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Correio da Manhã

Desporto
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Hoje o Sporting é uma equipa com identidade

O técnico do Sporting quer que a equipa seja “o orgulho dos sócios”, numa altura em que Alvalade vive dias agitados devido à proximidade das eleições. Paulo Bento frisa que, nesta altura, o seu futuro no clube é o menos importante e traça o perfil do conjunto ‘leonino’.
1 de Abril de 2006 às 00:00
Correio da Manhã – O que mudou do Sporting de Peseiro para o seu?
Paulo Bento – Não comparo. Cada um tem a sua forma de liderar.
– Qual é a sua?
– Para mim, a palavra-chave é confiança. Com confiança, os resultados positivos aparecem e, com estes, um futebol de maior qualidade. Por isso, os primeiros seis jogos sem perder foram importantes. Também é essencial que o grupo partilhe do mesmo objectivo. Foi minha prioridade unir o grupo à volta da conquista do título e, na altura, da Taça de Portugal. E levar os jogadores a aderirem às minhas regras.
– E quais são?
– As regras da humildade, do sacrifício e do gosto pelo trabalho.
– Todos os treinadores pedem o mesmo...
– Todos pedimos o mesmo mas não o fazemos da mesma maneira. Depende do que se diz, como se diz e do que se faz. Eu só exijo aquilo que dou. No balneário, tudo o que tenho a dizer digo-o sempre olhos nos olhos. E todos os jogadores sabem que a porta do meu gabinete está sempre aberta.
– A redução do plantel de 28 para 23 jogadores também foi importante para a coesão do grupo?
– Foi muito importante. Queria um espírito forte e percebi que tínhamos um plantel demasiado extenso. Reajustei-o. Entraram quatro jogadores – Romagnoli, Koke, Abel e Caneira – e saíram outros, o que permitiu potencializar mais todos os atletas e diminuir a insatisfação que sempre existe nos plantéis muito grandes onde, inevitavelmente, há vários elementos que não jogam.
– Há sempre insatisfação. Nélson, por exemplo, aceitou bem o regresso ao banco?
– Quando chegámos o Nélson estava lesionado. No entanto, a verdade é que o Ricardo é a nossa opção.
– Concorda que a primeira preocupação foi apenas não perder mais jogos?
– O objectivo é sempre ganhar mas naquela altura não estávamos numa situação fácil. Em onze jogos oficiais tínhamos seis derrotas, e um ‘gol-average’ negativo. O primeiro objectivo foi começar a obter resultados positivos que trouxessem confiança, e criar consistência defensiva para, a partir daí, desenvolver o equilíbrio defesa-ataque.
– Como é que recuperou Polga e qual foi a importância da renovação com Liedson?
– A minha preocupação foi levar todo o grupo a funcionar com o objectivo da vitória no campeonato e, na altura, da Taça. E isso só é possível se olharmos para cada um dos jogadores. Sobretudo, para os que estão mais fragilizados. Quando cheguei, o Polga demonstrava alguma irregularidade mas não se podia esquecer a primeira época que fez, extraordinária, e hoje está com muita confiança. Quanto ao Liedson, a renovação foi importante para o Sporting, que ficou com um jogador de grande qualidade, e para o atleta, que viu reconhecido o seu valor.
– A renovação com Polga também é importante?
– O Sporting está numa altura em que não é fácil tomar decisões. Mas parece-me importante que, dentro das possibilidades, prepare o futuro. E estando o Polga numa fase extraordinária, quanto mais depressa o fizer, melhor.
– Hoje a equipa já é à sua imagem e semelhança?
– O Sporting, hoje, é uma equipa com identidade. Penso que todos o reconhecem. Fruto da minha adaptação ao plantel e fruto da adaptação dos jogadores à minha filosofia que tem sempre por objectivo o jogo de qualidade. Comigo, a organização defensiva é apenas o meio que me permite atacar bem, atacar com qualidade. O Sporting tem o melhor ataque da Liga. A determinada altura éramos a oitava melhor defesa. Hoje, temos a terceira melhor defesa.
– Uma das suas principais vantagens é saber adaptar o modelo de jogo ao plantel de que dispõe?
– A minha obrigação é rentabilizar os jogadores que tenho. Também tento, diariamente, que os jogadores se adaptem à minha filosofia mas o sistema de jogo tem de ser traçado em função dos jogadores de que disponho.
– Blindou o balneário à crise. Foi difícil, sabendo-se que pode faltar dinheiro para salários?
– Essas dificuldades ainda não apareceram e é fundamental que não apareçam, muito menos numa fase de discussão da temporada. Em relação ao processo que o Sporting vive manteremos a mesma linha, ou seja, focalizar a equipa apenas nos objectivos desportivos. A equipa já demonstrou capacidade, apesar de ainda não termos ganho nada, para superar os problemas. Neste momento difícil, quero que a equipa seja a alegria e o orgulho dos sócios e para isso é preciso ganhar. Ainda que aqui ou ali com menos qualidade ofensiva. Mas sempre como um todo.
