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Correio da Manhã

Desporto

Hegemonia segundo Jesus

Treinador sobe a fasquia dos objetivos de curto prazo, mas a prática revela que os alicerces do sucesso ainda são frágeis
27 de Julho de 2013 às 00:00

"O Benfica está cada vez
mais perto de ter a hegemonia
do futebol português"

(Jorge Jesus)

O Benfica começou a nova época a atirar borda fora uma boa oportunidade de inverter a toada perdedora da época passada com uma derrota frente ao rival histórico, o Sporting, no primeiro jogo da Taça de Honra de Lisboa. O desaire seria, só por si, um mal menor, tendo em conta a natureza da prova. Mas acabou por ser exponenciado pelo enquadramento de factos que ajudam a entender uma lógica de insucesso que está nos antípodas da mais célebre e ousada declaração deste defeso, proferida por Jorge Jesus, sobre a hegemonia do futebol português e a forma como o Benfica se posiciona para a recuperar.

Afinal, o que se viu foi a equipa de suplentes do Benfica em evidente défice de atitude, cuja prestação foi branqueada por esfarrapadas desculpas do responsável técnico de serviço (Hélder Cristóvão, treinador da equipa B), que, seguramente sob procuração de Jorge Jesus, falou de "um treino onde o mais importante não era vencer". Frase assassina, noutros tempos.

Construir uma mentalidade ganhadora é uma tarefa tão complexa como ganhar títulos. Mas a prática garante que uma e outra coisa são indissociáveis. E que na maior parte das vezes o desfecho final de jogos decisivos tem menos a ver com fatores aleatórios, como bolas na barra ou erros arbitrais, e mais com o trabalho feito a montante, que acaba por funcionar como escudo para esses chamados desígnios da fortuna.

Se há termo que faz sentido no futebol português é a palavra hegemonia. Desde a criação da Liga, em 1934, já houve três fases hegemónicas (ver caixas), uma para cada um dos chamados grandes. Foram longos anos de supremacia, com muitos títulos acumulados. Jorge Jesus coloca, por isso, a fasquia muito alta. E o primeiro ensaio da época mostra que ainda há muito trabalho por fazer, ao contrário do que indica a sensibilidade do treinador.

AS FASES DOMINANTES DOS TRÊS GRANDES

SPORTING - 1941-1954

O Sporting construiu a primeira era hegemónica do futebol português desde que foi criada a Liga. As primeiras edições da competição, ainda na década de 30, até nem correram bem aos leões. Mas o aparecimento, no início dos anos 40, de uma geração de insaciáveis avançados marcou um tempo. Tendência que se acentuou na parte final da década, quando o Sporting ganhou sete campeonatos em oito anos. Os ‘Cinco Violinos’, quinteto avançado formado por Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano (na foto) vencia e esmagava.

BENFICA - 1955-1977

O brasileiro Otto Glória trouxe para Portugal um conceito então inovador, o profissionalismo. Foi ele o responsável pela fase hegemónica do Benfica, que começou na década de 50 e atravessou imperialmente os anos 60 e 70. Entrou em derrapagem na década de 80 e jamais regressou ao ‘bom caminho’. Nesta fase, que durou mais de duas décadas, o Benfica só por uma vez esteve dois anos seguidos sem se sagrar campeão nacional. E isso aconteceu logo na fase inicial, seguramente quando ainda se assimilavam processos e consolidavam alicerces, indispensáveis ao sucesso.

FC PORTO - 1985 - 2013

A fase hegemónica do FC Porto começou em meados da época de 80 e dura até hoje. O início deste período teve a marca indelével do treinador José Maria Pedroto, que, mais do que impor táticas revolucionárias, mudou a atitude mental dos jogadores. A fase dourada dos dragões coincide também com o longo reinado de Pinto da Costa. Os números impressionam e esta é a maior hegemonia do futebol nacional: 20 campeonatos ganhos em 29 anos. Mais nove Taças de Portugal. E quatro títulos europeus (duas Champions e duas ligas Europa).

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