apelos?

- Boa pergunta. Eu não tenho muita dificuldade em fazer golos, estou convencido de que sim. Contudo, só o poderia fazer num clube grande, que jogue sempre ao ataque, mas duvido que me dêem essa oportunidade. O melhor é pensar em ser treinador, pôr a minha experiência ao serviço de um clube.

- A actual equipa do FC Porto tem essa dificuldade...

- Não é fácil substituir o Falcão, e agora foi o Hulk que se lesionou. Os jogadores não são iguais e o FC Porto irá ter de se virar até o Kléber se adaptar. Vai consegui-lo. A condição psicológica é muito importante para um avançado. Eu, se passasse dois jogos sem marcar, já ficava preocupado.

- Falta um Jardel ao FC Porto?

- O jogador que fazia golos em quase todos os jogos foi-se embora. Falta alguém que ‘bote' a bola lá dentro. É o que todos dizem. Nesse aspecto, falta um Jardel ao FC Porto. Os adeptos querem é golos, pois no futebol o resultado é que conta. Quando se ganha, fica tudo alegre.

- Por aquilo que viu desde os seus tempos de FC Porto, qual seria o ataque ideal para qualquer equipa?

- Eu e o Hulk. Nem quero imaginar a miséria que íamos provocar pelos relvados fora.

- Deu um título ao Sporting, mas Liedson marcou mais golos. Qual dos dois foi mais determinante?

- Acho que todos fomos importantes. Felizmente marcámos muitos golos. As coisas correram-me muito bem no Sporting, apontei muitos golos e dentro da área ninguém conseguia marcar-me. Liedson foi muito importante também, e qualquer clube gostava de ter um ataque formado por Liedson, Jardel e Hulk.

- Carlos Freitas, responsável pela sua ida para o Sporting, regressou ao clube. Já o contactou?

- Mantenho contactos com ele. Por onde passo, deixo sempre amigos. Arranjar um emprego, no Sporting ou no FC Porto, seria óptimo. Preciso de uma ocupação. Se o Sporting ou o FC Porto me contratassem, não ficariam arrependidos.

- Quem vai ser campeão?

- O Benfica está muito forte e vai lutar com o FC Porto até final do campeonato. O Sporting não está fora, embora já não dependa de si próprio.

- Esteve perto do Beneditense, da 3ª Divisão?

- O presidente do Beneditense queria aparecer e apareceu pela negativa. Há poucas pessoas sérias no futebol. Disse que se o meu empresário [André Irolegui] não estivesse presente eu teria assinado. Pois foi pena eu não ter conhecido o André mais cedo. É amigo do amigo e só me tem dado bons conselhos.

- Tem explicação para o que está a acontecer ao Sporting nesta época?

- O clube contratou um excelente treinador, Domingos Paciência. Há que lhe dar tempo. O Sporting tem de ter coragem para segurar o Domingos. A equipa está mais sólida, há trabalho feito, mas os maus resultados criam nervosismo. Só com tempo se consegue entrosamento. O Barcelona é o expoente máximo desta realidade.

- Isso explica mais uma derrota (1-2) do Real Madrid diante do Barcelona, na quarta-feira, para a Taça do Rei?

- Nenhuma equipa do Mundo ganha ao Barça. É uma equipa fantástica, e a qualidade de Pep Guardiola é indiscutível. É assim que se joga e nem vale a pena ter curso para dirigir uma equipa daquelas.

- Que lhe pareceu a exibição de Cristiano Ronaldo?

- Reparei que está a jogar muito mais para a equipa do que antes, em que procurava fazer tudo individualmente. Está a defender mais e é normal que se canse mais.

- No Brasil, está na moda Neymar. É assim tão bom?

- Pode ser o melhor jogador do Mundo. Se não vier para a Europa, será muito difícil saber se é mesmo assim. É o jogador-símbolo do Brasil e se joga mal é logo muito criticado.

- Seria estrela num Real Madrid ou Barcelona?

- Pode jogar em qualquer equipa do Mundo. Todavia, acho que se adapta mais às características de jogo do Real Madrid.

- Causou surpresa a facilidade com que o Barcelona goleou (4-0) o Santos na final da Taça Intercontinental?

- Nem por isso, toda a gente dizia que o Barcelona ia ganhar por dois ou três golos de diferença.

PERFIL 

Mário Jardel nasceu a 18 de Setembro de 1973 (38 anos) em Fortaleza, no Brasil, e iniciou a carreira no Vasco da Gama, em 1991. Chegou ao FC Porto em 1996/97 e em quatro épocas marcou 168 golos em 175 jogos. Transferiu-se depois para o Galatasaray, para regressar ao futebol português em 2001/02, via Sporting. Em Alvalade marcou 67 golos em 62 jogos. Ao logo da carreira ganhou duas Botas de Ouro (1998/99 e 2001/02) e foi cinco vezes máximo goleador em Portugal (1996/97, 1997/98, 1998/99, 1999/00 e 2001/02).

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