– Já empatou e perdeu com o FC Porto. O que é preciso para ganhar?
– Não quero falar muito do jogo em Alvalade porque eu e os jogadores, neste momento, pensamos apenas no jogo de sábado [hoje], com o Guimarães.
– Com as eleições, teme pelo seu futuro?
– Neste momento o meu futuro não é importante. Importante é decidir o futuro do Sporting. Estou grato pelo convite, pela oportunidade que me deu Filipe Soares Franco e correspondo com profissionalismo e dedicação. Mas as direcções têm liberdade e legitimidade para decidir.
– Se for campeão alguém arriscará despedi-lo?
– Não sei. Desejo muito ser campeão, acredito que o podemos ser, não por um orgulho pessoal mas por um objectivo colectivo.
– É solidário com Carlos Freitas ao ponto de deixar o Sporting se ele a sair?
– Devo solidariedade, primeiro, ao Sporting. Também sou solidário com Carlos Freitas a quem estou grato, porque sei que foi ele que aconselhou Filipe Soares Franco. E fê-lo porque me reconhece competência.
– Pedro Barbosa e Rui Jorge desabafavam consigo quando Peseiro era o treinador?
– Tinha e tenho uma relação de grande amizade com os dois. Independentemente dos cargos, a minha amizade por eles manter-se-á.
– Que relação tinha com José Peseiro?
– Normal. Reunimos algumas vezes, eu na minha função e ele na dele. Era uma relação normal.
– Como deve um treinador reagir à contestação?
– Os sócios têm legitimidade para exteriorizarem o seu desagrado. O treinador tem a obrigação de saber em que profissão está metido e de ser fiel às ideias e ao trabalho que está a desenvolver, pensando pela própria cabeça.
– Os sócios do Sporting até se esquecem do seu passado benfiquista...
– Porque isso não é importante. Vivi, até agora, seis anos extraordinarios no Sporting e espero que assim continue. Ao fim deste tempo tenho um sentimento muito especial por este clube e assim será sempre, independentemente de saber se e quando esta ligação vai terminar.
"NANI DEVE TER OS PÉS NA TERRA"
– Nani está a ser assediado por vários empresários de futebol. Tem notado instabilidade no jogador?
– A partir da sétima jornada, o Nani tem marcado presença em todos os jogos, seja titular ou não. Considero que é fantástico, tendo em conta que está apenas no seu primeiro ano como sénior e que fez apenas dois anos de formação do Sporting. Deve continuar com a mesma humildade para aprender porque ainda tem muito para evoluir.Por isso não se deve deixar preocupar com algumas situações que o podem desestabilizar e deve viver com os pés na terra para, depois, não ter desilusões.
Nesta fase é importante que tenha consciência do bom que já faz e da qualidade que já demonstra. Mas também deve ter a ambição de fazer mais e melhor. E isso só acontece se estiver disponível para continuar a aprender. É normal que um jogador com esta idade passe por períodos de alguma irregularidade mas que esses períodos não resultem de situações destas.
"NO CURSO SENTO-ME NA ÚLTIMA FILA"
– O que já aprendeu no curso de treinadores?
– Aprendemos sempre qualquer coisa. No curso ouvimos pessoas que numa ou noutra área têm outro tipo de conhecimentos. Há áreas em que, evidentemente, me sinto à-vontade e de que gosto mais como sejam as técnico-tácticas.
– Diga-me uma coisa que já tenha aprendido.
– Aprendemos algumas formas de comunicar. E além disso há um percurso legal que é preciso cumprir e faço-o com todo o agrado quanto mais não seja para não escandalizar.
– Os outros alunos não brincam consigo, sendo o treiandor do Sporting?
– Não. Por vezes, à segunda-feira, discutimos os jogos do fim-de-semana, apesar de termos cargos diferentes. Há treinadores da II B, adjuntos de treinadores da Liga.
– É dos que se senta na primeira fila?
– Por acaso tenho ficado na última.
– E faz muitas perguntas?
– Já fiz. Tenho predisposição para ouvir e aprender.
PERFIL
Paulo Jorge Gomes Bento nasceu em Lisboa a 20 de Junho de 1969. Médio-defensivo, foi jogador do Vitória de Guimarães, Sport Lisboa e Benfica, Real Oviedo e Sporting Clube de Portugal. Foi 35 vezes internacional. Estreou-se na selecção nacional em Janeiro de 1992, num jogo frente à Espanha. Jogou o Europeu de 2000, era seleccionador nacional Humberto Coelho.
Abandonou a Selecção, em 2002, depois do Mundial da Coreia. Tinha 35 anos quando pôs fim à carreira de jogador e chorou na hora da despedida, anunciada em conferência de Imprensa. Representava o Sporting e continuou no clube, tornando-se treinador da equipa junior. Nessa mesma época conquistou o campeonato nacional de juniores.
Ao fim de dezasseis meses nos juniores e depois do despedimento de José Peleiro, Paulo Bento foi convidado por Filipe Soares Franco para assumir o lugar de treinador da equipa sénior. Recolocou a equipa na luta pelo título.
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